Intervenção e afastamento de governador: não há saída simples para conter o caos

People walk near damaged furniture, after the supporters of Brazil's former President Jair Bolsonaro anti-democratic riot at Planalto Palace, in Brasilia, Brazil, January 9, 2023. REUTERS/Ueslei Marcelino
Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Em janeiro de 2021, uma amiga viajou com a família para Washington e estranhou o número de pessoas em situação de rua na capital dos Estados Unidos.

Não eram andarilhos, mas militantes radicais acampados no entorno do Capitólio, a sede do Congresso norte-americano, às vésperas da diplomação do presidente Joe Biden.

Donald Trump, o candidato republicado derrotado meses antes, não aceitava o resultado das urnas e dizia ter sido vítima de uma fraude. Muita (muita mesmo) gente acreditou no choro do perdedor. Menos alguns dos atores centrais de uma possível rebelião, como o então vice-presidente Mark Pence e os generais.

O golpe lá foi contido, Biden tomou posse e os invasores hoje respondem pelos tumultos que terminaram com cinco mortos. Em dois anos, quase mil pessoas foram detidas pela invasão.

A mesma amiga que passava por Washington dias antes da invasão lamenta hoje que só os peixes pequenos e sem dinheiro para pagar bons advogados seguem detidos, e que o principal responsável pelo horror segue ativo e disposto a voltar à Presidência em 2024.

No Brasil, só não dá para dizer que os atos foram maiores porque ninguém morreu – desfecho que poderia ser diferente se os terroristas escolhessem um dia útil para atacar.

Não, quem passava pela capital e outras cidades do país sabia o que queriam os manifestantes. As ameaças estavam desenhadas em cartazes e gritos em auto-falante.

Um naco deles foi detida entre domingo e segunda-feira e tudo o que eles querem é uma situação de violência generalizada. Não para que o governo, ao anunciar uma intervenção federal, tutele as forças de segurança em Brasília, mas o contrário: que as forças de segurança, junto com os militares, atentam aos apelos golpistas e tutelam o governo que já nasceu à sombra da deslegitimação. Uma deslegitimação alimentada por bolsonaristas de alto a baixo escalões e que passa pela deslegitimação também do trabalho da imprensa, das urnas eletrônicas e da Justiça Eleitoral.

Alvo principal da turba, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, afastou o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), do cargo por não acreditar que a omissão diante das ameaças tenha sido erro de cálculo.

Mas, no Brasil de 2023, quando se desata um nó, um outro surge. Quem assume o posto agora é a vice-governadora Celina Leão (PP). Outra bolsonarista de quatro costados.

Anderson Barros, secretário de Segurança do DF que assumiu o posto ao fim do governo Bolsonaro, a quem serviu como ministro da Justiça, já havia sido demitido. Ele estava nos EUA, talvez mais perto do antigo chefe do que pediria a prudência, enquanto Brasília explodia.

A invasão dos radicais bolsonaristas muda a agenda e as prioridades do governo recém-eleito, que agora terá um interventor responsável por gerenciar as forças policiais que pouco ou nada fizeram para evitar o caos na véspera.

Depois de uma semana de anúncios e indicações, com repercussões a respeito de revogação de atos, reformas e sugestões de mudanças até no sistema previdenciário, o país para novamente diante da ameaça golpista. Essa é a prioridade a partir de agora, mas talvez não haja lugar na cadeia para tantos criminosos.

Os maiores deles seguem impunes.

Bolsonaro tirou o corpo fora numa postagem cínica e covarde que tem marcado sua vida pública. Comparou o quebra-quebra de domingo a atos promovidos em 2013 e 2017 pela esquerda – atos que mal passaram da porta das sedes dos Poderes e que foram prontamente reprimidos, e não alimentados por políticos e órgãos oficiais durante tanto tempo.

O diabo mora nos detalhes e eles estão escancarados até no silêncio cúmplice do capitão que ainda se declara presidente em suas redes sociais e até agora se mostrou incapaz de reconhecer a derrota com todas as letras.

Se Ibaneis se tornou a imagem da inanição, Bolsonaro tem todas as digitais por trás do nosso “Capitólio”.

É certo que o lixo da História é o seu destino natural. Mas ela não será contada no presente se ele não começar a responder por seus atos a partir de agora.

A extradição para o Brasil, sugerida por deputados democratas avessos à sua presença no país, pode ser um ponto de inflexão. Ele sabia o que dizia quando, já em setembro de 2021, confessava em voz alta o medo de ser preso.

Não há qualquer garantia de que, se isso acontecer, o Brasil, em vez da pacificação, não dará um passo rumo a um conflito generalizado. A presença de tanques do Exército no caminho das polícias designadas para desmontar o acampamento onde o ovo da serpente foi gestado é um indicativo de que algo pior pode acontecer.

Não tem solução fácil no caminho de quem deveria, a essa altura, se preocupar em reconstruir o Brasil, e não recolher os destroços deixados como herança por Bolsonaro e sua seita.