Irã diz não ser obrigado a mostrar à AIEA alguns de seus locais nucleares

Diretor da AIEA, Rafael Grossi, em foto de 2019

O Irã "não tem nenhuma obrigação" de conceder aos inspetores da AIEA o "acesso complementar" que eles solicitam a locais suspeitos de ter abrigado no passado atividades nucleares clandestinas, declarou nesta quarta-feira o embaixador iraniano nas organizações internacionais na Áustria.

O embaixador Kazem Gharib Abadi reagiu assim a um relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) informando a recente recusa de Teerã em deixar a agência da ONU de inspecionar dois locais.

"Qualquer pedido de esclarecimento ou acesso complementar da Agência com base em (...) informações fabricadas por serviços de inteligência, incluindo os do regime israelense, (...) não cria nenhuma obrigação para que o Irã considere esses pedidos", afirmou o diplomata em comunicado.

Em seu relatório, consultado na terça-feira pela AFP, a AIEA explica que os dois locais inacessíveis estão entre um total de três identificados pela agência como duvidosos. Levantam "várias perguntas relacionadas à possibilidade de material nuclear e atividades nucleares não declaradas", segundo a agência.

Uma fonte diplomática disse à AFP que as atividades em questão poderiam ser anteriores à assinatura, em 2015, do acordo internacional para limitar as capacidades nucleares de Teerã.

O regime iraniano estima que não é mais obrigado a explicar suas ações praticadas nos anos anteriores a esse acordo histórico, que hoje está ameaçado de completa desintegração.

O embaixador iraniano critica os Estados Unidos e o governo israelense por fornecer à AIEA "informações fabricadas" relacionadas aos locais visados pela agência.

"Mais uma vez, os regimes americano e israelense estão tentando pressionar o Agência para desviá-la de suas funções estatutárias, a fim de distorcer a cooperação e as relações pró-ativas e construtivas entre a Agência e o Irã", denunciou o embaixador iraniano.

Em uma entrevista à AFP na terça-feira, o diretor da AIEA Rafael Grossi soou o "alarme", censurando o Irã por sua falta de transparência em suas atividades nucleares passadas e exigindo "esclarecimentos".

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, acusa, desde 2018, o Irã, inimigo jurado de Israel, de ter ocultado locais de produção de armas nucleares da comunidade internacional, alegando ter arquivos iranianos apoiando suas denúncias e transmitidos à AIEA.

Essas polêmicas sobre a história do programa nuclear iraniano aumentam a forte tensão em torno das atividades atuais do regime, que afirma ter objetivos puramente pacíficos e civis.

O acordo de 2015 está em risco desde que os Estados Unidos se retiraram unilateralmente em 2018.

Teerã, sufocado pelas sanções econômicas, respondeu a esta retirada a partir de maio de 2019, desligando-se de alguns de seus compromissos e intensificando sua produção de material nuclear.