Investigado por tráfico de influência, novo presidente do Peru é parlamentar inexpressivo

SYLVIA COLOMBO
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BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Manuel Merino de Lama, 59, tinha, até a noite desta segunda-feira (9), uma trajetória política com quase nenhum destaque. Mas, após o Congresso peruando decidir afastar o presidente Martín Vizcarra do cargo, caberá ao discreto parlamentar comandar o país até a próxima eleição, em 2021. Assim como seis antecessores no cargo, o novo presidente do país também está envolvido em escândalos. Casado com uma professora e pai de três filhos, ele é investigado por tráfico de influência, por ter supostamente facilitado contratos entre sua família e o governo. Sua irmã, Elba Merino de Lama, que é arquiteta, foi contratada num projeto do governo de saneamento rural. Já sua mãe alugou ao Instituto Nacional de Defesa Civil um escritório. E seu irmão, Marco Antonio Merino, foi identificado como proprietário de uma empresa que é provedora de insumos agrícolas ao ministério da Agricultura. O político nega ter tido qualquer participação nessas contratações. Filho de uma família de criadores de gado, o engenheiro integrou diversas associações de produtores da região de Tumbes, onde nasceu e se criou. Foi justamente a defesa do agronegócio que lhe serviu de bandeira em sua campanha para sua se eleger pela primeira vez para o Legislativo, em 2001. Mesmo com uma votação inexpressiva -recebeu o apoio de apenas 5.271 eleitores no último pleito, em janeiro-, ele acabou sendo escolhido como presidente do Congresso por ser o parlamentar com mais experiência dentro de seu partido, o Ação Popular. Com 24 eleitos, a sigla ficou com a maior bancada da Casa após a votação e a lei peruana determina que a agremiação com mais congressistas chefie o Legislativo. Ao assumir o comando do Congresso, Merino também se tornou a primeira pessoa na linha de sucessão de Vizcarra. À frente do Legislativo, Merino recebeu críticas da oposição por ter demorado a realizar sessões virtuais quando a pandemia de coronavírus começou. Ele defendeu as sessões presenciais até que, em julho, foram detectados mais de 10 casos de parlamentares contagiados. O engenheiro foi criticado, também, por ter entrado em contato com as Forças Armadas logo depois da primeira aceitação da moção de vacância contra Martín Vizcarra, em setembro, algo que não faz parte do protocolo e que foi visto pelo Executivo e pelo Judiciário como uma atitude irregular. O parlamentar se defendeu dizendo que o objetivo de sua ligação não era levantar apoio entre os militares a um possível governo seu, mas apenas informar as Forças Armadas da situação. O almirante da Marinha a quem Merino chamou, porém, cortou a ligação antes de receber qualquer mensagem porque também considerava a conversa imprópria. Merino está há 41 anos no Ação Popular, partido de centro-direita fundada em 1956. A sigla é a que mais mais elegeu democraticamente presidentes no país e tem como Historicamente, o principal nome da legenda é Fernando Belaúnde Terry (morto em 2002), que governou o Peru durante dois mandatos (1963-1968 e 1980-1985), um deles interrompido por um golpe militar. Também era desse partido Valentín Paniagua, que foi presidente interino entre novembro de 2000 e julho de 2001, em uma situação semelhante a de Merino hoje. Na ocasião, Paniagua comanda chefiava o Congresso e teve que assumir o comando do país depois que os parlamentares afastaram o então presidente, Alberto Fujimori -atualmente preso por crimes contra humanidade. Foi exatamente depois disso que Merino chegou ao Congresso. Em seu primeiro mandato, entre 2001 e 2006, ele fez parte da parte da base de apoio do ex-presidente Alejandro Toledo -atualmente foragido nos EUA acusado de corrupção. O Ação Popular tem hoje 24 das 130 cadeiras no atual Parlamento e continua sendo um tradicional opositor do fujimorismo --que segue representado pelo partido Força Popular. Para o cientista político Steven Levitsky, professor da Universidade de Harvard e especialista em Peru, o partido não carrega mais nenhum de seus traços do passado. "Estou seguro que a maioria dos congressistas atuais do Ação Popular sequer sabe quem foi Belaúnde. O que se vê no Congresso peruano hoje são os nomes dos partidos históricos virando casas de aluguel tomadas por interesses econômicos, seja da igreja, do mundo agro. O nome Ação Popular não é o que foi antes, foi comprado por um grupo de interesses financeiros, como todos", disse Levitsky à reportagem.