Internações por Covid-19 crescem 20% em São Paulo enquanto Covas alega "estabilidade"

João Conrado Kneipp
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Health worker takes care of a COVID-19-infected patient at the Intensive Care Unit, in the Albert Einstein hospital in Sao Paulo, Brazil, on November 16, 2020. - Brazil, the second country in the world with the most deaths from coronavirus, is registering an increase in hospitalizations that raises fears of a second wave of the pandemic like the one that is hitting Europe and the United States. (Photo by NELSON ALMEIDA / AFP) (Photo by NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images)
O relato do crescimento das internações é feito também por profissionais da saúde de hospitais públicos e privados de SP. (Foto: NELSON ALMEIDA/AFP via Getty Images)

São Paulo registrou aumentos acima de 20% nas internações em leitos municipais de enfermaria e de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) por pacientes infectados pelo novo coronavírus, na comparação dos últimos 15 dias.

O crescimento das internações é exposto também por profissionais da saúde que atuam em hospitais públicos e privados da capital, que temem que o avanço da doença sentido nas classes A e B em São Paulo esteja se espalhando para outras parcelas da população.

A gestão do atual prefeito e candidato à reeleição, Bruno Covas (PSDB), reconhece o que classifica como “variação positiva” nas internações, mas segue alegando que a situação da pandemia da Covid-19 na capital paulista está “estável” e nega uma possível segunda onda.

Na média móvel — que considera os dados de 7 dias —, as internações em leitos de enfermaria cresceram 22%.

Na semana de 9 a 15 de novembro, São Paulo registrou uma média de 672 internados com Covid-19 por dia. Já entre a semana de 16 a 22 de novembro, o número diário de internados passou para 821.

Nos leitos de UTI, destinados aos casos de maior gravidade, o aumento foi de 23% no comparação entre os períodos.

Saltaram de uma média diária de 373 internados por dia para um patamar de 459 pacientes em tratamento intensivo contra a Covid-19.

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A taxa de ocupação dos leitos de UTI também disparou. Entre os dias 9 e 15 deste mês, a capital manteve uma ocupação média de 35%. Já na semana seguinte, de 16 a 22 de novembro, esse percentual saltou para 47%, um crescimento de 12 pontos percentuais.

Os dados consideram os leitos de hospitais municipal e unidades contratualizadas — leitos particulares destinados aos pacientes da rede pública —, e constam nos boletins diários de monitoramento da Covid-19, divulgados pela Secretaria Municipal de Saúde.

‘NÃO PARECE ESTAR SOB CONTROLE’, DIZ PNEUMOLOGISTA

Os relatos de profissionais de saúde que trabalham na linha de frente no combate à Covid-19 na capital também apontam para um crescimento nas internações e no aumento da procura por atendimento de pacientes com sintomas ou suspeita de infecção pelo novo coronavírus.

“As internações e atendimentos têm subido há algumas semanas, mas agora chegaram em um ponto mais preocupante. Em outubro, estávamos quase no ritmo de pré-pandemia, mas vieram os feriados de novembro, dias de sol, e agora tem aumentado progressivamente”, afirma uma pneumologista, que preferiu não ser identificada.

Segundo ela, o volume de procedimentos destinados aos pacientes com Covid ou suspeitos de terem contraído a doença cresceu em diferentes níveis. “Teve aumento de tudo: de UTI a enfermaria; de pedidos por testes a casos confirmados. A demanda por atendimento de telemedicina também cresceu”, completa.

A médica, que realiza atendimentos em dois hospitais referências para casos de Covid — um na rede pública e outro na rede particular —, afirma que em um primeiro momento a demanda veio direcionada aos leitos privados, mas que agora se espalhou e pode ser sentida na rede municipal.

“A impressão inicial era de aumento só nas classes A e B, mas agora está mais disseminado. (...) A pandemia em São Paulo não parece estar sob controle, mas são excelentes profissionais que fazem a análise desses dados”.

A medical worker takes a blood sample for a coronavirus disease (COVID-19) test from student Amanda Chaves Maia, 14, with a Corinthians soccer team tattoo on her arm, at a school in Sao Paulo, Brazil October 1, 2020. REUTERS/Amanda Perobelli
Perfil dos infectados passou a ser de mais jovens. (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)

Enfermeira plantonista em um PS (Pronto Socorro) da zona Sul, Rita Lemos afirma que houve uma mudança no perfil de quem procura atendimento. Agora, na avaliação da profissional de saúde, têm aparecido pacientes mais jovens com sintomas ou suspeitas de Covid.

“Diferentemente do início da pandemia, não é só idoso. Chega muito o que chamamos de jovens adultos, entre 30 e 40 anos, acima dos 40 anos. O perfil mudou pois antes eram pessoas com comorbidade, idosos, doenças pré-existentes”, diz ela. “São pacientes de uma faixa que não tinha sido atingida antes, que conseguiram se manter em casa no começo da pandemia, mas que relaxaram com as medidas”, finaliza.

O QUE DIZEM AS AUTORIDADES PAULISTAS?

A análise dos novos infectados condiz com a fala feita pelo infectologista David Uip, em coletiva de imprensa nesta segunda-feira (23), quando foi anunciado o cumprimento da meta mínima de infectados pela CoronaVac.

Uip afirmou que vem observando uma pressão crescente sobre os hospitais privados e apontou os jovens como os principais culpados pelo aumento dos casos.

“Nos hospitais privados que eu trabalho tem aumentado a pressão pela internação. Populações que estavam escondidas voltaram (a circular) e estão se contaminando, especialmente os jovens. Foram às festas grandes, tenho notícias de festas de 500 pessoas. A maioria (dos jovens) fica com doença leve, mas contamina pais e avós”.

O infectologista, assim como Bruno Covas, não crê que São Paulo esteja diante de uma possível segunda onda da Covid-19 e lê o crescimento dos indicadores como um agravamento pontual.

Na semana passada, o prefeito da capital afirmou que a situação da pandemia na capital é de “estabilidade” e descartou qualquer necessidade de decretar um lockdown no município. O prefeito voltou a falar em nível estável na sabatina no programa Roda Viva, da TV Cultura, na noite de segunda (23).

Ao mesmo tempo em que Covas nega que a capital esteja passando por uma segunda onda, ele reconhece que há uma “variação positiva” na taxa de ocupação dos leitos de UTI.

“Estamos em um momento de estabilidade da pandemia na cidade de São Paulo. Há uma estabilidade em relação ao número de casos na cidade de São Paulo, uma estabilidade em relação número de óbitos na cidade de São Paulo, mas há uma variação positiva na taxa de ocupação dos leitos de UTI Covid”, afirmou Covas, em coletiva de imprensa na manhã da última quinta-feira (18).

No mesmo dia, sua gestão anunciou que reabrirá 200 leitos para atendimento a pacientes de Covid na cidade para tentar evitar situações de desassistência.

“Tem também um aumento de pessoas internadas na cidade que são de fora de São Paulo e uma redução dos leitos privados e públicos referenciados para Covid. Por isso vamos voltar a ter mais 200 leitos para a Covid na cidade. Passamos esse período todo sem deixar de atender ninguém e vamos continuar assim”.

O candidato à reeleição também negou que esteja esperando o segundo turno da eleição acabar para tomar medidas de maior rigor em relação à quarentana na cidade.