Investigados pelo STF incentivam atos antidemocráticos que contestam resultado das eleições

Ao menos dez investigados no Supremo Tribunal Federal (STF) pela organização e apoio a atos antidemocráticos ao longo do governo de Jair Bolsonaro (PL) voltaram à cena agora ao incentivar movimentos que contestam o resultado das eleições, em nova ofensiva contra instituições. A lista inclui parlamentares, como as deputadas Carla Zambelli (PL-SP) e Aline Sleutjes (Pros-PR), além de bolsonaristas que chegaram a ter ordem de prisão expedidas pela Corte no passado, como o blogueiro Allan dos Santos e o caminhoneiro Zé Trovão (PL-SC), eleito para a Câmara.

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Desde a derrota de Bolsonaro, seus apoiadores têm feito bloqueios de rodovias e se reunido em frente a quartéis pedindo que militares impeçam a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em afronta à Constituição. O STF e o Ministério Público investigam quem está por trás desses novos atos, que, segundo especialistas, podem vir a ser enquadrados como crime contra o estado democrático de direito.

Reeleita para um novo mandato, a deputada Aline Sleutjes foi uma das apoiadoras de Bolsonaro a participar de ato que bloqueou uma rodovia em Santa Catarina. Na ocasião, fez uma transmissão ao vivo incentivando os protestos. Na terça-feira, também publicou imagens da manifestação em Brasília. Em uma das fotos, ela segura um cartaz dizendo que o resultado da eleição do Brasil foi “roubado”, contestando a licitude do processo eleitoral.

A parlamentar negou que as acusações representem ataques à democracia. “Sou contrária a eventuais excessos cometidos em manifestações que possam restringir os direitos individuais e coletivos ou colocar em risco a segurança pública, fato que não está ocorrendo nos manifestos que tenho observado”, afirmou.

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Zé Trovão, que chegou a ser preso no ano passado por incentivar bloqueios em rodovias, também manifestou apoio aos novos atos. Ele gravou um vídeo em um dos bloqueios de rodovia em Santa Catarina, no dia seguinte ao segundo turno, dizendo que os protestos representavam o “desejo popular”. Sua defesa afirmou que, na ocasião, o deputado eleito “fez um vídeo apenas falando em liberdade de expressão sem interromper rodovias”.

Mesmo fora do país, em viagem aos Estados Unidos, Carla Zambelli também tem divulgado vídeos em que faz ataques ao processo eleitoral, na linha dos manifestantes nos atos antidemocráticos. Com suas redes sociais bloqueadas por ordem do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as postagens têm sido publicadas na conta do marido, o coronel da PM Aginaldo de Oliveira, ex-diretor da Força Nacional de Segurança. Em nota, a deputada negou que tenha feito ataques à votação e que a decisão judicial não a impede de publicar vídeos. “Estou proibida de usar minhas redes sociais por uma decisão autoritária de Alexandre de Moraes, porém ainda não estou impossibilitada de gravar conteúdos”, afirma.

Outros três blogueiros que já foram alvos das investigações também estão de volta aos holofotes. Allan dos Santos, que foi alvo de um mandado de prisão determinado pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, mas está foragido nos EUA, tem divulgado vídeos para a militância bolsonarista com mensagens golpistas.

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Com suas contas nas principais redes sociais bloqueadas, ele propaga os vídeos por meio de aplicativos de mensagens. De acordo com investigadores da Polícia Federal (PF), o mandado de prisão até hoje não foi cumprido nos EUA porque a Interpol ainda não concluiu a análise da ordem judicial do STF e, por isso, seu nome até hoje não foi incluído na lista de difusão vermelha das ordens de prisão internacionais. Allan dos Santos não foi localizado para se manifestar.

Também se juntaram ao coro de mensagens golpistas Fernando Lisboa, do Vlog do Lisboa; Emerson Teixeira, o “Professor Opressor”; Adilson Nelson Dini, conhecido como Ravox Brasil; Roberto Boni, dono de um canal bolsonarista; o jornalista Oswaldo Eustáquio, que também chegou a ser preso em 2020; e Valter Cesar Silva Oliveira, que divulgou vídeo dizendo que Lula não deveria tomar posse.

Todos estavam na mira do inquérito dos atos antidemocráticos, que foi arquivado em julho de 2021 a pedido da PGR, mas deu origem a uma nova apuração, o inquérito das milícias digitais, com os mesmos investigados. Em um relatório sobre o caso, a Polícia Federal apontou que uma rede de influenciadores digitais bolsonaristas divulgava em seus canais vídeos e mensagens estimulando atos antidemocráticos.

PF abre apuração

Procurado, Teixeira afirmou apoiar os atos antidemocráticos que pedem intervenção dos militares, mas diz estar “totalmente tranquilo” pois tem agido dentro da lei. A defesa de Eustáquio negou irregularidades. Boni e Lisboa, também questionados, não quiseram se manifestar. Os demais não responderam aos contatos do GLOBO.

Ontem, a PF iniciou uma investigação para apurar se o garimpo ilegal está por trás do financiamento de atos antidemocráticos no Pará. A suspeita se deu após um garimpeiro ter sido detido pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Itaituba (PA). Com ele, havia uma mala com R$ 150 mil em espécie e 78 camisas verde e amarelas com a inscrição “Deus, pátria, família” e o logotipo “Rota do Ouro”. (Colaborou Eduardo Gonçalves)