Ipec mostra Lula à frente e reforça estratégia em busca do voto útil

PORTO ALEGRE, BRAZIL - SEPTEMBER 16: Brazil's former president and current presidential candidate Luiz Inacio Lula da Silva speaks to his supporters during a campaign rally ahead of the Presidential Elections at Largo Glênio Peres as part of a tour around the South of the country on September 16, 2022 in Porto Alegre, Brazil. ( Photo by Ricardo Rimoli/Getty Imagens
O ex-presidente Lula durante ato de campanha em Porto Alegre. Foto: Ricardo Rimoli/Getty Imagens

No dia em que o ex-presidente Lula (PT) reuniu oito presidenciáveis em seu apoio durante um encontro em São Paulo, Jair Bolsonaro (PL) declarou, em Londres, que se não vencer a eleição já no primeiro turno é porque “algo de anormal aconteceu no TSE”.

Observadas em perspectiva, as estratégias mostram que um se prepara para a vitória e outro, para a derrota.

Bolsonaro usa imagens de apoiadores aglomerados em eventos organizados por seu estafe, como o Sete de Setembro, para desacreditar os institutos de pesquisa e dizer que tem a seu favor o “DataPovo”.

A pesquisa Ipec divulgada na segunda-feira (19) ajuda a entender por que o atual presidente já entrou em módulo desespero. O instituto mostrou que Bolsonaro parou de crescer e segue longe do candidato petista. Ele tem 31% das intenções de voto, mesmo índice apurado na pesquisa da semana passada.

Já Lula oscilou um ponto para cima, dentro da margem de erro, e agora soma 47%. Mantida a diferença, seria o suficiente para vencer as eleições no primeiro turno com 52% dos votos válidos.

Em um eventual segundo turno, o ex-presidente bateria o atual com 19 pontos de vantagem (54% a 35%).

Os candidatos do pelotão de trás ainda servem como entrave para os planos petistas de liquidar a fatura em 2 de outubro. Ciro Gomes (PDT) manteve os 7% das preferências e Simone Tebet (MDB) oscilou um ponto para cima e agora tem 5%. Soraya Thronicke (União Brasil) tem 1%.

Lula precisa de um naco dos 13% de votos destinados a esse pelotão para vencer já na primeira fase da disputa.

A disputa pelo voto útil mal começou. Nas redes sociais, os apoiadores dessa ideia já projetam analogias para convencer os eleitores de Ciro, Tebet e companhia a mudarem de ideia: afinal, eles querem tirar logo o prego bolsonarista da sola do pé agora ou preferem conviver com este prego por mais uma semana?

No encontro com os ex-presidenciáveis, que reuniu de Guilherme Boulos (PSOL) a Henrique Meirelles (hoje no União Brasil), passando por Marina Silva (Rede) e Cristovam Buarque (Cidadania), o petista tentou reforçar a ideia de que conseguiu reunir em seu apoio uma verdadeira frente ampla para derrotar o atual presidente. A foto chama a atenção pelos presentes e também pelos ausentes.

Meirelles e Marina disputaram as últimas eleições, mas não decolaram. Terminaram a corrida com 1% apenas dos votos em disputa cada.

O apoio ao ex-presidente tinha função mais simbólica do que eleitoral. A presença de Meirelles, ex-ministro da Fazenda no governo Michel Temer, em uma mesa onde sentou-se também o ex-governador tucano Geraldo Alckmin, hoje no PSB, serve para neutralizar os temores de parte do PIB a respeito de uma guinada na economia a partir de 2023.

Marina tem uma função dupla: reforçar a oposição entre as agendas de Lula e Bolsonaro em relação ao meio ambiente e sinalizar aos eleitores evangélicos, como ela, que o candidato petista não representa um risco à liberdade religiosa no país, como tentam vender seus adversários.

A sinalização de Lula teria outro impacto, no entanto, se ele tivesse conseguido reunir naquela mesa também os ex-tucanos Fernando Henrique Cardoso e José Serra. Mais ainda se houvesse um nome ligado ao PDT de Ciro Gomes ou ao MDB de Simone Tebet para reforçar a estratégia da busca pelo voto útil.

Mas os ex-presidenciáveis Cabo Daciolo (PDT) e Heloisa Helena (Rede) seguem ainda, ao menos oficialmente, no barco de Ciro, enquanto Álvaro Dias (Podemos) e Roberto Freire (Cidadania) permanecem com Tebet.

A menos de duas semanas das eleições, nem o mais otimista apoiador de Ciro e Tebet imagina que um deles tenha qualquer chance de colocar um pé no segundo turno da disputa. Os presidenciáveis não dão mostras de que vão retirar a candidatura a essa altura do campeonato, mas precisam convencer seus eleitores a não deixá-los na estrada sob o risco de saírem das urnas menores do que entraram. É isso o que está em jogo.

Pelo desenho tático, é possível imaginar que Bolsonaro vai escalar ainda alguns degraus nos petardos direcionados ao adversário petista para garantir ao menos uma sobrevida no segundo turno. E Lula seguirá recolhendo pedaços aqui e acolá de apoio em busca daquele 2% ou 3% dos votos válidos que podem ser determinantes para a sua eleição.