Investimentos sustentáveis podem ser o futuro das finanças

Por Angélina BOULESTEIX
(Arquivo) Nada parece acalmar o apetite do mundo financeiro por investimentos sustentáveis, um setor complexo que representa, segundo estimativas, um terço dos ativos em nível global e que enfrenta o desafio de demonstrar seu impacto real

Nada parece acalmar o apetite do mundo financeiro por investimentos sustentáveis, um setor complexo que representa, segundo estimativas, um terço dos ativos em nível global e que enfrenta o desafio de demonstrar seu impacto real.

- O conceito e suas opções

Um investimento sustentável financia um projeto favorável ao meio ambiente ou ajuda um ator a efetuar sua transição ecológica.

Os dois principais termos técnicos são ISR (Investimento Socialmente Responsável) e os critérios ESG (Ambientais, Sociais e de Governança).

Os investidores podem escolher entre cinco opções: a exclusão (de empresas de atividades contaminantes, por exemplo), a seleção das melhores em termos de ESG, o aspecto temático (fundos dedicados à água...) e o investimento com "impacto positivo", que melhora concretamente uma situação.

- Energias fósseis e nucleares

É sustentável investir em grupos petroleiros? Para alguns não, mas para outros, sim, pois consideram que sua transição é necessária. Por exemplo, uma emissão de bônus "verdes" lançada pela Repsol gerou um acalorado debate no setor financeiro em 2017.

E no caso da energia nuclear? Quando o governo francês defendeu que esta fosse integrada na "rotulagem ecológica" europeia destinada a produtos financeiros, provocou protestos do Greenpeace.

- Furor investidor

A dívida verde - bônus emitidos no mercado para financiar projetos ecológicos e submetidos a posteriori a uma avaliação -, ocupa um lugar preponderante.

Mas os investimentos sustentáveis vão além e incluem ações ou obrigações de empresas, por exemplo de provedores de energias renováveis, empréstimos para projetos verdes e inovações como o crédito baseado no impacto, no qual o empréstimo custa menos se forem alcançados os objetivos ESG definidos previamente.

Dos 92 trilhões de dólares em ativos financeiros em 2018, US$ 30 trilhões eram considerados como investimentos verdes, segundo Stéphane Marciel, encarregado de bônus sustentáveis e Julien Brune, correspondente de conselho e estruturação da dívida do Société Générale CIB.

A Europa se situa no topo, com 14,075 trilhões, seguida de perto da América do Norte, com 13,694 trilhões, muito distantes da Ásia, com 2,180 trilhões.

Para Noémie de la Gorce, analista de Finanças Sustentáveis, da S&P Global Ratings, "os mercados se lançaram em uma corrida para demonstrar que podiam participar do financiamento de [o combate às] mudanças climáticas".

- Falta de regulação

Nenhuma regulação internacional se aplica às finanças verdes.

Mas a maioria dos atores são regidos pelos grandes princípios dos bônus sustentáveis, elaborados sob a égide da Associação Internacional de Mercados de Capitais (ICMA), destaca Frédéric Gabizon, encarregado do mercado de bônus no HSBC França.

A publicação em junho, de parte da Comissão Europeia, de um sistema de classificação constitui uma antecipação maior, embora por enquanto não tenha valor vinculante.

- Fraudes

A onda verde também traz a questão do "greenwashing" ou maquiagem verde, ou seja, quando um projeto é apresentado como ecológico sem ser.

"Felizmente, as verdadeiras mentiras são incomuns, existem maus hábitos e alguns abusam do argumento ecológico", segundo o Fórum para o Investimento Responsável, uma associação que reúne representantes financeiros e ONGs.

Em caso de fraude, a sanção é dupla: os investidores fecham as comportas e a má fama se propaga.

- A chave: o impacto real

As operações sustentáveis implicam sistematicamente uma avaliação sobre como se destinam os fundos e cada vez mais sobre seu impacto.

Os informes são feitos pelos tomadores de empréstimos, mas cada vez mais se recorre a auditorias externas.

Mas a avaliação do impacto é uma ciência jovem e complexa.

"Sobre as energias renováveis, pode-se dizer sem muita controvérsia que têm um impacto positivo. Mas no caso do carro elétrico, para além da redução de emissões, é preciso integrar o impacto da extração de minerais necessários para a bateria", segundo a especialista da S&P.

Para De la Gorce, "demonstrar o impacto real é o desafio mais importante" para o futuro das finanças responsáveis.