Internações por Covid crescem 46% em SP em menos de dois meses, mostra plataforma

PATRÍCIA PASQUINI
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O total de internados no estado de São Paulo aumentou 46% na comparação entre 19 de janeiro -considerado o pior momento do pico da pandemia após as festas de final de ano- e 9 de março, apontam dados da plataforma SP Covid-19 Info Tracker, criada por pesquisadores da USP e da Unesp com apoio da Fapesp para acompanhar a evolução da pandemia. As informações foram passadas com exclusividade à reportagem. No dia 19 de janeiro, 13.937 pessoas estavam internadas em leitos públicos no estado, sendo 7.845 em enfermarias e 6.092 em UTIs. Nesta terça-feira (9), os hospitais públicos no estado tinham 20.314 internados. Destes, 11.342 ocupavam leitos de enfermaria e 8.972 de terapia intensiva. Se comparadas as duas datas, o aumento nas internações foi de 45% em enfermarias e 47% nas UTIs. "No final do ano caminhamos para uma situação muito ruim e esse aumento se confirmou. O problema é que após o pico a curva decresceu e voltou a ascender de forma desenfreada, com crescimento explosivo nas duas últimas semanas. Saímos do cenário muito ruim para um pior ainda. O percentual é altíssimo num período muito curto", explica Wallace Casaca, coordenador da plataforma. Para o pesquisador, se a pandemia continuar neste ritmo de crescimento, o sistema vai colapsar nas duas próximas semanas mesmo com a política de abertura de leitos intensificada pelo governo estadual. "Nem assim será possível atender toda a demanda dado o aumento exponencial que estamos enfrentando no estado", completa. "Embora a situação esteja no fundo do poço, infelizmente poderá se agravar ainda mais, a ponto de se nada for feito de mais restritivo, termos gente morrendo nas ruas", diz. Segundo Casaca, alguns fatores avaliados conjuntamente contribuem para a alta de internações e mortes. As variantes em circulação no país potencializam esse aumento. Na prática, é como se fosse uma nova pandemia. "É provável que muitas cidades do país ainda passem pela mesma situação vivenciada em Manaus e em Araraquara." O segundo ponto é a falta de testagem. "O número de testes caiu e as políticas que permeiam o aumento de testagem são essenciais para o controle da pandemia, principalmente para identificar e tentar quebrar a cadeia de transmissão da doença. Se não detectamos novos focos, eles continuarão contaminando novas pessoas e vai se tornar uma bola de neve e um efeito cascata", explica o pesquisador. De acordo com a Fundação Seade, em dezembro de 2020 foram realizados 1.312.917 testes para detecção de Covid-19 no estado de SP. Em janeiro de 2021, foram feitos 779.032. A vacinação é uma medida que diminui taxa de contágio, mortes e internações. Para ser efetiva, é preciso que a cobertura vacinal seja ampla, o que não ocorre neste momento devido à falta de imunizantes. "Por falta de vacinas, não estamos conseguindo administrar as doses em tempo recorde para imunizar boa parte da população e ganhar o que chamamos de imunidade de rebanho. Simplesmente não será possível. O governo estadual focou numa política pró-vacina, o que é muito relevante, mas é importante ter um plano de testagem junto com a vacinação. Do contrário, vivenciaremos o pior momento da pior forma possível cuja solução seria um lockdown severo", afirma. Por último, falta a colaboração de parte da população, que perdeu o medo da pandemia e é incentivada a quebrar as regras do protocolo de segurança contra a Covid-19. Dados da Fundação Seade mostram que foram abertos entre 9 de março e 19 de janeiro 1.759 leitos públicos no estado -um aumento de 21%. Eles somam 10.108 em 9 de março, contra 8.349 em 19 de janeiro. A taxa de ocupação de leitos de UTI é calculada com base na média móvel do total de internados dos últimos sete dias e não no valor absoluto do dia -dado que não é informado pelo governo do estado. "Ontem [9 de março] , a média móvel dos últimos sete dias de pessoas internadas em leitos de UTI foi de 8.289. A taxa de ocupação, de 82%, é referente aos 8.289. Para um gestor é muito mais importante ter o valor absoluto do que a média móvel, porque precisa fazer um planejamento de quantos leitos precisará. Se eu não soubesse quantas pessoas tenho internadas, realmente, eu poderia crer que, em média, teria 8.289 em leitos de UTI ocupados, o que não é real. O dado absoluto de internações ontem é de 8.972", explica. "A média móvel puxa o dado para baixo. Se o gestor olha para a média móvel, ele pode ter o equívoco de achar que poderia criar alguns leitos para satisfazer a demanda, mas já há uma defasagem. É perigoso usar a média móvel para avaliar internações." O governador João Doria anunciou nesta quarta-feira (10) a implantação de mais 338 leitos no decorrer de março para atender casos graves de Covid-19 em diferentes regiões do estado --171 de enfermaria e 167 de UTI. "Este é o terceiro anúncio de abertura de novos leitos que fazemos em menos de duas semanas. Percebam a gravidade e a evolução rápida do vírus em São Paulo e em todo o Brasil. Em duas semanas, São Paulo anunciou 1.118 novos leitos hospitalares, sendo 676 leitos de UTI. Todos estarão operando neste mês de março", disse Doria. Também serão instalados 11 hospitais de campanha com 280 leitos (140 de UTI e 140 de enfermaria) anexados a estruturas já existentes. Para o pesquisador, é difícil saber quando as medidas impostas pelo governo estadual começarão a refletir positivamente na pandemia. Depende do nível de restrição, da colaboração das pessoas e de uma fiscalização intensa. Com as atuais perspectivas, a queda no número de casos e mortes poderá ocorrer em meados de maio. Casaca acredita que entre o final de março e início de abril o estado de São Paulo viverá a pior situação. "Será muito doloroso."