Investigação revela pagamento de propina do jogo do bicho a PMs na Baixada Fluminense

Rafael Soares
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Vídeo flagra entrega de dinheiro em batalhão

Na tarde de 10 de novembro de 2017, a então sargento Rosieni Oliveira Almeida foi surpreendida por policiais da Corregedoria da PM quando entrava, com um saco preto, na sede do 3º Comando de Policiamento de Área (CPA), em Mesquita, na Baixada Fluminense. No saco, havia 12 envelopes com quantias de dinheiro que totalizavam R$ 16.550. A policial estava sendo monitorada e foi presa em flagrante ao entrar no quartel. Dois anos depois, uma investigação da Corregedoria e do Ministério Público do Rio concluiu que a entrega do dinheiro fazia parte de um esquema de distribuição de propinas pagas por contraventores que dominam o jogo do bicho na Baixada a oficiais da cúpula da PM.

O EXTRA teve acesso a documentos, fotografias e vídeos que fazem parte do inquérito, ainda em andamento. Um relatório detalha a divisão das propinas. Em cada um dos envelopes, havia uma inscrição: nas cartas com as letras “MJ” escritas à caneta, por exemplo, foi encontrado o valor de R$ 2 mil. Já naquelas com um “C” assinalado havia R$ 1 mil. Para os investigadores, as inscrições são referências às patentes dos policiais a quem se destinavam os envelopes.

De acordo com o MP, Rosieni funcionava como uma espécie de “entreposto entre os banqueiros da contravenção penal daquela área e os policiais militares envolvidos no acerto”. À época, ela era lotada no Serviço Reservado (P2) do 3º CPA.

A investigação identificou laços entre a mulher e uma quadrilha de bicheiros. Rosieni foi casada e tem uma filha com um ex-PM apontado como homem de confiança de Aniz Abrahão David, o Anísio. O ex-marido de Rosieni foi expulso da corporação em 2011 por sua proximidade com o patrono da Beija-Flor de Nilópolis, condenado em segunda instância, em maio último, a 23 anos de prisão por comandar o jogo ilegal na Baixada.

Oito policiais na mira do MP

O Ministério Público, agora, quer identificar quem receberia os envelopes que Rosieni levava para o quartel. A investigação se volta para o grupo de policiais mais próximos da mulher. O inquérito já mapeou oito agentes — cinco praças e três oficiais — que serviam com ela no 3º CPA e também a acompanharam em grande parte de sua trajetória na PM.

Rosieni foi denunciada à Justiça e, atualmente, responde pelo crime de corrupção passiva na Auditoria Militar. Ela ficou presa de novembro de 2017 até julho de 2018, quando foi beneficiada por habeas corpus concedido pela 4ª Câmara Criminal do TJ. No entanto, apenas 16 dias após sua soltura, Rosieni foi expulsa da PM: o então comandante-geral, coronel Luís Cláudio Laviano, considerou a sargento “incapaz de permanecer nas fileiras da corporação”.

Quando foi interrogada durante seu Conselho de Disciplina — processo administrativo que culminou na expulsão da PM —, a agora ex-sargento afirmou que o dinheiro achado nos envelopes “tem origem de economia e empréstimos para seus familiares”. Segundo a versão de Rosieni, as inscrições nos envelopes teriam sido feitas por sua mãe. “MJ seria em relação ao Mercado da Jaqueline, sobrinha, que pegou uma quantia para fazer um mercadinho e terminar uma obra numa barbearia”, disse a ex-PM. O EXTRA não conseguiu contato com Rosieni.

Prisão e exoneração

A prisão de Rosieni causou a exoneração da coronel Claudia de Melo Lovain de Menezes Cardoso, que à época era comandante do 3º CPA, unidade responsável por monitorar os seis batalhões da Baixada. Até hoje, a oficial não voltou a postos de comando na corporação.

Pouco mais de um mês antes da prisão de Rosieni, o então comandante do 20º BPM (Mesquita), que fica no mesmo quartel que sedia o 3º CPA, foi exonerado por não combater o jogo do bicho em sua área. Uma semana antes da exoneração, o tenente-coronel Marcelo Malheiros havia sido indiciado pela Corregedoria após terem sido localizados 18 pontos de jogo do bicho na área do batalhão.

Contravenção e polícia

Pouco antes de ser expulsa da PM, Rosieni tentou suspender, na Justiça, o Conselho de Disciplina que a julgava. Ela entrou com um mandado de Segurança na Auditoria Militar argumentando que o presidente do conselho não havia ouvido testemunhas de defesa. Em outubro de 2018, a juíza Ana Paula Barros negou o pedido: segundo ela, Rosieni “não logrou comprovar qualquer vício de ilegalidade presente na condução do processo administrativo”.

A coronel Lovain, exonerada após a prisão de sua subordinada, foi a responsável por investigar o então comandante do 20º BPM, tenente-coronel Malheiros, por possível descumprimento da determinação de ações de combate ao jogo do bicho. O inquérito acabou sendo arquivado.

Procurada para comentar a investigação, a PM informou que o Inquérito Policial Militar (IPM) foi “concluído e enviado à Auditoria Militar, que está dando sequência ao processo”.