Investigação conclui que PM atirou na menina Ágatha no Rio

JÚLIA BARBON
***ARQUIVO***RIO DE JANEIRO, RJ, 01.10.2019 - Perícia no local da reconstituição do caso Ágatha Félix, na rua Antônio Austregésilo, subida da localidade da Fazendinha, no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro. (Foto: Allan Carvalho/AM Press & Images/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A Polícia Civil do Rio de Janeiro concluiu que quem atirou e matou a menina Ágatha Félix, 8, foi um policial militar. A garota foi atingida dentro de uma kombi quando voltava de um passeio com a mãe, em 20 de setembro, no Complexo do Alemão (zona norte carioca).

Veja o que se sabe até agora sobre o assassinato da menina Ágatha.

No momento em que o motorista parou em uma esquina para que passageiros desembarcassem, dois homens em uma motocicleta passaram ao lado em “uma certa velocidade”, afirmou à imprensa nesta terça (19) o delegado responsável pelo caso, Marcos Drucker.

Um cabo da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) da região da Fazendinha, então, disparou em direção à moto. O projétil, porém, se desviou: bateu em um poste, se fragmentou, desceu batendo na tampa do motor da kombi, subiu passando pelo banco traseiro do veículo e atingiu as costas da menina.

A polícia chegou a divulgar pela manhã que os motociclistas eram traficantes, mas depois corrigiu a informação. A apuração concluiu que eles não estavam armados nem atiraram contra os policiais ou qualquer outra pessoa. A polícia diz que tentou, mas não conseguiu localizar essa dupla.

Uma testemunha relatou que o homem sentado na garupa carregava uma esquadria de alumínio, que teria sido confundida com uma arma. O delegado, porém, afirmou que não foi possível confirmar isso. “Essa é a versão de uma testemunha. As outras, inclusive civis, não viram esquadria”, respondeu Drucker.

A Polícia Civil concluiu o inquérito nesta segunda (18), apontando que houve “erro de execução” por parte do PM e o indiciando por homicídio doloso (com intenção de matar). O relatório foi encaminhado ao Ministério Público estadual, que agora deve decidir se acusa ou não o policial na Justiça.

Os investigadores também pediram que o cabo seja afastado da UPP onde trabalhava e proibido de ter contato com testemunhas do caso que não sejam policiais militares, mas não pediram sua prisão por entenderem que ele colaborou com a apuração desde o início. Na versão dele, já refutada, o motociclista havia atirado.

A corporação não divulgou até agora o nome desse policial indiciado, diferentemente do que costuma fazer quando algum traficante, por exemplo, é descoberto ou preso.

Questionado, o delegado Daniel Rosa, chefe da Delegacia de Homicídios do Rio, negou que haja corporativismo e se limitou a responder que o nome não será divulgado “porque não será divulgado”.

Ele fez um afago à PM, assim como à OAB-RJ, dizendo que os dois órgãos “colaboraram ativamente”. Segundo os investigadores, o cabo que atirou estava sob forte pressão porque o local é considerado perigoso e outro colega seu havia sido morto semanas antes próximo dali.

A Polícia Militar, que inicialmente afirmou que os policiais da UPP haviam sido atacados por criminosos de diversos pontos da comunidade, informou que o cabo está afastado de suas atividades nas ruas. Também disse que continua apurando o caso internamente através de um Inquérito Policial Militar (IPM), mas não respondeu em que fase ele está.

A investigação da Polícia Civil concluiu que, na noite da morte de Ágatha, houve dois focos de tiros. Primeiro, dois policiais fizeram três disparos contra os motociclistas. Logo depois, uma outra patrulha fez dois disparos em um beco próximo ao avistar traficantes, mas não acertou ninguém.

A menina foi retirada às pressas do local pelo próprio motorista da kombi. Ele dirigiu até uma outra unidade da UPP, onde policiais a colocaram em uma viatura para levá-la ao Hospital Estadual Getúlio Vargas, também na zona norte do Rio.

Em outubro, a revista Veja publicou que, naquela noite no hospital, médicos e outros profissionais da saúde relataram ter sido pressionados por um grupo de

policiais a entregar o fragmento de projétil retirado do corpo de Ágatha, o que eles teriam recusado.

Nesta terça, o delegado Marcos Drucker disse ter concluído que não houve ameaça. Segundo ele, a filmagem do hospital mostra mais ou menos quatro ou cinco policiais acompanhando a ocorrência, e em depoimento um policial civil e uma pessoa da comunidade disseram que eles apenas ficaram perguntando e lamentando o caso.

ACESSO À INVESTIGAÇÃO

Daniel Rosa, chefe da delegacia, afirmou à imprensa que a família de Ágatha e a Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, que tem acompanhado os pais da menina, tiveram amplo acesso à investigação e foram avisados da conclusão do inquérito na noite desta segunda.

O advogado Rodrigo Mondego, da OAB-RJ, porém, disse na manhã desta terça que até o momento a investigação não havia sido liberada e que os pais só ficaram sabendo do indiciamento do policial através da imprensa, o que os deixou apreensivos a noite toda.

O tio de Ágatha, Danilo Félix, contou à reportagem que a responsabilização do PM já era esperada pela família. “Demorou demais, 60 dias, mas pelo menos a primeira etapa foi concluída”. A mãe Vanessa, diz ele, está “levando a vida”, mas ainda não conseguiu voltar para casa.