Investigação da PF aponta possíveis cúmplices de militar da FAB preso com 39 kg cocaína em comitiva de Bolsonaro

Redação Notícias
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Brazil's President Jair Bolsonaro holds up a miniature of a KC-390 plane during the Brazilian Air Force delivery ceremony of the first military aircraft KC-390, at the air base in Anapolis, Brazil, Wednesday, Sept. 4, 2019. The aircraft is capable of transporting and launching cargo and troops, as well as a wide range of missions: air evacuation, search and rescue, firefighting, air refueling and humanitarian aid. (AP Photo/Eraldo Peres)
O militar foi detido em uma escala no Aeroporto de Sevilha, ao tentar passar com a droga em três bagagens de mão. Ele estava em um voo apoio da comitiva de Bolsonaro à cúpula do G20, no Japão (Foto: AP Photo/Eraldo Peres)

Uma investigação da Polícia Federal apontou possíveis cúmplices o sargento Manoel Silva Rodrigues, das Forças Aéras Brasileira (FAB), preso por transportar 39 quilos de cocaína pura em um voo da comitiva do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em 2019.

De acordo reportagem exibida no Fantástico, neste domingo (7), 10 pessoas e três empresas foram alvos de 15 mandados de busca e apreensão e duas medidas cautelares que impedem a saída de investigados do Distrito Federal.

Entre as pessoas impedidas de sair do Distrito Federal está Wilkelane Nonato, a mulher do sargento. Segundo a polícia, ela participava dos crimes "desde as tratativas iniciais" e, depois da prisão do sargento, sumiu com R$ 40 mil e um celular que o militar usava para se comunicar com a quadrilha.

Segundo o jornal, a troca de mensagens entre Wilkelane e Manoel mostrou que o casal passava por dificuldades financeiras. Em uma mensagem de fevereiro de 2018, Rodrigues disse: "Ferrou, o dinheiro não dá". A esposa responde: "Pega do limite".

Na semana passada, Wilkelane afirmou à Globo que seu marido, o sargento Rodrigues, não teria dinheiro para comprar a droga e montar essa operação sozinho. “Eu tenho certeza que ele não tinha dinheiro para comprar um trem desse, porque diz que é muito caro, né?”, declarou Wilkelane.

Por este motivo, a PF concluiu que Rodrigues fez pelo menos mais uma remessa de cocaína ao exterior. A primeira teria sido dois meses antes da prisão, em uma missão oficial a Madri. Depois dessa viagem, o casal comprou uma moto a vista por R$ 33 mil, pagou dívidas e trocou os móveis do apartamento. A PF pediu a prisão de Wilkelane, mas a Justiça negou.

Salve, Jorge!

O outro suspeito que teve pedido de prisão, e também negado, foi o sargento da FAB Jorge Luiz da Cruz Silva. Segundo a PF, o sargento Jorge "atuou como recrutador e intermediário dos verdadeiros donos" da droga em contatos com Manoel.

De acordo com o Fantástico, quebras de sigilo telefônico indicam que os militares se encontraram e trocaram mensagens às vésperas das duas viagens de Rodrigues. Além disso, o sargento Jorge trocou de celular logo depois da prisão do colega.

Com o nome Salve Jorge, o sargento concorreu a deputado distrital nas duas últimas eleições, sem sucesso. Nas duas ocasiões, declarou não ter bens. Testemunhas apontaram, no entanto, que Jorge "melhorou de vida" nos últimos anos, e que isso foi "muito rápido".

Com exceção do sargento Jorge, do sargento Manoel e de sua esposa, a PF reconhece que as provas ainda são precárias contra os outros sete suspeitos. A investigação chegou até agora a três núcleos. Um militar, com Jorge, Rodrigues e outros dois suspeitos, um de parentes do sargento preso, que inclui a esposa, e outro com aqueles que seriam os donos da droga.

Esses suspeitos de encabeçar o esquema de tráfico em aviões da FAB foram alvo de buscas nesta semana em suas casas e empresas. Mas eles só apareceram na investigação por causa de um informante anônimo, e não há no relato desse denunciante ou no inquérito da PF nenhum elemento que relacione os transportadores da droga com esses supostos fornecedores. Ou seja, ainda faltam muitas peças nesse quebra-cabeça.

A Polícia Federal brasileira também não teve acesso ainda ao celular apreendido com o sargento na Espanha e nem à investigação completa do caso naquele país. A PF reconhece que a prisão de Manoel "resultou na destruição de vários elementos de provas".

Em outubro de 2019, em primeiro depoimento, o sargento pego transportando cocaína em um avião da FAB inocentou os colegas militares que o acompanhavam no voo. “Acerca da pergunta 23, responde que nenhuma pessoa da tripulação está envolvida nos fatos. Que as pessoas do grupo de transporte especial, outros militares, não tinham conhecimento acerca dos fatos”, diz a cópia do depoimento.

Relembre o caso

Em junho de 2019, um militar brasileiro da Força Aéra Brasileira (FAB) foi preso em Sevilha, na Espanha, por transportar 39 quilos de cocaína pura em um avião da comitiva do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Quase dois anos depois, as autoridades brasileiras não conseguiram provar quem estava por trás do esquema.

O militar, que não estava no avião que levava Bolsonaro, foi detido em uma escala no Aeroporto de Sevilha, ao tentar passar com a droga em três bagagens de mão. Ele estava em um voo de apoio da comitiva de Bolsonaro à cúpula do G20, no Japão.

No julgamento em que foi condenado a seis anos de prisão, em fevereiro de 2020, Rodrigues confessou que "aproveitou a condição de militar" para cometer o crime, como mostra a sentença da Justiça espanhola.

Já no Brasil, a única audiência até agora foi feita em agosto do ano passado pela Justiça Militar, única que processa e julga os crimes cometidos por militares. O sargente responde processo por tráfico. Nenhum alto oficial responsável pela falta de fiscalização no embarque virou réu no processo.

O que diz a defesa

A defesa de Manoel Silva Rodrigues afirmou ao Fantástico que ele cumpre pena por um crime que confessou e "que vem colaborando com todas as autoridades na medida do possível, pois teme pela sua vida e de seus familiares".

A defesa de Wilkelane Nonato Rodrigues disse que ela não tem participação nos fatos e está sendo incluída na investigação "pelo simples fato de ser esposa do sargento".

O Comando da Aeronáutica informou que reforçou normas de segurança em seus voos, que atua firmemente para coibir irregularidades e que repudia condutas que não representam os valores, a dedicação e o trabalho do efetivo da corporação.

A FAB disse ainda que informações sobre militares e punições são resguardadas pela Lei Geral de Proteção de Dados e não podem ser divulgadas.

O GSI, que é o Gabinete de Segurança Institucional da presidência, informou que não houve participação de militares do gabinete no gerenciamento do voo em questão, e que não se manifesta sobre investigações da Justiça Militar.

O Ministério da Justiça disse que não comenta casos em andamento, mas que os pedidos de cooperação à Justiça espanhola foram feitos e não estão encerrados.