Irã começa a limitar inspeções sobre seu programa nuclear

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O ministro iraniano das Relações Exteriores, Mohamad Javad Zarif

O Irã confirmou nesta terça-feira (23) a entrada em vigor das restrições às inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) a suas atividades nucleares, após o fim de um prazo estabelecido por Teerã para a suspensão das sanções americanas.

"A aplicação da lei (do Parlamento) começou esta manhã", afirmou o ministro iraniano das Relações Exteriores, Mohamad Javad Zarif.

"Oficialmente, anunciamos em 15 de fevereiro à Agência Internacional de Energia Atômica que a lei do Parlamento entraria em vigor a partir da manhã de 23 de fevereiro", completou Zarif, que, no entanto, destacou que a cooperação de Teerã com a agência nuclear da ONU prossegue.

Nesse contexto de tensão, a AIEA disse estar "profundamente preocupada" com a possível presença de material nuclear em um laboratório iraniano não declarado, de acordo com um relatório interno consultado pela AFP nesta terça-feira.

A agência da ONU também lembrou que o Irã possui estoques de urânio enriquecido com uma quantidade 14 vezes superior ao limite estabelecido.

Além disso, a França, a Alemanha e o Reino Unido lamentaram "profundamente" a "perigosa" restrição das inspeções da AIEA e instaram Teerã "a interromper e reverter todas as medidas que reduzem a transparência e a cooperar plenamente".

"Nosso objetivo continua sendo preservar o acordo e apoiar os esforços diplomáticos em busca de uma solução negociada, que permita ao Irã e aos Estados Unidos retornar ao respeito pleno de seus compromissos", acrescentaram os respectivos chefes da diplomacia dos três países europeus.

O porta-voz do Departamento de Estado americano, Ned Price, também destacou que este é o objetivo da nova administração americana, mas expressou sua "preocupação" com uma potência iraniana "que vai na direção ruim".

Desde 2019, o Irã tem se liberado progressivamente de várias limitações que tinha acordado sobre seu programa nuclear em troca de uma flexibilização das sanções adotadas contra a República Islâmica.

De acordo com o texto promulgado pelo Parlamento iraniano em dezembro, o governo é obrigado a limitar certas inspeções da AIEA a instalações não nucleares, incluindo áreas militares suspeitas, caso sejam mantidas as sanções restabelecidas em 2018 pela administração anterior dos Estados Unidos, quando Donald Trump retirou unilateralmente seu país do acordo nuclear com o Irã.

- Acordo temporário -

Irã e AIEA anunciaram no domingo um acordo "temporário" para manter um controle das atividades nucleares, mas reduzido, enquanto começam as negociações diplomáticas entre as partes integrantes do acordo internacional, que forneceu um marco para o programa nuclear iraniano concluído em Viena em 2015, em uma tentativa de romper o impasse atual.

O diretor geral da AIEA, Rafael Grossi, afirmou que sua organização continua "sendo capaz de manter o nível necessário de vigilância e constatação" após as conversas com funcionários iranianos.

O porta-voz do governo iraniano, Ali Rabii, elogiou nesta terça-feira o acordo "eficaz e tranquilizador" com Grossi, que segundo ele evitaria "prejudicar as relações, a confiança mútua e a cooperação positiva entre Irã e AIEA".

Ao abrigo deste "acordo técnico bilateral", que tem duração de três meses, mas que pode ser suspenso a qualquer momento, o número de inspetores no terreno não muda e continuam a ser possíveis verificações sem aviso prévio.

"O núcleo deste acordo é que as imagens gravadas por câmeras sobre nosso programa nuclear (...) serão mantidas e não serão disponibilizadas para a Agência", disse Zarif.

A Organização de Energia Atômica do Irã afirmou no domingo que as imagens serão "retiradas" se as sanções não forem "totalmente levantadas em três meses".

Concluído em Viena entre o Irã e o grupo 5+1 (os cinco membros do Conselho de Segurança da ONU - Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Rússia e China - mais Alemanha), o pacto prevê o levantamento gradual das sanções em troca de uma garantia de que o Irã não adquirirá armas nucleares.

O jornal reformista Etemad, por sua vez, chamou o acordo temporário de "uma iniciativa de três meses para ajudar a diplomacia", e o ultraconservador Kayhan saudou uma "vitória" da República Islâmica.

Apesar de suas negativas, o Irã é acusado de querer adquirir armas nucleares, principalmente por Israel.

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