Teoria do domínio dos fatos valerá para Bolsonaro?

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Brazil's President Jair Bolsonaro rides a jet ski with Goias governor Ronaldo Caiado on Araguaia river as they attend the launch of Project Together for Araguaia in Aragarcas, Goias state, Brazil June 5, 2019. Alan Santos/Brazilian Presidency/Handout via REUTERS.THIS IMAGE HAS BEEN SUPPLIED BY A THIRD PARTY. IT IS DISTRIBUTED, EXACTLY AS RECEIVED BY REUTERS, AS A SERVICE TO CLIENTS
Bolsonaro estava ocupado demais para tomar providências sobre suspeitas na Saúde. Foto: Alan Santos/Brazilian Presidency (via Reuters)

Luis Miranda (DEM-DF), deputado dissidente da base de apoio a Jair Bolsonaro no Congresso, disse ter avisado o presidente sobre um suposto esquema de desvios armado para a compra da vacina indiana, a Covaxin.

Tinha conhecimento de causa. O responsável por viabilizar tecnicamente a importação era seu irmão, Luis Ricardo Miranda, servidor de carreira do Ministério da Saúde.

Ele percebeu a encrenca quando viu que os lotes prestes a serem adquiridos estavam próximos do vencimento. Que a ordem de pagamento não se destinava para a fabricante. E que havia diferenças entre valores e quantidade de doses —além, é claro, de uma atenção incomum a um imunizante que não havia sido aprovado ainda pela Anvisa, argumento usado pelo governo para dormir em cima das ofertas concorrentes.

O caminho apontado pelos irmãos Miranda em entrevistas e também depoimentos à CPI da Pandemia no Senado levam a, no mínimo, uma investigação sobre o que aconteceu ao longo da negociação.

Eles deram o caminho e o nome aos bois. Um deles é o do deputado Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara. Segundo o relato, Bolsonaro sabia que o enrosco era obra do aliado, mas avisou que mexer ali “daria merda”. Uma conversa muito parecida com a confissão em voz alta de Eduardo Pazuello ao deixar o ministério sobre pressões, romarias e pixulés.

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Bolsonaro, segundo os Miranda, prometeu acionar a Polícia Federal para apurar as suspeitas. Mas nada foi feito.

Essa é a história contada pelos irmãos.

A CPI e as autoridades querem saber agora se de fato houve irregularidades e por que elas não foram brecadas. Houve prevaricação?

É a pergunta que vale R$ 1,6 bilhão, o valor que seria pago pelo governo ao imunizante indiano.

Bolsonaro e seus apoiadores terão como se explicar?

Não duvidem.

A agenda do presidente, afinal, não é para qualquer um. Seria plausível, portanto, que ele até tivesse anotado num papel ao fim do encontro com o deputado Miranda: “não esquecer acabar esquema corrupção Saúde”.

A intenção e o papel certamente se perderam ao longo do dia, quando outros encontros, com outras demandas, e outras urgências tomaram as atenções e o tempo do capitão.

Maldosos dirão que Bolsonaro sabia da suspeita e precisa ser responsabilizado. Está aí a teoria do domínio dos fatos para provar a onisciência do capitão sobre tudo o que acontece debaixo de suas barbas.

Mas quem já tentou organizar um churrasco com mais de três pessoas em casa sabe como é desgastante deixar o projeto de pé. Nem tudo sai como se imagina.

Bolsonaro, durante a pandemia, não só organizou churrasco como promoveu inúmeros encontros com apoiadores. Fez passeios de barco, cavalo, jet ski, moto.

Uma coisa é o leitor organizar churrasco ou motociadas com os amigos e sair por aí. Outra é o presidente, que precisa pensar na segurança, no roteiro, na logística, no discurso, no palanque e nos custos que isso tudo vai ter no bolso de quem bate palma.

No caso de Bolsonaro, é ainda mais complicado pensar em tudo isso enquanto bola um jeito de implodir o Congresso, o STF, os direitos indígenas, as normas de proteção florestais, as bases da Constituição.

Tudo isso enquanto cuida de filhos com idades variadas e as mesmas questões pré-ginasiais. Você daria conta de fazer tudo isso e ainda apurar suspeitas de corrupção na área mais sensível do governo no auge de uma pandemia?

Não é fácil.

Com tanta coisa a se preocupar, é muito provável que Bolsonaro tenha se esquecido, e não desdenhado da acusação do deputado amigo.

Tinha mais coisa a fazer do que apurar que história era aquela de suposto trambique supostamente armado pelo líder enroscado em outras suspeitas.

Tinha uma campanha até 2022 para priorizar.