Bahia: Falta de médicos deixa áreas atingidas pelas inundações ainda mais vulneráveis

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Falta de médicos é problema central em comunidades atingidas por fortes chuvas na Bahia - Foto: Gabriel Schlickmann
Falta de médicos é problema central em comunidades atingidas por fortes chuvas na Bahia - Foto: Gabriel Schlickmann

Por Leandro Barbosa

Maria de Fátima Pereira da Silva, 43 anos, caminha com dificuldades devido ao cansaço e da dor que sente nas articulações do seu corpo, desde que teve que atravessar as águas do Rio Almada, que corta a comunidade rural Banco do Pedro, com cerca de 1000 habitantes, em Ilhéus (BA), e que inundou nas véspera do Natal passado, dia 24 de dezembro de 2021. Outros sintomas como febre e icterícia – quando a pele e olhos ficam amarelados – também apareceram. Sem médico na comunidade, a mulher passou mais de uma semana sem ter ideia do que poderia ter. Até ser atendida por médicos, online, graças a iniciativa de uma ONG local, e descobrir que poderia estar com leptospirose.

Com a comunidade ilhada, Maria não teve condições de ir a uma Unidade Básica de Saúde. Quando as águas cederam e o acesso foi liberado, o município não enviou médicos. Desempregada, com dores agudas no corpo, ela não teve condições de fazer o percurso, de transporte público ou particular, entre estrada de chão e asfalto, de 1h30 até um hospital na zona urbana de Ilhéus. A chegada da ONG Grupo Amigos da Praia, o GAP, que se tornou uma referência no atendimento aos atingidos pelas enchentes e inundações em Ilhéus e nas cidades no entorno, foi “a esperança de ficar melhor”, afirmou Maria.

“O pessoal do Gap chegou e começou a ajudar as pessoas aqui. Até então não tinha remédios, foram eles que trouxeram. A gente fica à deriva. Nunca sabemos quando vai ter médico aqui. Por vezes, só tem uma enfermeira. Ela até tenta ajudar, mas é limitado. Ela não pode fazer o que um médico faz e nem prescrever remédios. É difícil. Mas graças a Deus que tem ela, senão seria pior”, desabafou Maria.

Maria ofereceu a casa dela para que o GAP tivesse acesso a internet e pudesse oferecer atendimento à comunidade, no dia 4 de janeiro. Mesmo com dores no corpo, Maria conta que se esforçou “para chamar todo mundo que deu conta”. Durante as consultas, a equipe da organização identificou ao menos 10 possíveis casos de leptospirose no Banco do Pedro, além de cerca de 20 casos de Covid-19. Foi o primeiro acesso a uma equipe médica após a inundação. A ação, chamada de Operação Saúde, atendeu os adultos na modalidade online. As crianças e adolescentes foram atendidas por uma pediatra in loco.

“O Gap está atuando em resgates desde o dia 26 de dezembro. Quando iniciou a ajuda humanitária na Zona Norte, em Sambaituba, Juerana e Banco do Pedro se deparou com pessoas dentro das casas alagadas que recebiam a cesta básica, água e proteína, mas queixavam-se de doenças. Frieiras, febre, sintomas gripais e não tinham como vir para o centro da cidade”, explicou Gabriel Macedo, presidente da ONG. Segundo Macedo, a organização fez um apelo e cerca de 50 profissionais de saúde - entre médicos, enfermeiros e psicólogos - se voluntariaram para atender.

Sem médicos

Falta de médicos é problema central em comunidades atingidas por fortes chuvas na Bahia - Foto: Gabriel Schlickmann
Falta de médicos é problema central em comunidades atingidas por fortes chuvas na Bahia - Foto: Gabriel Schlickmann

Na última quarta-feira (11), após receber uma notificação enviada pelo GAP, a prefeitura de Ilhéus encaminhou profissionais de saúde ao Banco do Pedro, a fim de coletar sangue das pessoas que estão com suspeita de leptospirose. Um médico também foi enviado à UBS da comunidade e foi ofertado vacinas contra a Covid-19.

Maria Fernandes dos Santos, 51 anos, moradora de Banco do Pedro, também com suspeita de leptospirose, afirmou que nenhuma assistência da Saúde havia sido ofertada até a última quarta. E que o acesso até mesmo a remédios foi ofertado pela ONG. “A gente não tinha médico e nem remédio para resolver a nossa situação. To fazendo o exame hoje, por causa desse povo”, disse apontando para membros da organização.

Para tentar sanar o déficit no atendimento às comunidades, a ONG solicitou ajuda de fora. "O GAP entende que a cidade vive um colapso de saúde gravíssimo. Solicitamos apoio a Organizações Internacionais. Estamos aguardando resposta", afirma Macedo. Quanto ao atendimento no Banco Pedro, Macedo disse: “ficamos felizes que o Poder Público Municipal esteja atuando nas áreas rurais, foi tarde, mas chegou. A sociedade civil está atenta, cobrando soluções e se propondo a atuar em redes”.

O assessor de comunicação da Secretaria Municipal de Saúde de Ilhéus, Fábio Mantena, disse ao Yahoo que o atendimento às comunidades tem sido prestado de forma itinerante. O assessor reconheceu a falta de médicos e afirmou que foi aberto um edital para contratação de profissionais, mas que a adesão foi baixa. "O trabalho no Banco do Pedro é semanal. Toda quarta-feira estamos aqui. Temos uma enfermeira e dois agentes comunitários para cobrir esta região. A gente precisa manter mais pessoas? Sim. Para isso abrimos um edital de chamamento para a contratação de novos médicos, mas a procura está baixa”, disse. Mantena ainda afirmou que a zona rural de Ilhéus tem mais de 1500 km, e que a prefeitura tem se esforçado para prestar um atendimento intersetorial às comunidades. Contudo, não especificou quais são os serviços ofertados.

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