Integrantes da Velha Guarda da Portela brilham em lives de samba durante a pandemia

Regiane Jesus
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Tia Surica, Monarco e Noca da Portela têm feito lives na internet durante pandemia

RIO - Quem nasceu no samba não pode parar! Se a tempestade insiste em não passar, Tia Surica, Monarco e Noca da Portela pisam num novo chão, devagarinho, vestidos de azul e branco, para cantarem a alegria mesmo em tempos que não são de carnaval. Ilustres representantes da Velha Guarda da Portela abriram suas casas para, como águias, voarem em direção a um mundo até então desconhecido, o da internet.

Famosa pelo talento culinário, a cantora já faz sucesso com sua feijoada virtual, com direito a soltar a voz e a incentivar, do outro lado da tela, o público a curtir seu som enquanto cozinha e degusta a iguaria. Já o patriarca da família Diniz, um apaixonado por estar no meio do povo, conectou-se para viver momentos musicais ao vivo com os internautas nesse período em que segue confinado em casa. E aquele que adotou a escola de samba do coração como sobrenome aproveita a quarentena para contar histórias das antigas e recordar sucessos da carreira. Com vocês, a experiência, o talento e a majestade desse trio.

Dia 1º de agosto, às 19h, Tia Surica, de 79 anos, faz mais uma edição virtual da sua tradicional feijoada, tendo como palco a página que leva seu nome no Facebook. Antes disso, na próxima terça, às 16h, participa de um bate-papo com o produtor cultural Marcos Salles no perfil do Teatro Rival Refit no Instagram. Como se vê, a agenda da cantora na internet está movimentada. Manter-se conectada é o que faz esta bamba do samba, moradora de Madureira, não perder o rebolado apesar da saudade que sente da antiga rotina.

— Estou com muita vontade de retomar totalmente o meu trabalho, que incluía, além da feijoada, shows solo e com a Velha Guarda da Portela. Sinto falta de ir para o samba, de beber minha cervejinha, dos ensaios na quadra da minha escola do coração.... Desde março, só saio de casa para ir ao médico. Mas sou otimista e tenho fé de que tudo isso vai passar. Enquanto não posso estar ao vivo de forma presencial, um amigo meu me ajuda com a internet para que eu possa fazer as lives, que, aliás, me proporcionam momentos de muita alegria — diz a sambista, que vive numa vila cujas paredes são pintadas em homenagem a ela e a outros bambas da azul e branco, como Zeca Pagodinho e Paulinho da Viola.

Os comentários sobre as lives de Tia Surica são carregados de elogios, mas também de lamento. Afinal, o povo anda saudoso de um certo tempero.

— Todo mundo gosta da minha feijoada, mas, no momento, o jeito é cada um fazer a sua em casa. A minha dica para a feijoada ficar gostosa é não deixá-la salgada — ensina. — Estou triste por tudo que esta pandemia trouxe de ruim, mas feliz com o sucesso das lives. Cada vez tenho mais certeza de que tudo que se faz com amor dá certo!

Monarco, de 86 anos, ainda não fez uma live para chamar de sua. Mas o cantor e compositor virou especialista em participações especiais nessa nova modalidade de estar em contato com o público, ao vivo, pela internet. Morador do Riachuelo, o sambista já deu o ar da sua graça no encontro da Família Diniz na web — com as presenças do filho Mauro e da neta Juliana — e na roda de samba organizada pela Portela:

— Eu fazia de dez a 15 shows por mês e estou sem trabalhar desde março, então os convites para lives são muito bem-vindos! Não domino nada que envolva tecnologia, mas os jovens da família me ajudam a acessar a internet. Eu entendo é de levar alegria para o povo. Gosto de rua, de festa, de agito, mas este momento é de ficar em casa

As mais de sete décadas no samba não permitem que Noca da Portela, de 87 anos, afaste-se por muito tempo do som do cavaquinho ou do tantã. Não à toa, a saída para se manter ativo foi aderir às lives.

— Nunca parei de fazer música, continuo lúcido, então preencho meu vazio cantando e fazendo samba. Aceito os convites que recebo para cantar e contar na internet histórias da minha carreira. Participar de lives é uma fuga para quem está nessa prisão sem grades há mais de quatro meses. Ainda não fiz uma transmissão ao vivo só minha; na verdade, estou organizando uma em parceria com o meu neto Diogão Pereira, que é cavaquinista e compositor — adianta o morador do Engenho de Dentro e que tem o auxílio luxuoso de outro neto, Alisson Pereira, para assuntos tecnológicos.

Assim como Tia Surica, Monarco e a torcida da Portela (e, por que não?, de todas as coirmãs), Noca também tem sentido falta da velha e boa rotina.

— Estou morrendo de saudade de palcos, da minha Portela, do Cacique de Ramos e do meu centro cultural, que fica aqui no Engenho de Dentro e está fechado desde março. Sinto saudade de tudo, mas só podemos voltar aos palcos quando esta tempestade passar. Minha experiência diz, inclusive, que, sem vacina, não dá para ter carnaval no ano que vem. Mas se não tiver folia em 2021, que seja em 2022! — afirma.

Monarco faz coro com o amigo de longa data e parceiro de Velha Guarda.

— O carnaval está correndo perigo. Não é possível ter ensaios, desfiles, com a Covid-19 circulando entre a gente. Enquanto não tiver vacina, é impossível brincar carnaval — observa.

Adiar a folia é a solução sugerida por Tia Surica, caso aglomerações não possam acontecer em fevereiro de 2021:

— Se não puder acontecer na data certa, que seja depois. Mas, em algum momento, vamos ter carnaval. O povo precisa dessa alegria!

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