Investigação contra delegado preso por receber propina vazou, e acusado já sabia que era alvo

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O delegado Maurício Demétrio Afonso Alves, preso nesta quarta-feira, acusado de chefiar um esquema de cobrança de propinas de lojistas da Rua Teresa, em Petrópolis, para permitir a venda de roupas falsificadas, já sabia que estava sendo investigado e tentou atrapalhar o trabalho da Corregedoria e do Ministério Público do Rio (MPRJ). Segundo a denúncia do MP, o delegado e seus comparsas sabiam que estavam sendo alvos de um inquérito na Corregedoria desde agosto do ano passado, quando o advogado do policial Celso de Freitas Guimarães Junior, apontado como homem de confiança de Demétrio e um dos integrantes do esquema de recolhimento de propinas, pediu para ter acesso aos autos.

A partir desse momento, o MPRJ instaurou um procedimento independente para investigar a quadrilha, "diante do envolvimento de policiais civis e das notórias dificuldades da instituição para investigar seus próprios quadros". A operação de ontem não teve participação da Polícia Civil.

"Houve o vazamento da existência da investigação, sendo certo que o denunciado Celso, por intermédio de advogado constituído, peticionou nos referidos autos em 07/08/2020, revelando sua inequívoca ciência sobre a apuração. Tal circunstância prejudicou sobremaneira a eficiência do monitoramento das comunicações telefônicas" do bando, escreveram os promotores na denúncia.

Segundo o MP, após ficar sabendo da existência da investigação, Demétrio passou a trabalhar para obstruí-la. Uma das medidas tomadas pelo delegado foi forjar a prisão em flagrante de um dos investigadores. Para isso, de acordo com a denúncia, o delegado — fingindo ser uma funcionária de uma ONG de nome "Ana" — fez uma encomenda de camisas na confecção do também delegado Marcelo Machado Portugal com o objetivo de apreendê-las e incriminar o dono da loja. Machado era lotado na Corregedoria da Polícia Civil e investigava Demétrio pela cobrança de propinas a comerciantes.

A apreensão, de fato, foi realizada: em março passado, Demétrio foi à estamparia, na Tijuca, e apreendeu as mil camisas que ele mesmo havia encomendado semanas antes, com desenhos de "Minions" — personagens da animação "Meu malvado favorito". O delegado justificou a apreensão alegando que os produtos eram falsificados. Machado foi preso na ocasião.

A farsa foi descoberta pelo Ministério Público do Rio ao analisar dados de um aparelho celular apreendido por Demétrio na loja de Machado. O aparelho era usado exclusivamente para atender interessados em fazer encomendas e passou a ser analisado pelos promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) após o sócio de Machado afirmar que a maior parte das camisas apreendidas foram encomendadas por uma só pessoa, que se identificava como "Ana" pelo WhatsApp.

Segundo o depoimento do sócio de Machado, o delegado, se passando pela mulher, disse aos funcionários da loja que era funcionária de ONG que detinha os direitos autorais para produzir as camisas para crianças que ajudavam, não demonstrou interesse pela qualidade das camisas e impressões, não se opôs ao preço cobrado e afirmou que tinha pressa em pagar com dinheiro em espécie. O delegado fez o pagamento pelas camisas, mas postergou a retirada do material, que acabou não acontecendo por conta da operação forjada.

A partir da quebra de sigilo do aparelho da loja, o Gaeco descobriu que a linha do celular usado por "Ana" foi criada com dados falsos. No entanto, foi possível descobrir onde o aparelho era usado: na Barra da Tijuca, cercania do condomínio onde mora Maurício Demétrio. Além disso, a partir de dados disponibilizado pela WhatsApp, os investigadores também descobriram que a agenda do aparelho usado por Ana tinha, entre os poucos contatos cadastrados, os números de Demétrio e de sua esposa, Verlaine da Costa Pereira Alves.

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