Investigações da Polícia Civil revelam que integrantes de milícias planejam ações dentro de penitenciária

Rafael Soares

RIO — Investigações da Polícia Civil revelam que milicianos de diferentes partes do estado vêm costurando alianças dentro da Penitenciária Bandeira Stampa. No presídio, que faz parte do Complexo de Gericinó, convivem detentos acusados de integrar grupos paramilitares das zonas Norte e Oeste do Rio, da Baixada Fluminense, de São Gonçalo e de Maricá. Interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça mostram que, da unidade, partiram ordens para o início de cobrança de taxas de segurança e até para chacinas.

Uma das tramas descobertas pela polícia envolve Anderson Cabral Pereira, o Sassa, acusado de chefiar uma milícia no bairro Porto Novo, em São Gonçalo. De acordo com uma denúncia enviada pelo Ministério Público à Justiça, escutas mostraram que ele cooptou um colega de cela para tentar estender seus domínios até Maricá, em 2018.

Na época, Luiz Carlos Pereira de Melo, o R6, que havia praticado crimes em Maricá (entre outros locais) e dividia uma cela com Sassa, estava prestes a sair da cadeia. Suspeito de comandar uma milícia na cidade, o sargento PM Wainer Teixeira, encontrava-se preso por receber propina de traficantes. Sassa viu, então, uma chance de ganhar terreno.

De acordo com investigações, R6, apoiado por Sassa, foi para Maricá. O plano, no entanto, não deu certo: Wainer acabou sendo beneficiado com a prisão domiciliar e voltou à cidade.

Ordens para ataques

Policiais civis também descobriram que Sassa ordenou, do Bandeira Stampa, dois ataques em São Gonçalo, entre maio e julho do ano passado. Seis pessoas morreram e dez ficaram feridas em áreas dominadas por bandos rivais. No primeiro, pistoleiros saíram de um carro e atiraram em direção a 50 pessoas que estavam em um bar.

Ainda segundo policiais, na ocasião, Sassa sugeriu a outros detentos do Bandeira Stampa que acompanhassem o noticiário, para ver reportagens sobre o ataque havia ordenado.

Para manter contato com suas quadrilhas, milicianos que cumprem penas no Bandeira Stampa contaram, algumas vezes, com a cumplicidade de agentes penitenciários. A Polícia Civil interceptou uma ligação telefônica entre um detento e um funcionário do presídio. Na conversa, eles acertaram a transferência de um preso para a unidade por R$ 3 mil.

Em julho de 2018, um inquérito resultou na prisão de três agentes penitenciários, acusados de também serem integrantes de milícias. Adalberto Braz Correa Júnior, um deles, foi apontado como o responsável por um esquema de cobrança de taxas de segurança na região central de Campo Grande.

Mensagens encontradas em três celulares apreendidos dentro de uma cela do Bandeira Stampa revelaram que milicianos presos receberam informações sobre a presença de rivais em suas áreas e determinaram providências. Numa conversa grampeada, um detento ordenou ao interlocutor que retirasse uma boca de fumo em Campo Grande e executasse traficantes.

Para o promotor Luiz Antônio Ayres, que investiga a atuação de grupos paramilitares, milicianos de diferentes regiões aprenderam a conviver no Bandeira Stampa. Segundo ele, o estado precisa estar atento a alianças feitas na penitenciária:

— A cadeia aproximou milícias que eram rivais. Os acordos são facilitados pelo fato de chefes de grupos estarem cumprindo penas no mesmo local. No Bandeira Stampa, há vários. É preciso identificá-los e separá-los.

Questionada sobre o assunto, a Secretaria estadual de Administração Penitenciária afirmou, em nota, que poderá fazer divisões após a conclusão de um projeto de construção de presídios verticais.