Visualiza, curte, interage: stories do Instagram rendem flertes, mas também geram ansiedade

Elisa Soupin
·4 minuto de leitura
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Flertando no instagram. Foto: Getty Images

A história é mais ou menos assim: a pessoa A achava a pessoa B interessante e percebeu, pelo Instagram, que B havia terminado um relacionamento. A resolveu investir sem dizer uma palavra: passou a visualizar todos os stories de B, assim que eram postados. B percebeu a maior frequência de A entre suas visualizações e passou a olhar os vídeos de A de volta. Depois de uma semana, A viu uma publicação e achou que era hora de investir mais pesado: em um clique, mandou palminhas. Foi o ponto de partida para engatar um flerte.

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A situação não é novidade: para os solteiros que usam a plataforma, os stories são uma ferramenta muito útil para ser notado e puxar papo. A questão é que, muitas vezes, a dinâmica estabelecida começa a gerar ansiedade.

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Foi o que aconteceu com a social media Júlia Vieira, de 28 anos. Ela, que costuma fazer uma curadoria estratégica do que vai postar, percebeu que, com diferentes crushes, a dinâmica ia se repetindo. “Eu percebi que que ficava ansiosa quando eu postava um story e via que um crush ainda não tinha visto. Ficava atualizando e olhando as bolinhas até a pessoa aparecer e quando isso não rolava, eu ficava muito angustiada”, conta ela. A ansiedade também batia ao ver o que o crush tinha postado: “Ficava pensando onde era aquela foto, o que podia estar acontecendo, o que a pessoa estava fazendo”, narra.

Para mudar a situação, Júlia resolveu mudar de estratégia. “Agora, eu bloqueio os meus stories e oculto os dos caras. Assim não fico querendo ver se já viram o que postei e nem vejo o que postaram”, diz ela, que acha que a medida a ajuda.

O comunicólogo Rodrigo Amorim, pesquisador de relacionamentos 2.0, conta que situações como as de Júlia são muito comuns, pela própria dinâmica que rege o aplicativo.

“Uma coisa muito interessante é que quando você ganha a rede, a rede também ganha você. A ideia do algoritmo, dos filtros e dos stories é manter você ali pelo máximo de tempo possível. Para o algoritmo ‘gostar’ de você, para você ser relevante, você tem que seguir produzindo conteúdo”, diz ele.

Quando aplicamos essa lógica às relações, a coisa ganha outra escala: “Você tem que aparecer sempre para não ser esquecido por aquela pessoa. Tem que postar, tem que pensar no que vai postar para ser um conteúdo que mantenha o outro entretido. As visualizações e interações são métricas que falam de afeto. Não existe separação entre o real e o virtual: quem me assiste, quem me curte, gosta de mim, me deseja e a gente quer se sentir desejado”, explica ele.

Se a sua média de visualizações é de 200 e um dia você consegue 250, começa a querer produzir mais conteúdo daquele tipo, para agradar, chamar a atenção: dançar a dança dos likes.

A psicóloga clínica Lígia Baruch estuda o assunto e em seu doutorado defendeu a tese Tinderelas: busca amorosa por meio de aplicativos para smartphones. Ela acredita que é impossível falar de relacionamentos hoje e que é preciso parcimônia para interpretar o outro a partir de um story.

“O instagram é editado, escolhido a dedo para mostrar o recorte que você quer para as pessoas. E, particularmente quanto aos stories, pode gerar muita tensão nas relações se uma das partes não vir ou se demora para ver, gera um comportamento muito ansioso, compulsivo mesmo”, alerta.

E as redes se baseiam exatamente nessa dinâmica que gera ansiedade e compulsão: curte, vê stories, interage, posta, olha as visualizações, chegou notificação. “Ninguém posta no vazio, você espera o resultado da sua postagem, busca atingir alguém. Pode ser para seus amigos, para um ex, para o ficante. Aí é que está o problema: a partir da resposta, acontecem interpretações que podem não ter a ver com a realidade. Se a pessoa não vê logo, não significa que está te ignorando e se é a primeira a visualizar, não quer dizer necessariamente que gosta de você, tem que haver cautela”, diz.

E como lidar melhor com essa dinâmica? “Eu diria que o trabalho de base é o de fortalecimento do seu eu, nas redes e na vida. E sobre os stories, não perca de vista que você pode estar interpretando mal certa mensagem. Uma música, uma foto, um texto podem não ser o que você pensa e ninguém tem a obrigação de estar conectado 24h. As pessoas são mais complexas e as mensagens também. Duvide das interpretações imediatas, as coisas são maiores e mais abrangentes”, diz.

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