Irã restringe internet para sufocar 'atos de caos' após morte de Mahsa Amini

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Alvo de intensos protestos após a morte de Mahsa Amini, mulher de 22 anos detida pela polícia, o regime do Irã intensificou a repressão contra manifestantes e busca inviabilizar a comunicação entre eles e o acesso à informação por meio de cortes na internet.

Para sufocar os atos, a conexão foi limitada, e redes sociais como WhatsApp e Instagram foram cortadas desde a noite de quarta-feira (21). A agência Fars, próxima ao regime, informou que o objetivo seria controlar aquilo que o Estado vem chamando de "ações contrarrevolucionárias" que põem em risco a segurança nacional.

O presidente Ebrahim Raisi também falou sobre o caso pela primeira vez desde que Amini morreu em um hospital de Teerã na última sexta (16), depois de passar três em dias em coma após ser detida por uma espécie de polícia dos bons costumes por supostamente violar as regras ao não usar o hijab, o véu islâmico.

Às margens da Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, Raisi disse nesta quinta (22) que uma investigação está em curso, mas condenou os protestos. "Existe liberdade de expressão no Irã, mas atos de caos são inaceitáveis", afirmou em uma entrevista coletiva. "Devemos diferenciar manifestações de vandalismo."

Ele também criticou a cobertura midiática dada ao caso, acusando a existência de um duplo padrão. "Todos os dias, em diferentes países, incluindo os EUA, vemos homens e mulheres morrendo em confrontos policiais, mas não há a mesma comoção", disse.

A fala vem também em resposta a sanções anunciadas por Washington nesta quinta contra a polícia moral do país. O Departamento do Tesouro americano, em nota, disse que os agentes eram responsáveis pela morte de Amini, a quem descreveu como uma mulher valente.

Raisi havia ignorado o caso durante seu discurso na Assembleia-Geral, quando acusou o Ocidente —acentuadamente Washington— de impor sanções a Teerã enquanto ignora violações de direitos humanos em outras regiões.

Desde a morte da jovem, protestos têm tomado as ruas do país em pelo menos 50 cidades e vilas. Nesta quinta, manifestantes na capital Teerã e outras cidades incendiaram delegacias de polícia e carros, em uma prova de que a indignação pública não dá sinais de arrefecer.

As manifestações são repreendidas pelas forças de segurança, que usam gás lacrimogêneo e efetuam prisões. O saldo dos confrontos até agora é de 31 mortos, segundo a ONG Direitos Humanos do Irã, com sede em Oslo. Números oficiais dizem ser 17 mortes.

Somente na província do Curdistão, onde Amini nasceu, ao menos oito manifestantes teriam morrido, incluindo dois adolescentes de 15 e 16 anos, em meio à repressão, segundo a organização local Hengaw.

Além do bloqueio do acesso à internet, há também o assédio judicial. A Guarda Revolucionária, a força de segurança de elite do país, pediu à Justiça nesta quinta que processe aqueles que disseminarem o que chamam de notícias falsas e boatos sobre o caso.

O contexto da morte da jovem tem sido amplamente questionado não apenas por manifestantes, como também por sua família —o pai de Amini acusou nesta quinta as autoridades de mentirem.

Em uma entrevista à rede britânica BBC, Amjad afirmou que não lhe foi permitido ver o relatório da autópsia da filha e negou, mais uma vez, que Mahsa estivesse doente quando foi detida.

Segundo o relato do pai à BBC, o irmão de Amini, Kiarash, estava com ela no momento da detenção e soube por testemunhas que ela havia sido espancada na van e na delegacia para onde foi levada.

"Meu filho implorou para que não a levassem, mas ele também foi espancado, suas roupas foram arrancadas. Pedi a eles que me mostrassem as câmeras corporais dos seguranças, eles me disseram que as câmeras estavam sem bateria", disse o pai.

As autoridades iranianas disputam esta versão, afirmando que Amini não foi maltratada, mas sofreu "insuficiência cardíaca súbita" enquanto estava sob custódia. Na semana passada, os oficiais chamaram a morte dela de "incidente infeliz".

Seu pai também contou que foi impedido pela equipe médica de ver o corpo da filha após sua morte. "Eles não me deixaram entrar", relatou.

Por meio de especialistas independentes que acompanham a situação local, a ONU também condenou os recentes acontecimentos. Nota assinada, entre outros, por Javaid Rehman, relator especial sobre direitos humanos no Irã, diz que Amini é "outra vítima da repressão e da discriminação sistemática contra as mulheres no Irã e da imposição de códigos de vestimenta discriminatórios".

Na noite de quarta, outro caso envolvendo o regime chamou a atenção. Christiane Amanpour, jornalista britânico-iraniana e âncora-chefe internacional da rede americana CNN, relatou que teve uma entrevista com Raisi cancelada após se recusar a usar o véu islâmico.

Em uma rede social, ela afirmou que, 40 minutos após o horário programado para a conversa, um assessor de Raisi apareceu no local para pedir que ela usasse o acessório. "Educadamente recusei", afirmou. "Estamos em Nova York, onde não há nenhuma lei ou tradição sobre o uso do véu; também pontuei que nenhum outro presidente iraniano exigiu que eu usasse o acessório em entrevistas prévias."

Após a Revolução de 1979, que abriu espaço para um regime teocrático, a lei iraniana passou a afirmar que mulheres são obrigadas a cobrir o cabelo com véu e a usar roupas largas para encobrir o formato de seus corpos. Aquelas que descumprem a norma enfrentam repreensões públicas, multas e mesmo a prisão.

A lei nunca deixou de ser questionada, apesar da repressão. Ao longo dos últimos meses, ativistas de direitos humanos têm influenciado mulheres a retirarem o véu publicamente em protesto contra o código de vestimenta, o que desagrada a governantes e agentes de segurança, que afirmam que o ato configura um comportamento imoral.

Autoridades do alto escalão do regime temem que a onda de protestos atual escale e se assemelhe ao que ocorreu em 2019, quando manifestações contra a alta no preço da gasolina ocuparam as ruas do país se tornaram as mais mortais desde a Revolução de 1979 —levantamento da agência Reuters diz que ao menos 1.500 morreram.