Intérpretes de Libras viralizam e ganham os palcos do Brasil em shows

Era para ser um primeiro dia de aula como outro qualquer na vida de Juliete Viana, naquele fevereiro de 2010, não fosse a chegada de seis alunos surdos à turma de normal pedagógico no Instituto de Educação Professor Ismael Coutinho, em Niterói. “Eles começaram a conversar em libras e percebi que era uma fofoca”, recorda-se a niteroiense, de 26 anos. Para não ficar de fora do babado, ela tratou de se inteirar da Língua Brasileira de Sinais e acabou encontrando um caminho profissional. Corta para o fim de semana passado, e lá estava Juliete, no palco da cantora mais famosa do Brasil, traduzindo para o público surdo o show de um dos Ensaios da Anitta, no Rio. “Aquela fofoca me levou a lugares que jamais imaginei”, brinca.

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A jovem faz parte de um time de intérpretes que tem ganhado os palcos do Brasil ao lado de gente graúda, em shows e festivais de música que levam adiante a tradução em libras no entretenimento, popularizada nas lives pandêmicas. A goiana Gessilma Dias, de 49 anos, é uma espécie de pedra fundamental dessa turma, desde que participou da primeira transmissão ao vivo de Marília Mendonça, em 2020. “A presença de tradutores foi uma sugestão de um amigo pessoal da Marília e, por ser novidade, não tinha muita estrutura, recorda-se Gessilma. “Fui colocada diante de uma parede branca, com uma luz forte no rosto, que me fazia parecer bem mais velha.” E assim ela viralizou como a “senhorinha das lives” e viu seu Instagram saltar de 2 mil para 17 mil seguidores. “Bloquearam a minha conta achando que estava comprando fãs.”

A partir dessa primeira experiência, quase todas as lives passaram a repetir o feito. Gessilma fez 11 transmissões só com Marília, que morreu em novembro de 2021, e montou uma equipe para atuar nas transmissões de outros medalhões do sertanejo, como Maiara & Maraísa e Leonardo. Testemunhou, na mesma época, uma articulação de profissionais se formar em todo o Brasil, de maneira orgânica. “É o que chamo de rede do bem. Se precisarem de um intérprete na Bahia ou em Pernambuco, eu sei quem indicar”, afirma. Uma demanda urgente num país com mais de 10 milhões surdos, segundo IBGE, e que garante o acesso à cultura a essa população por meio da Lei Brasileira de Inclusão.

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O fim da era das lives, porém, não significou que os intérpretes deixassem de ganhar trabalhos e likes. O paulistano Adriano Paiva, de 36 anos, caiu no gosto do público no primeiro dia do ano, ao participar do Festival do Futuro, na posse de Lula. Estiloso, mandou ver num lenço vermelho no pescoço e óculos escuros da mesma cor. Para driblar o calor, optou por shorts jeans curtinhos e regata. E foi com esse look que fez a interpretação de um show gospel. O público amou a combinação inusitada, que rendeu uma série de posts. Adriano, porém, acha graça de quem vê ironia na situação. “Tinha 12 anos quando vi uma mulher fazendo um louvor em libras na TV. Achei a coisa mais linda. Peguei o endereço da igreja e fui lá fazer um curso”, conta o intérprete, que tem 19 anos no ramo e já atuou ao lado de políticos como Fernando Haddad e o próprio Lula.

O influenciador goiano Gabriel Isaac, de 25 anos, também fez história no ramo. Com 90 mil seguidores no Instagram, foi o primeiro surdo a colocar tradução de músicas em suas postagens, numa trajetória que já o levou ao trio elétrico de Anitta e à equipe de intérpretes do último Rock in Rio. “Não é porque não ouvimos que não podemos participar. A vibração e os efeitos visuais estão aí para erradicar esse pensamento ultrapassado, ainda mais com a inclusão de libras”, afirma, acrescentando que os eventos precisam ir além da presença de intérpretes. “É necessário divulgar a presença deles, para que isso chegue às pessoas surdas, além de adicionar legendas nos conteúdos.”

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Outro nome célebre da cena é a drag queen Rita D’Libra, interpretada pelo gaúcho Lenon Tarragô, de 32 anos. Com mais de dez anos de experiência, Lenon ganhou notoriedade depois de aparecer com sua personagem numa live da influenciadora Inês Brasil, uma verdadeira fábrica de memes, em julho de 2020. Hoje, tem quase 50 mil seguidores no Instagram. Como seus colegas, Rita não ficou restrita às transmissões on-line, mas repete uma queixa feita por eles: a falta de compreensão sobre a importância de seu trabalho por parte de alguns artistas, já que, muitas vezes, a contratação é feita pela produção das casas de espetáculos ou dos festivais.

Ela própria já foi retirada do palco por segurança de cantora pop, assim como Juliete foi interrompida pela equipe de um famoso DJ. Adriano, por sua vez, precisou lidar com estrelas da MPB que pediram para apagar a luz dele durante a apresentação. “Quando isso acontece, é muito triste”, protesta Rita. “Parece que estamos roubando o brilho deles, mas só queremos fazer o nosso trabalho.”

São artistas que parecem ignorar a dedicação por trás de um ofício que, como define Adriano, equivale a fazer “poesia com as mãos”. Afinal, é preciso um grande esforço intelectual — e físico — para transformar simultaneamente o que é dito e cantado. É por isso que, para dar conta do recado, há um revezamento entre os profissionais num mesmo espetáculo. “Quando questionam isso, digo: ‘Se você conseguir ficar com a mão estendida em 90° por cinco minutos, fico no palco durante duas horas”, ironiza Juliete.

A maior parte dos cantores, porém, lida numa boa com os profissionais. O Festival MPBoca, realizado em novembro passado no Rio, deixou isso evidente, quando artistas como Tulipa Ruiz e Ana Frango Elétrico mostraram total entrosamento com os tradutores. Produtora do evento, Mariana Leivas conta que esses profissionais estavam no projeto, feito de modo independente, desde a idealização. “Não dá para fazer festival de música e deixar alguém de fora. Além disso, não é algo que pesa no orçamento”, salienta.

Para que tudo dê certo, porém, Juliete ressalta o quanto é importante a contratação de profissionais que tenham familiaridade com o repertório de cada apresentação. “Já vi gente em live LGBTQIAP+ que não sabia traduzir ‘bicha poc’”, diz, sobre a gíria usada pela própria comunidade para falar sobre gays efeminados. Ela, por exemplo, não aceita convite para casamentos. “Não sei como se faz Abraão ou Monte Sião em libras.”

Se Juliete tem esse cuidado, os desafios da categoria passam justamente por uma nova regulamentação e o aumento da qualificação profissional. Fernando Parente Jr., presidente da Federação das Associações dos Tradutores, Intérpretes e Guia-Intérpretes de Libras, que reúne mais de 20 associações em diferentes estados, afirma que uma nova legislação, que já passou pela Câmara e aguarda aprovação no Senado, pode contemplar essas reivindicações. “Queremos ampliar a formação superior, mas o nosso intuito não é acabar com o ensino técnico. Acreditamos que o aumento das graduações alcançaria aspectos como melhor formação, aumento salarial e reconhecimento social”, diz.

Segundo ele, como não há um conselho ao qual os intérpretes precisam ser vinculados, é difícil até mesmo mensurar o número de profissionais existentes no Brasil. “Sabemos que são cerca de 4 mil no serviço público”, comenta. A “rede do bem”, enquanto isso, avança a cada dia com as próprias mãos.