Teoria do domínio dos fatos valerá para Bolsonaro?

·3 minuto de leitura
Brazil's President Jair Bolsonaro rides a jet ski with Goias governor Ronaldo Caiado on Araguaia river as they attend the launch of Project Together for Araguaia in Aragarcas, Goias state, Brazil June 5, 2019. Alan Santos/Brazilian Presidency/Handout via REUTERS.THIS IMAGE HAS BEEN SUPPLIED BY A THIRD PARTY. IT IS DISTRIBUTED, EXACTLY AS RECEIVED BY REUTERS, AS A SERVICE TO CLIENTS
Bolsonaro estava ocupado demais para tomar providências sobre suspeitas na Saúde. Foto: Alan Santos/Brazilian Presidency (via Reuters)

Luis Miranda (DEM-DF), deputado dissidente da base de apoio a Jair Bolsonaro no Congresso, disse ter avisado o presidente sobre um suposto esquema de desvios armado para a compra da vacina indiana, a Covaxin.

Tinha conhecimento de causa. O responsável por viabilizar tecnicamente a importação era seu irmão, Luis Ricardo Miranda, servidor de carreira do Ministério da Saúde. 

Ele percebeu a encrenca quando viu que os lotes prestes a serem adquiridos estavam próximos do vencimento. Que a ordem de pagamento não se destinava para a fabricante. E que havia diferenças entre valores e quantidade de doses —além, é claro, de uma atenção incomum a um imunizante que não havia sido aprovado ainda pela Anvisa, argumento usado pelo governo para dormir em cima das ofertas concorrentes.

O caminho apontado pelos irmãos Miranda em entrevistas e também depoimentos à CPI da Pandemia no Senado levam a, no mínimo, uma investigação sobre o que aconteceu ao longo da negociação.

Eles deram o caminho e o nome aos bois. Um deles é o do deputado Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara. Segundo o relato, Bolsonaro sabia que o enrosco era obra do aliado, mas avisou que mexer ali “daria merda”. Uma conversa muito parecida com a confissão em voz alta de Eduardo Pazuello ao deixar o ministério sobre pressões, romarias e pixulés.

Leia também:

Bolsonaro, segundo os Miranda, prometeu acionar a Polícia Federal para apurar as suspeitas. Mas nada foi feito.

Essa é a história contada pelos irmãos.

A CPI e as autoridades querem saber agora se de fato houve irregularidades e por que elas não foram brecadas. Houve prevaricação?

É a pergunta que vale R$ 1,6 bilhão, o valor que seria pago pelo governo ao imunizante indiano.

Bolsonaro e seus apoiadores terão como se explicar?

Não duvidem.

A agenda do presidente, afinal, não é para qualquer um. Seria plausível, portanto, que ele até tivesse anotado num papel ao fim do encontro com o deputado Miranda: “não esquecer acabar esquema corrupção Saúde”.

A intenção e o papel certamente se perderam ao longo do dia, quando outros encontros, com outras demandas, e outras urgências tomaram as atenções e o tempo do capitão.

Maldosos dirão que Bolsonaro sabia da suspeita e precisa ser responsabilizado. Está aí a teoria do domínio dos fatos para provar a onisciência do capitão sobre tudo o que acontece debaixo de suas barbas.

Mas quem já tentou organizar um churrasco com mais de três pessoas em casa sabe como é desgastante deixar o projeto de pé. Nem tudo sai como se imagina.

Bolsonaro, durante a pandemia, não só organizou churrasco como promoveu inúmeros encontros com apoiadores. Fez passeios de barco, cavalo, jet ski, moto.

Uma coisa é o leitor organizar churrasco ou motociadas com os amigos e sair por aí. Outra é o presidente, que precisa pensar na segurança, no roteiro, na logística, no discurso, no palanque e nos custos que isso tudo vai ter no bolso de quem bate palma.

No caso de Bolsonaro, é ainda mais complicado pensar em tudo isso enquanto bola um jeito de implodir o Congresso, o STF, os direitos indígenas, as normas de proteção florestais, as bases da Constituição.

Tudo isso enquanto cuida de filhos com idades variadas e as mesmas questões pré-ginasiais. Você daria conta de fazer tudo isso e ainda apurar suspeitas de corrupção na área mais sensível do governo no auge de uma pandemia?

Não é fácil.

Com tanta coisa a se preocupar, é muito provável que Bolsonaro tenha se esquecido, e não desdenhado da acusação do deputado amigo.

Tinha mais coisa a fazer do que apurar que história era aquela de suposto trambique supostamente armado pelo líder enroscado em outras suspeitas.

Tinha uma campanha até 2022 para priorizar.

Este conteúdo não está disponível devido às suas preferências de privacidade.
Para vê-los, atualize suas configurações aqui.
Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos