Intacta, base de Bolsonaro pensa como o presidente na pandemia, mostra Datafolha

BRUNO BOGHOSSIAN E BRUNO LEE
·4 minuto de leitura

BRASÍLIA, DF, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Apoiadores de Jair Bolsonaro (sem partido) veem hoje uma pandemia menos descontrolada do que os demais brasileiros. Esse grupo também atribui mais responsabilidade pela crise a governadores do que ao presidente e enxerga menos lentidão na distribuição de vacinas do que o restante da população. Números da última pesquisa Datafolha mostram uma divisão entre bolsonaristas e não bolsonaristas na maneira como o país encara a pandemia. A base de apoio ao governo apresenta sintonia com o presidente na hora de avaliar a gravidade da crise e de analisar as medidas implantadas para conter o vírus. No grupo de apoiadores de Bolsonaro, 42% dizem que a pandemia está totalmente ou parcialmente controlada, e 56% afirmam que ela está "fora de controle". Nos segmentos que consideram o governo regular, ruim ou péssimo, só 10% veem uma situação controlada, enquanto 90% apontam descontrole. Essa divergência ajuda a explicar o comportamento político do presidente diante da fase aguda da crise. Embora o país enfrente o pior momento da pandemia, Bolsonaro manteve uma conduta que desconsidera os riscos da doença e ataca medidas de restrição implantadas nos estados -posições que encontram aprovação acima da média em seu eleitorado. Bolsonaro defende pontos que são contrários às opiniões da maioria da população, mas ecoam entre seus apoiadores. Assim, ele reforça os laços com sua base, que permaneceu praticamente intacta ao longo da crise e hoje representa 30% do país. Ainda que sua reprovação tenha subido, esse pode ser um percentual suficiente para levá-lo ao segundo turno nas eleições de 2022. Os dados da última pesquisa indicam que Bolsonaro joga com essa fatia do eleitorado, mesmo que fique na contramão da maioria. Entre os apoiadores do governo, 54% dizem que é preciso acabar com o isolamento e estimular a economia, mesmo que isso ajude a espalhar o vírus. No restante da população, só 20% concordam com essa afirmação, e 70% apoiam deixar as pessoas em casa. Os pontos de contato entre os bolsonaristas e o presidente sugerem que a campanha de Bolsonaro contra medidas de restrição tem ressonância entre seus apoiadores. Ao mesmo tempo, as manifestações desses grupos alimentam a conduta de Bolsonaro. Em mais de uma ocasião, ele disse que fará "o que o povo quiser", ainda que leve em conta só as opiniões de sua base. Um recorte adicional dos números do Datafolha mostra que a ligação de Bolsonaro com seus apoiadores o distancia de outro grupo significativo de eleitores. Os brasileiros que consideram o governo regular, que são quase um quarto da população, têm uma visão da pandemia mais parecida com a dos críticos do governo do que com as posições do presidente. Nesse segmento, 60% dos entrevistados se dizem favoráveis a medidas de restrição para evitar o contágio. Esse índice está mais próximo do percentual pró-isolamento entre brasileiros que classificam o governo como ruim ou péssimo (76%) do que do número registrado entre apoiadores do presidente (35%). Os bolsonaristas cumprem ainda um papel de defesa do governo e ataque a seus adversários. Nesse grupo, 49% dizem que governadores ou prefeitos são os principais culpados pela situação atual da pandemia, e só 9% citam o presidente. No restante da população, 59% atribuem responsabilidade a Bolsonaro e apenas 15% mencionam os outros políticos. O presidente ganha uma dose de apoio até em pontos críticos do combate à pandemia, como a vacinação: 37% dos apoiadores do governo dizem que a imunização está dentro do prazo esperado. Entre os demais brasileiros, esse percentual é de 9%. Ainda assim, a maioria dos bolsonaristas também acha que esse trabalho está mais lento do que deveria (55%). O nível de aprovação de Bolsonaro segue no nível mais baixo desde o começo do governo, em 2019, segundo a pesquisa Datafolha divulgada na semana passada. Esse índice, no entanto, continua estável, em 30%, sustentado por grupos como empresários e evangélicos. Nesse primeiro segmento, o índice de ótimo/bom chega a 55%, um dos mais altos. No segundo, 37%. Em outros segmentos, os números são similares: homens (35%, margem de erro de três pontos percentuais), brancos (35%, margem de erro de três pontos percentuais) e moradores da região Sul (39%, margem de erro de seis pontos percentuais).