Irã retoma produção de urânio enriquecido a 20%

Marc JOURDIER
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Inspetor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) na central nuclear de Natanz, ao sul de Teerã, em 20 de janeiro de 2014

O Irã retomou o enriquecimento de urânio a 20% e anunciou que, desde a madrugada desta terça-feira (5), a produção é "estável", uma decisão considerada "lamentável" pela União Europeia (UE), que prometeu, no entanto, "redobrar os esforços" para salvar o acordo nuclear.

Teerã anunciou na segunda-feira (4) que havia iniciado o processo para produzir urânio enriquecido a 20% na usina subterrânea de Fordo, situada 180 km ao sul da capital do país.

A decisão contraria os compromissos assumidos pelo país com a comunidade internacional no acordo sobre a energia nuclear iraniana assinado em Viena em 2015.

As cascatas de centrífugas para aumentar o conteúdo em isótopos de urânio 235 estão sendo aceleradas paulatinamente.

"Por volta das 19h (12h30 de Brasília), chegamos a 20%", anunciou o porta-voz da Organização de Energia Atômica do Irã (OEAI), Behrouz Kamalvandi, em uma entrevista exibida pouco antes da meia-noite pela televisão estatal.

A partir da madrugada, acrescentou Kamalvandi, a produção de urânio enriquecido a 20% "deveria ser totalmente estável, o que significa que injetamos na entrada (das cascatas de centrífugas urânio enriquecido a 4%) e conseguimos obter 20% na saída".

Agora “podemos produzir todos os meses 8 ou 9 quilos de urânio enriquecido a 20% até chegar aos 120 quilos (por ano) que a lei nos impõe”, declarou o presidente da Organização Iraniana de Energia Atômica (AIEA), Ali Akbar Saléhi.

A UE afirmou, por sua vez, que tomou "conhecimento, com profunda preocupação, das medidas adotadas pelo Irã para começar o enriquecimento urânio a 20%", segundo o porta-voz da diplomacia do bloco, Peter Stano.

Ele disse que a UE vai "redobrar os esforços para preservar o acordo".

O governo russo disse nesta terça-feira que "celebramos as frequentes declarações dos líderes iranianos sobre sua disposição de retornar ao pleno cumprimento aos requisitos do acordo", embora "esforços e custos adicionais sejam agora necessários para que as instalações de Fordo atendam as disposições do pacto ", acrescentou.

O porta-voz da OEAI disse que o organismo está implementando a lei aprovada recentemente pelo Parlamento iraniano, que determina que o governo retome de forma imediata a produção de urânio enriquecido a 20% para obter 120 quilos por ano.

O governo do presidente moderado Hassan Rohani se declarou contrário à lei, mas disse que não tinha alternativa, salvo aplicar o texto se entrasse em vigor.

Diante da recusa de Rohani de promulgar o projeto, Mohammad-Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento (de maioria conservadora desde fevereiro), publicou a lei no Diário Oficial, como a legislação iraniana permite.

- "Chantagem nuclear" -

O governo acredita que a lei contraria os esforços diplomáticos para conseguir a suspensão das sanções americanas contra o Irã, após a posse de Joe Biden como presidente.

Biden expressou a intenção de mudar a política de "máxima pressão" contra o Irã adotada pelo presidente Donald Trump, que retirou o país do acordo de Viena em maio de 2018 e voltou a impor fortes sanções contra Teerã.

Como represália, a partir de maio de 2019, o Irã renunciou à maioria dos compromissos incluídos no acordo de Viena.

O país afirma, no entanto, que as medidas adotadas contra seus compromissos são reversíveis. Segundo Teerã, elas foram decididas no âmbito dos dispositivos do acordo de 2015, no caso de as outras partes não cumprirem seus compromissos.

"Nossas medidas corretivas foram adotadas em conformidade com o artigo 36 do acordo, após anos de não cumprimento por parte de seus participantes. Nossas medidas continuam sendo reversíveis, se todas as partes cumprirem o acordo", declarou na segunda-feira o chefe da diplomacia iraniana, Mohammad Javad Zarif.

O acordo nuclear foi alcançado em Viena em 2015 após anos de árduas negociações entre o Irã e os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU - Reino Unido, China, França, Rússia, Estados Unidos -, além da Alemanha.

O Irã estava produzindo urânio enriquecido a 20% antes da assinatura do acordo, que estabelece em 3,67% o limite máximo do país.

A retomada das atividades tem como pano de fundo o aumento das tensões entre Teerã e Washington, duas semanas antes do fim do mandato de Trump.

"O enriquecimento de urânio a 20% do Irã em Fordo é uma clara tentativa de continuar sua campanha de chantagem nuclear, uma tentativa que continuará fracassando", afirmou na segunda-feira o Departamento de Estado americano.

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