Institutos criam pontes com ONGs locais e distribuem 1.000 toneladas de alimentos no Rio

ANA LUIZA ALBUQUERQUE

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A sociedade civil e os empresários fazem doações em dinheiro. Com a quantia, um instituto compra produtos de necessidade básica e os transporta às favelas do Rio de Janeiro. Lá, ONGs locais distribuem os itens entre os moradores mais vulneráveis.

Essa é a operação da campanha "Rio Contra Corona", do movimento União Rio, que já arrecadou mais de R$ 10 milhões e entregou 1.000 toneladas de alimentos em 178 comunidades no estado.

Idealizada por três mulheres dos institutos Phi, Banco da Providência e Ekloos, a campanha começou a recolher doações em um site próprio no dia 15 de março. Na primeira entrega, dois dias depois, os moradores receberam material de limpeza para a prevenção contra o novo coronavírus.

Logo em seguida, no entanto, a fome despontou como a principal demanda das famílias. Começaram a ser distribuídas, então, cestas básicas com itens como arroz, feijão, ovos e café. Uma cesta alimenta de quatro a cinco pessoas por 20 dias.

À medida que os meses passam e as famílias continuam sem renda, as necessidades também mudam. A organização percebeu que não foi suficiente doar as cestas porque os moradores já não têm mais dinheiro para comprar gás.

Por isso, a campanha estuda entregar um cartão com R$ 200, para que os beneficiados possam cozinhar os alimentos e comprar proteína para complementar a dieta.

Nesta primeira fase, o projeto foi abraçado por diversas camadas da sociedade fluminense, e obteve doações de R$ 5 a R$ 2 milhões. As organizadoras ressaltam, no entanto, que as quantias precisam ser renovadas para garantir as entregas nos próximos meses.

"Eram R$ 10 milhões. Consumimos com as entregas e agora temos R$ 1 milhão. Não adianta a pessoa doar uma só vez, precisa ser no mínimo uma vez por mês", afirma Andréa Gomides, do Ekloos.

Segundo cálculo das organizadoras, nas 55 maiores comunidades atendidas pelo projeto são necessários R$ 9 milhões para ajudar 15% das famílias, que estão na extrema pobreza.

É o caso da família da faxineira Chintia Rodrigues, 35, uma das beneficiadas pela campanha. Ela mora com o marido e cinco filhos, de idades entre um e 15 anos, em um barraco de madeira na favela Gogó da Ema, em Belford Roxo.

Antes da pandemia, o marido trabalhava informalmente, retirando entulho de obras com sua charrete. Como as obras pararam, Chintia tem sustentado a família sozinha, com R$ 300 mensais --menos de R$ 45 por pessoa. "É muita boca para comer. A gente já estava sem nada", diz.

Andréa, do Ekloos, afirma que gostaria de expandir a distribuição para outras comunidades. Para isso, porém, precisa garantir a continuidade da entrega nas atuais. Entre as maiores favelas atendidas hoje, estão Rocinha, Vidigal, Alemão e Maré.

"Quanto mais generosas as doações, mais a gente conseguirá expandir. Não adianta eu dar uma cesta e não voltar depois, montar uma estrutura e não conseguir manter. Todo o processo logístico tem que ser feito com segurança do início ao fim para não transformar minha doação num contágio para a pessoa que está recebendo", afirma.

As ONGs locais escolhidas para distribuir as doações já integravam a rede de confiança dos institutos. É o caso da Abraço Campeão, do líder comunitário Alan Duarte, que tem atuado na escolha das famílias beneficiadas e na distribuição dos produtos no Complexo do Alemão, zona norte do Rio. Desde o início da campanha, a organização já entregou 900 cestas.

Antes da pandemia, a Abraço Campeão atendia cerca de 300 famílias. Esse número saltou para 1.800 em abril, diante da vulnerabilidade social gerada pela perda de renda. Em maio, Alan pretende atender 2.500 famílias. Os interessados precisam responder à pergunta: "por que você merece receber essa cesta?".

"Não temos condições agora de apoiar todo mundo. Geralmente priorizamos as famílias que têm mais crianças em casa, com alto risco de vulnerabilidade. Estamos vendo muitas pessoas desempregadas, sem renda, famílias sem ter o que comer. Também houve evolução do tráfico, prostituição, brigas, agressão às mulheres", relata Alan.

Apesar das dificuldades, os moradores têm se unido para tentar viabilizar o distanciamento social, mais difícil em locais onde a busca por comida é diária e onde as casas são pequenas e abrigam diversos membros da mesma família.

"No início tivemos um desafio, como muitas ONGs estão tendo, de combater a formação de aglomeração [para buscar as doações]. Por isso, fizemos uma parceria com o mototáxi Wakanda. Eles se voluntariam um dia na semana para levar as cestas básicas nas casas", diz.

O mesmo cuidado para evitar a contaminação precisou ser tomado em larga escala, desde a compra dos produtos pelo Banco da Providência até o transporte às comunidades.

"É uma operação bem complexa. Quando a gente se mobiliza em épocas de enchentes, por exemplo, logo montamos um mutirão. Agora é o contrário, temos que manter as pessoas afastadas", afirma Clarice Linhares, superintendente do instituto.

"Tivemos que aprender que não podíamos nos mobilizar daquela forma, estruturamos ONGs que pudessem receber as doações com toda a segurança, gravamos um vídeo explicando. Nos preocupamos muito sobre como seria desde o início", diz.

O Movimento União Rio, que reúne empresários, empreendedores, ONGs e ativistas, também tem atuado na frente da saúde. Com R$ 18 milhões arrecadados, serão ativados 200 leitos no hospital de campanha da Prefeitura, sendo 50 de UTI.

Outros 60 leitos intensivos serão abertos no Hospital Universitário do Fundão. O projeto doou, ainda, 62 monitores, cinco respiradores e 50 mil máscaras N95.