Invasão em Brasília repercute na imprensa internacional e é comparada aos ataques ao Capitólio nos EUA

A invasão de extremistas apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro às sedes dos três Poderes, em Brasília, repercutiu internacionalmente pela mídia estrangeira. Manchete na página online de jornais como o britânico The Guardian e o francês Le Monde, os acontecimentos no Distrito Federal foram comparados aos ataques ao Capitólio, sede do Legislativo nos Estados Unidos, que ocorreram dois anos atrás após a derrota de Donald Trump nas eleições de 2020.

O The Guardian, um dos maiores jornais do Reino Unido, diz que “extremistas se recusaram a aceitar a vitória de Lula nas eleições presidenciais do ano passado” e que as “imagens chocantes” mostram “uma violação de segurança impressionante que foi imediatamente comparada à invasão do Capitólio dos EUA em 6 de janeiro por seguidores de Donald Trump”.

O francês Le Monde afirma que os opositores de extrema-direita “que se recusam a aceitar a eleição de Lula conseguiram romper os cordões de segurança”, e que os bolsonaristas “pretendem atrapalhar” a volta do petista, que tomou posse no último domingo, ao poder.

No americano The New York Times, que acompanha a invasão com uma matéria ao vivo, os ataques são classificados como um “protesto alimentado por falsas alegações de fraude eleitoral” pelo ex-presidente. “(A invasão) foi a culminação violenta de incessantes ataques retóricos de Bolsonaro e seus apoiadores contra os sistemas eleitorais do país”, escreveu o jornal. O Tribunal Superior Eleitoral brasileiro (TSE) confirmou a lisura do pleito de 2022.

O Washington Post, também dos Estados Unidos, reforça o paralelo com a invasão ao Capitólio de 2021 e menciona a depredação dos prédios do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal. Extremistas quebraram vidros, mesas e assentos do plenário do STF e do Senado Federal.

“O incidente capturou os estranhos paralelos entre Bolsonaro e sua estrela política, Trump, e ocorreu depois de meses em que os especialistas temeram uma ação imitadora no estilo de 6 de janeiro aqui (nos EUA)”.

O jornal afirma ainda que “de maneira semelhante a Trump, Bolsonaro alimentou o descontentamento em sua base desde a derrota” ao se recusar a ceder publicamente o cargo. O ex-presidente viajou para Orlando, nos EUA, dias antes da posse de Lula para evitar a passagem da faixa presidencial, rito tradicional na troca do chefe do Executivo.

O espanhol El País relata ainda que “radicais” realizaram a invasão “exigindo uma intervenção militar para remover do poder Luiz Inácio Lula da Silva”. O jornal destaca a dificuldade de o novo governo lidar com as manifestações bolsonaristas em frente a quartéis do Exército pelo país, que acontecem desde a derrota de Bolsonaro nas eleições.

Ele menciona as divergências entre a postura do novo ministro da Defesa, José Múcio, que chegou a classificar os acampamentos como “democráticos”, e o novo ministro da Justiça e Segurança, Flávio Dino, mais duro em relação aos acampamentos bolsonaristas.

“Como administrar as manifestações golpistas em frente aos quartéis tem sido uma das dores de cabeça que Lula enfrenta desde que assumiu a Presidência. O seu novo ministro da Justiça, Flávio Dino, foi desde o início favorável ao recurso à força caso os manifestantes não se dispersassem enquanto o chefe da Defesa, José Múcio, defendeu evitar a todo o custo o confronto”, escreveu o jornal.

A emissora britânica BBC diz que a posse de Lula parecia ter impactado as manifestações nos quartéis, mas que a invasão deste domingo mostra que a recusa dos apoiadores de Bolsonaro em aceitar a vitória do petista continua.

“Parecia que o movimento deles havia sido freado pela posse de Lula - os acampamentos em Brasília haviam sido desmantelados e não houve interrupção no dia em que ele tomou posse. Mas as cenas de domingo mostram que essas previsões eram prematuras”, diz a BBC.