IPO do Nubank é afetado por desvalorização de fintechs em Bolsas de Valores

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***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 08.08.2011 - Painéis de indicadores econômicos na sede da Bolsa de Valores de SP. (Foto: Alessandro Shinoda/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 08.08.2011 - Painéis de indicadores econômicos na sede da Bolsa de Valores de SP. (Foto: Alessandro Shinoda/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A aguardada estreia do banco digital brasileiro Nubank nas Bolsas de Valores de Nova York e São Paulo ocorre em um cenário de queda nas ações de empresas semelhantes -de tecnologia e, em especial, aquelas que oferecem serviços financeiros.

A fintech planeja o seu IPO (na sigla em inglês, é a oferta pública de ações, ou seja, a abertura de capital em uma Bolsa de Valores) para esta quarta-feira (8). Criada em 2013, a empresa foi pioneira em serviços financeiros que vendem menos burocracia e mais modernidade aos clientes. Em geral, a oferta de ações é um momento importante para investidores de startups, que esperam ter retorno do dinheiro que foi injetado nas companhias.

Um dos mais recentes casos que mostram os reveses que fintechs têm enfrentado nas Bolsas é o da indiana Paytm. No último mês, a empresa fundada em 2000 protagonizou o maior IPO da Bolsa indiana ao levantar mais de US$ 2,5 bilhões em um dia (quase R$ 13,7 bilhões, na cotação da época).

A estreia, no entanto, foi seguida por dias turbulentos. O preço dos papéis caiu 27%. Avaliada em US$ 20 bilhões (quase R$ 110 bilhões) na abertura de capital, a companhia chegou a cair para US$ 11,8 bilhões e fechou a última sexta-feira (3) valendo US$ 14,2 bilhões (pouco mais de R$ 80,5 bilhões).

A brasileira Stone, empresa de maquininhas de cartão que está na Bolsa de Nova York, acumula queda de 78% neste ano. A PaGSeguro, também listada nos EUA, caiu mais de 50% desde fevereiro deste ano.

O Nubank já é afetado pelo contexto de incertezas de seus pares. No final de novembro, a empresa cortou quase US$ 10 bilhões (R$ 56,4 bilhões) da sua oferta inicial, que ficou em US$ 41,5 bilhões (quase R$ 235,2 bilhões).

O ano quebrou recordes de investimento em inovação no Brasil, segundo levantamento da plataforma Distrito. Até novembro, mais de US$ 8,8 bilhões (R$ 49,7 bilhões) haviam sido injetados nessa indústria, um aumento de quase 142% em relação ao ano passado inteiro.

As fintechs disparam quando comparadas a outros setores: mais de um terço do investimento total, US$ 3,5 bilhões (R$ 19,8 bilhões), foi em empresas financeiras. Startups que atuam no varejo, que ficam em segundo lugar, abocanharam quase US$ 1,309 bilhão (R$ 7,4 bilhões).

O Nubank é uma das empresas que dependem desse alto volume de capital. Ainda em fase de grandes investimentos e operando no vermelho, o banco digital teve prejuízo de R$ 500 milhões de janeiro a setembro deste ano, segundo documento para abertura do IPO. Considerando apenas a operação no Brasil, o banco teve seu primeiro lucro no primeiro semestre de 2021: R$ 76 milhões.

Analistas vêm afirmando que os números acendem o alerta de uma possível bolha, e que a redução de estímulo dos bancos centrais pode acelerar a correção de valores dessas empresas.

A precificação da fintech tem como base "uma promessa de que o Nubank vai ser um grande banco e que vai engolir os demais", diz Paulo Cunha, presidente-executivo da iHUB, escritório credenciado da XP Investimentos.

Nessa promessa, estão embutidos o número e o perfil dos correntistas do banco. "Ele é mais bem-visto, como marca, do que os bancos tradicionais. Os clientes deles hoje são pessoas jovens. A ideia é que daqui a 20, 30 anos, esses jovens, que vão ter dinheiro, farão seus investimentos lá", diz.

Além das características específicas do Nubank, a pandemia foi um fator que acelerou o investimento em inovação. Primeiro, por causa do isolamento social em diversas partes do mundo, que forçou a digitalização de todos os processos possíveis e levou empresas a procurarem soluções em startups e investidores a apostar no segmento. E segundo, pelos estímulos promovidos pelos bancos centrais.

No Brasil, a Selic, taxa básica de juros que afeta toda a economia, chegou à mínima histórica de 2% ao ano e assim ficou por cinco meses. Os Estados Unidos seguem com o índice zerado.

Além de diminuir o custo da dívida pública, taxas de juros menores estimulam o investidor a se voltar para o mercado real, com rendimentos maiores. A Selic já voltou a subir e está a 7,75% ao ano -a expectativa é que termine o ano a 9,25%. O Fed (Federal Reserve, Banco Central dos EUA), já indica que o estímulo pode ser reduzido em breve.

Reticente ao cravar que há uma bolha, Cunha diz, porém, que "os múltiplos estão muito esticados". Segundo ele, as empresas de tecnologia serão as mais impactadas pela redução de estímulo dos bancos centrais. "Elas precisam investir mais e ainda não têm um fluxo de caixa operacional positivo que consiga financiar as suas próprias atividades. Geralmente, dependem muito de dívida e do bom humor de mercado", afirma.

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