Longe da Paulista, interior é hoje o maior enclave bolsonarista

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A truck passes a gas station near BR-040 highway, during the truckers' protest in support of Brazilian President Jair Bolsonaro in Valparaiso de Goias, Goias State, Brazil September 9, 2021. REUTERS/Adriano Machado
Foto: Adriano Machado/Reuters

Por conta de questões particulares, precisei viajar para o interior paulista na última semana. Mais precisamente, para uma cidadezinha de 12 mil habitantes onde mora parte de meus familiares.

Fazia apenas dois dias que uma multidão havia tomado a avenida Paulista para demonstrar apoio ao lance fora das quatro linhas ensaiado por Jair Bolsonaro no 7 de Setembro —antes do freio de arrumação costurado com Michel Temer, com Supremo, com tudo, para adiar a guerra total. Quem se impressionou com a capacidade do presidente em reunir apoiadores na maior cidade do país é porque desconhece a moral do ex-capitão fora das quatro linhas dos grandes centros.

Atravessar os quase 350 quilômetros entre o epicentro dos protestos do Dia da Independência e aquela cidade, em direção ao oeste, é atravessar um cenário de terra arrasada em plena expansão. 

Na cidade onde passei parte da infância, a impressão não é que o adensamento urbano hoje pressiona as fronteiras rurais, mas o contrário. A fronteira agrícola é que comeu o que restava da área remanescente de mata atlântica e começo do cerrado. Os bairros afastados hoje são delimitados por ruas de terra, temperatura árida, pastagem e áreas de monocultura das grandes propriedades, cujos donos são, direta ou indiretamente, os maiores interessados em atropelar regulamentos ambientais, trabalhistas e marcos civilizatórios para passar a boiada em paz.

A paisagem hoje ali é basicamente tomada por bandeiras do Brasil e faixas de "Fora Dória", multiplicadas durante as manifestações da véspera, queimadas, áreas desmatadas, caminhões enfileirados à espera de uma revolução ora suspensa e muita, muita gente com raiva. Uma raiva criada e alimentada por um recipiente refratário chamado Jair Bolsonaro, que há tempos deixou de governar para desviar e terceirizar a culpa de tudo de mal que acontece no país, dos governadores aos ministros do Supremo Tribunal Federal.

Há 20 anos, quando ainda passava minhas férias nas casas de tios e avós, era improvável pensar que seria abordado durante o almoço para falar sobre política naquelas terras. Foi o que aconteceu enquanto uma atenciosa proprietária do único restaurante aberto no meio da tarde trouxe à mesa dos clientes atrasados os itens do bufê que ainda não haviam sido congelados.

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Conhecida da família, ela falava que os tempos estavam difíceis. Citava de passagem o preço da carne e do transporte enquanto inspecionava que apito tocavam os visitantes. A certa altura, disse ter recebido naquela manhã, 9 de setembro, a notícia de que havia sido bem sucedido o pedido de intervenção militar tirado no muque por manifestantes que seguiam em Brasília. Por ela soubemos que o país estava em “estado de sítio”.

Constrangido diante de uma pessoa com uma comovente boa fé e disposição em adiar o fim do expediente para que pudéssemos almoçar àquela hora, evitei esticar a conversa, mas não o alerta de que a história do estado de sítio era conversa de WhastApp. Pelo contrário: àquela hora o país se encaminhava para uma pacificação tão temporária quanto frágil.

Decepcionada, a proprietária não demorou a subir o tom e dizer que um estado de sítio, com derramamento de sangue dos traidores, era tudo o que o país precisava. Ela lamentou a perseguição dos “ditadores do STF” contra o camarada Zé Trovão, defendeu a soltura imediata do ex-mensaleiro Roberto Jefferson e disse que topava qualquer coisa, até os filhos do presidente, a quem não demonstrou o mesmo apreço guardado para o pai, desde que o país não retornasse ao comunismo.

Ao visitante, era estranho pensar nos gargalos da narrativa de quem falava dos tempos áureos do restaurante na virada da década passada, quando ela e o marido ganharam muito dinheiro, com o temor de um retrocesso que só Bolsonaro, Jefferson, Zé Trovão e companhia poderiam evitar. Quem ouvisse imaginava que foi em 2009 que a inflação se aproximou dos dois dígitos, o desemprego, dos 15 milhões de brasileiros, o dólar, da casa dos R$ 5.

Simplesmente não dava para argumentar, e a destreza do diagnóstico era uma barreira não contra ideias opostas, mas à própria capacidade de pensar fora das ordens de comando decoradas no WhatsApp. A impressão é que aquela não era uma guerra declarada à esquerda, mas às bases do Iluminismo e da era da Razão.

Aquele mundo paralelo não era um mundo circunscrito. De cada dez pessoas com quem conversávamos, a grande maioria repetia palavras de ordem e raciocínios parecidos. Todos pareciam convictos de que Jair Bolsonaro era o herói de mãos atadas e impotentes diante do sistema representado pelo STF.

Na viagem ouvi relatos de uma trabalhadora que na véspera do Dia da Independência orientou colegas e amigos a colocarem a bandeira na frente de casa para endossar apoio a um novo país que surgiria no dia 8. Quem não o fizesse não seria poupado. Ouvi também o discurso de um pai de família, desinteressado de política até outro dia, disposto a viajar até Brasília, estacionar em frente à praça dos Três Poderes e só sair de lá com os 11 ministros depostos. Nem que fosse na marra. Ou na bala.

Das viagens à cidade da minha infância, lembro da dificuldade de encontrar, na única banca dali, os jornais do dia ou do dia anterior. Por eles, num tempo pré-internet ou acesso a TV a cabo, ainda incipientes, me informava dos resultados dos jogos e também dos humores em Brasília e no mundo como uma espécie de último leitor. A banca de jornal fechou há tempos. Eu mesmo já não consumo informação em papel. Baixo tudo num tablet de preço inacessível para boa parte da população. Teatro, cinema, livrarias, universidades e centros de pesquisa também não florescem por ali.

A onipresença das bandeiras em apoio ao presidente apoiado num mito aparentemente (e só aparentemente) frágil acompanhava as lacunas uma cidade onde as igrejas parecem ser o único empreendimento a ter prosperado da última década para cá.

É um Brasil muito maior do que uma foto na principal avenida do país leva a crer.

Em entrevista recente ao repórter Thiago Herdy, do UOL, o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que de bobo não tem nada, vaticinou: “O Brasil é muito heterogêneo e as pesquisas (que colocam Bolsonaro em desvantagem para 2022) tendem a ter uma visão muito concentrada nos centros urbanos. Os centros urbanos são majoritariamente de esquerda. Os votos conservadores, o voto da direita está no campo, isso está claro. (Estão) No interior do Brasil”.

Quem viaja pelo interior, um arquipélago de várias ilhas de 12 mil habitantes longe do eixo das análises, tem a impressão de que esse dia já chegou.

Transitar ali será tarefa duríssima para qualquer desafiante de Jair Bolsonaro em 2022 —de Lula a João Doria, estão todos no mesmo balaio dos delírios anticomunistas que se enraizaram longe demais das capitais.

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