Inteligência artificial: aliada ou inimiga da humanidade?

Por Pascale MOLLARD-CHENEBENOIT y Richard INGHAM
O cientista britânico Stephen Hawking

A inteligência artificial poderia ameaçar a humanidade, segundo a previsão do renomado cientista britânico Stephen Hawking, um cenário de ficção científica que volta a abrir o debate sobre a tecnologia e o futuro do ser humano.

A perguntas da AFP, antropólogos, futurologistas e especialistas em inteligência artificial se mostram divididos sobre os temores de Hawking.

Os temores de um homem que brinca de ser Deus são antigos e alimentaram grande número de romances e filmes como "2001: uma odisseia do espaço", com seu computador mortal Hal 9000 ou, mais recentemente, o "Exterminador do Futuro", um androide matador.

Mas, atualmente, quem abordou o assunto foi um respeitado astrofísico.

"As forças primitivas de inteligência artificial que já temos demonstraram ser muito úteis", admite Stephen Hawking que, vitimado por uma distrofia neuromuscular, se expressa através de um computador.

"Mas penso que o completo desenvolvimento da inteligência artificial poderia significar o fim da raça humana", declarou, em entrevista recente à BBC.

Para não perder de vista o que acontece neste contexto, o multimilionário Elon Musk explicou já ter investido em empresas de inteligência artificial. "Devemos nos assegurar de que as consequências são boas, e não más", indicou.

"Gostei que um cientista 'ciência pura' tenha dito isto. Eu digo isto há anos", declarou Daniela Cerqui, antropóloga da Universidade de Lausanne.

"Delegamos cada vez mais prerrogativas dos seres humanos a estas máquinas para que sejam mais competentes que nós. Terminaremos transformados em seus escravos", afirmou.

Ao contrário, Jean-Gabriel Ganascia, filósofo e especialista em inteligência artificial, considera excessivo o grito de alerta de Hawking.

"O risco é, sobretudo, o humano que usaria estas tecnologias para submeter" outros seres humanos, considera este professor da Universidade Pierre et Marie Curie, de Paris.

Desenvolver uma inteligência artificial "amistosa"

Nick Bostrom, futurologista da Universidade de Oxford, pensa que "a máquina inteligente conseguirá superar a inteligência biológica. Então, haverá riscos existenciais associados a esta transição".

"As máquinas já são mais fortes do que nós. Penso que também acabarão sendo mais inteligentes, embora não seja o caso atualmente", acrescentou.

Durante estes últimos anos, foram realizados enormes avanços no campo da inteligência artificial com relação à capacidade de tratar, analisar dados e responder perguntas.

No entanto, para Anthony Cohn, professor da Universidade de Leeds (centro do Reino Unido), ainda está longe da inteligência artificial geral completa, que preocupa Stephen Hawking. "Serão necessárias ainda várias décadas", estima.

Mathieu Lafourcade, especialista em inteligência artificial e em tratamento da linguagem da Universidade de Montpellier (sul da França), considera alarmista a advertência do físico.

Para este especialista francês, "em um futuro hipotético" talvez será preciso recorrer às máquinas em algumas áreas, pois suas capacidades intelectuais terão superado as nossas. "A máquina nos proporá uma solução que não chegaremos a compreender, mas na qual será preciso confiar".

Stuart Armstrong, outro futurologista da Universidade de Oxford, avalia que "as incertezas sobre o desenvolvimento da inteligência artificial são extremas".

"O problema é que é extremamente difícil programar objetivos compatíveis com a dignidade ou, inclusive, com a sobrevivência da humanidade", continua.

"Seria preciso programar quase todos os valores humanos perfeitamente no computador para evitar que a inteligência artificial não interprete 'erradicar a doença' como 'matar todo mundo' ou 'manter os humanos sãos e salvos e felizes' como 'enterrar todo mundo em um bunker com heroína'", afirma.

Para Armstrong, "os engenheiros devem levar a sério estes problemas e encontrar soluções para desenvolver uma inteligência artificial 'amistosa', plenamente compatível com os valores humanos".