Instituto prepara ex-presidiários para trabalharem como atores e técnicos de filmes e séries

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Após passar sete anos e dez meses preso, Gilson Camilo de Oliveira deixou a Penitenciária Dr. Serrano Neves, no Complexo de Gericinó, no fim de 2011. Naquele momento, havia dedicado quase duas décadas de vida à prática de crimes: acumulava anotações por roubo, furto, falsidade ideológica, estelionato, lesão corporal, tráfico de drogas e receptação. O rapaz, entretanto, saiu de Bangu, na Zona Oeste do Rio, com um destino certo para mudar seu futuro: Estácio, na Região Central da cidade, onde se matriculou num curso de canto.

De lá para cá, Gilson aprendeu também direção e produção de elenco, participou de filmes de cinema e séries de televisão e criou o Instituto Pena Máxima, projeto social que acolheu e capacitou, nos últimos quatro anos, mais de 250 pessoas para também mudarem de vida por meio da arte. A grande maioria dos alunos se envolveu com a criminalidade e teve no audiovisual uma oportunidade de recolocação profissional.

— Tive uma infância muito difícil, morava no alto do Complexo do São Carlos, em uma casa simples de quarto e sala com meus pais e meus três irmãos. Passamos muita dificuldade, meu pai bebia e batia na minha mãe. Eu não conseguia me concentrar nas aulas e acabei repetindo a 3ª série cinco vezes, convivia com trocas de tiros. Acabei optando pelo caminho errado. Mas hoje posso dizer que sou a prova de que a arte transforma e salva vidas — garante ele, que hoje tem 43 anos.

Filho de um compositor e sambista e de uma doméstica que atuava como baiana na escola de samba Estácio de Sá, Gilson é o primogênito de dois homens e uma mulher. Aos 13 anos, ele diz ter começado a notar vizinhos mais velhos roubando e desmanchando motos. Começou ajudando com pequenos favores e acabou cedendo aos maus exemplos. Ele conta ter roubado o primeiro carro ainda na adolescência:

— Eu cresci rodeado de influências negativas e acreditei que aquele era o caminho mais fácil para ter uma condição melhor. Só anos depois, quando tive contato com outras referências, já preso, é que fui entender que nada daquilo valia a pena.

O primeiro contato de Gilson com biblioteca e oficinas de arte e cinema foi no projeto Carceragem Cidadã, na 52ª DP (Nova Iguaçu), em 2006. A partir de então, ele continuou em outras iniciativas dentro do cárcere e, ao sair, ganhou um bolsa para um curso de câmera no Humaitá.

— Gilson é o retrato da vitória da superação — define a autora, diretora e produtora Raíssa de Castro, que trabalhou com ele no longa-metragem “Rocinha, toda história tem dois lados”. — No filme, tive a oportunidade de utilizar 90% da mão de obra local, para contar, na perspectiva de uma criança, como é a rotina da comunidade. Montei uma companhia sem padrões, com brancos, negros, magros, gordos, velhos, novos, e pude perceber que as pessoas só querem ter uma chance de trabalhar. Infelizmente, os cursos são caros e muitos não têm a chance de conseguir pagar.

Braço direito de Gilson no Instituto Pena Máxima, Joelson de Oliveira, de 43 anos, já trabalhou como office boy, pintor de carros, corretor de seguros e camelô. Recentemente, ele fez o papel de um mototaxista na última temporada de “Arcanjo Renegado”, do Globoplay:

— Como lá atrás não tivemos uma oportunidade, tentamos hoje oferecer isso aos menos favorecidos. Sabemos que muitos têm talento, mas não conseguem ser reconhecidos. E, para quem sai da prisão, tudo fica ainda mais difícil. Nosso trabalho é justamente para resgatar essas pessoas.

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