Investigadores da PF descartam ação de ONGs em Dia do Fogo

Investigações da PF apontam para rumos contrários aos da apuração da Polícia Civil do Pará. (Foto: AP Foto/Leo Correa)

Em sua investigação conduzida desde agosto deste ano, a PF (Polícia Federal) descarta a participação de ONGs entre os suspeitos de serem os responsáveis pelo Dia do Fogo, em Alter do Chão, no Pará. Na terça-feira (26), quatro brigadistas das ONGs Projeto Saúde e Alegria e Brigada de Incêndio de Alter do Chão foram presos pela Polícia Civil apontados como suspeitos de atearem fogo propositalmente em áreas de floresta.

Apesar da prisão, nenhuma das duas ONGs é considerada suspeita e fontes ouvidas pelo site The Intercept Brasil descartam a participação desse tipo de entidade. Nos bastidores da PF, os fazendeiros locais ainda seguem como principais responsáveis pelos incêndios.

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No que ficou conhecido como “Dia do Fogo”, as chamas consumiram uma área equivalente a 1.600 campos de futebol e levou quatro dias para ser debelado por brigadistas e bombeiros.

As prisões da Polícia Civil aconteceram no âmbito da operação Fogo do Sairé, que apura a origem dos incêndios que atingiram a região de Alter do Chão em setembro deste ano. Foram presos Daniel Gutierrez Govino, João Victor Pereira Romano, Gustavo de Almeida Fernandes e Marcelo Aron Cwerner. Também foram cumpridos sete mandados de busca e apreensão.

Segundo a investigação da Polícia Civil do Pará, há indícios de que as ONGs teriam provocado os incêndios que atingiram mais de 100 hectares da Área de Proteção Ambiental (APA) entre 14 e 17 de setembro com o objetivo de obter vantagens financeiras.

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A Polícia Civil aponta o recebimento de 300 mil reais pela Brigada de Alter e a venda para uso exclusivo de 40 imagens para a ONG WWF como evidência de que o grupo de brigadistas obtinham vantagens financeiras com os incêndios que eles supostamente provocam.

Responsável pela investigação da Polícia Civil, o delegado José Humberto Melo Júnior afirmou que imagens, depoimentos e interceptações telefônicas apontam para a participação dos brigadistas no incêndio.

“Está muito bem configurada a participação deles no início de alguns incêndios. Eles trabalhavam posteriormente no combate e faziam imagens. Eles vendiam essas imagens a organismos internacionais e obtinham lucro aí”, afirmou o delegado.

INQUÉRITOS DA PF

Já a PF conduz dois inquéritos, tocados separadamente pelas delegacias de Altamira e Santarém. Esse segundo deu origem à , realizada em Novo Progresso em outubro. Os alvos dos mandados de busca foram empresários, produtores rurais e fazendeiros, que tiveram notebooks, HDs e celulares apreendidos. A PF aguarda o resultado da perícia nesse material, mas não há suspeitas que recaiam sobre ONGs.

Em nota, a Brigada de Alter do Chão informou que, desde 2018, tem atuado no apoio ao combate a incêndios florestais, sempre em parceria com o Corpo de Bombeiros, e que ainda tenta entender o que motivou a prisão dos brigadistas. A Brigada ainda afirmou que brigadistas têm contribuído desde o início com as investigações policiais e já haviam sido ouvidos pela Polícia Civil, fornecendo informações e documentos às autoridades policiais de forma voluntária.

A defesa dos brigadistas ainda afirma que não existem requisitos que autorizariam uma prisão preventiva e que atuará para libertá-los da prisão.

MP SUSPEITA DE GRILEIROS E NÃO VÊ ONGS SUSPEITAS

O Ministério Público Federal suspeita que um dos focos dos incêndios tenha começado em área invadida por grileiros nas margens do Lago Verde, em uma região conhecida como Capadócia. O MPF afirmou, em nota divulgada em seu site que brigadistas e ONGs não estavam entre os suspeitos.

A área foi alvo de ocupações irregulares nos últimos anos, quando tentaram erguer no local um loteamento privado. A investigação da Promotoria, iniciada, em 2015, resultou em denúncia contra o fazendeiro Silas da Silva Soares por desmatamento ilegal. Ele foi condenado a seis anos e dez meses de prisão, mas permanece foragido há um ano. A defesa do fazendeiro nega as acusações.

Em nota, a ONG WFF-Brasil disse que firmou contrato de parceria com o Instituto Aquífero Alter do Chão para a compra de equipamentos de combate a incêndios florestais para a Brigada de Alter do Chão no valor de R$ 70,6 mil. A WWF-Brasil informou ainda que, ao contrário do que diz o delegado, não adquiriu nenhuma foto ou imagem da Brigada, nem recebeu doação do ator Leonardo DiCaprio.