Instituto da USP lava roupa suja e mantém licença remunerada a defensor do 'gabinete das sombras'

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***ARQUIVO***São Paulo, SP, BRASIL, 01-11-2016:   Entrevista com o  Paolo Zanotto,  professor  e doutor do Dep de Microbiologia do  ICB (Inst de Ciencias Biomedicas  da USP) e maior especialista do assunto no pais (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)
***ARQUIVO***São Paulo, SP, BRASIL, 01-11-2016: Entrevista com o Paolo Zanotto, professor e doutor do Dep de Microbiologia do ICB (Inst de Ciencias Biomedicas da USP) e maior especialista do assunto no pais (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Instituto de Ciências Biológicas da USP decidiu lavar a roupa suja nesta terça-feira (13). Em reunião fechada, professores e alunos repudiaram a decisão da direção de conceder uma licença remunerada a Paolo Zanotto, defensor do chamado tratamento precoce e célebre por sugerir ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) a criação de um "gabinete das sombras".

Após ouvir argumentos favoráveis e contrários a Zanotto, o ICB não mudou sua posição. O virologista quer desenvolver um projeto sobre purificação de água no British Columbia Institute of Technology, no Canadá. Ele obteve aval da USP no começo de junho e poderá se ausentar por dois anos. Só falta o instituto canadense confirmar interesse na participação do pesquisador.

O afastamento de Zanotto chamou a atenção pelo momento em que foi autorizado, em 9 de junho. Dias antes, o site Metrópoles havia publicado vídeos que mostram uma espécie de "ministério paralelo" repassando a Bolsonaro orientações contra as vacinas e a favor de medicamentos sem eficácia contra a Covid.

Desde então, o virologista do ICB, que figurava entre os conselheiros do presidente, tem travado um embate com colegas e alunos da USP que questionam tanto as teses defendidas pelo docente como seu envolvimento na tomada de decisões do governo federal. Zanotto diz ser alvo de perseguição.

Na época, a divulgação do vídeo levou a direção do ICB a emitir nota pública dizendo que a "opinião e a conduta dos membros de sua comunidade são de responsabilidade estritamente pessoal" e que "rechaça veemente qualquer tipo de abordagem anticientífica e ideológica no combate à Covid-19".

A mesma nota dizia reconhecer que uma das funções da universidade é "defender a liberdade de expressão e a diversidade de opiniões".

Dois dias depois do comunicado, a mesma direção do ICB aprovou a licença remunerada solicitada por Zanotto.

A autorização fez com que entidades estudantis e unidades do ICB questionassem a direção. Nesta terça (13), ocorreu uma reunião da congregação do ICB para discutir as contestações e para que Zanotto pudesse se defender das críticas.

Em carta, a associação de pós-graduandos do instituto pediu a revisão do afastamento e a cobrança de esclarecimentos do docente sobre suas "condutas institucionais". Para a entidade, Zanotto "demonstra falta de compromisso com a posição de prestígio que a USP tem perante a opinião pública nacional e internacional".

O Centro Acadêmico Rosalind Franklin também emitiu nota de repúdio à atuação de Zanotto com o governo federal pelo "descumprimento da ética enquanto pesquisador" e diz que a autorização do afastamento pode ser "interpretada como passe livre para que o docente possa fugir de suas responsabilidades e como mais um ato de impunidade".

Os grupos estudantis dizem que, ao ignorar a atuação de Zanotto, o instituto põe em risco a sua posição de renome e classificam como inaceitável a defesa de "uma suposta liberdade de expressão" do docente diante da "ameaça à saúde pública".

Após a divulgação das cartas, defensores de Zanotto também se mobilizaram. Um abaixo-assinado, que contava até a noite desta terça com 25 mil assinaturas, foi organizado em defesa da "liberdade acadêmica" do professor.

O grupo Médicos pela Vida, que defende o tratamento precoce contra a Covid e do qual Zanotto é uma espécie de consultor informal, também emitiu carta de apoio, dizendo que o docente é "atacado por uma horda de fanáticos".

O aumento do embate, inclusive, levou a instituição canadense a afirmar que a solicitação do virologista para trabalhar no projeto de purificação de água ainda está pendente. Segundo a instituição, a ida de Zanotto depende de avaliações internas e do governo canadense.

Ao ser questionado sobre as teses defendidas pelo virologista para o enfrentamento da pandemia, o BCIT disse que "apoia e incentiva fortemente o uso de vacinas, citadas por órgão de saúde canadenses e pela Organização Mundial de Saúde como uma das principais ferramentas na luta contra a Covid-19".

Mesmo sem a confirmação do instituto canadense, Zanotto está autorizado a tirar a licença remunerada por dois anos, em data ainda não definida.

Para Gustavo Amarante, vice-diretor do ICB, a discussão realizada nesta terça foi importante para restabelecer o "espírito democrático, a tolerância e a liberdade acadêmica" inerentes à universidade. Para ele, os conselhos e órgãos que analisaram o pedido de licença do professor não são "fóruns investigativos", por isso, não podem avaliar a atuação externa de Zanotto.

"Não posso falar se ele [Zanotto] faltou com ética em outra instância, nossa responsabilidade é institucional. Há um limite das nossas atividades", diz.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Zanotto afirmou ser vítima de um "verdadeiro assasinato de reputação". Ele nega ter defendido tese relativa a políticas públicas ao governo federal e afirma só ter feito uma sugestão "em carta para o Dr. Weintraub [o ex-assessor da Presidência da República Arthur Weintraub] para a criação de um grupo de vacinologistas e imunologistas, para que de forma independente dessem assessoria ao Ministério da Saúde no processo de escolha e avaliação de plataformas vacinais".

O docente também disse que há "evidência científica" comprovando a eficácia do tratamento precoce e que, se for convocado a depor na CPI, fará um "relato dos tratamentos da Covid-19 sendo usado em vários países e seus resultados".

Sobre o convite ainda pendente na BCIT, Zanoto diz que os ataques que sofreu, ao ter suas teses expostas e confrontadas à instituição canadense, "estremeceram a relação institucional", mas afirma que a repercussão negativa está sendo mitigada.

Zanotto diz não considerar suficiente o espaço dado pela USP para se defender do "desrespeito no âmbito interno da universidade". Ele argumenta que a reunião deveria ter sido transmitida publicamente.

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