Irajá foi o bairro mais quente de 2020, dentro do sistema Alerta Rio

Lucas Altino
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RIO — Apesar de Bangu figurar no imaginário do carioca como o bairro mais quente da cidade, foi Irajá quem ocupou o posto de recorde de lugar com maiores temperaturas do Rio em 2020. Isso ao menos no sistema de monitoramento Alerta Rio, da prefeitura, que conta com oito estações de temperatura, e o bairro da Zona Norte foi o primeiro colocado. Ao longo dos 365 dias do ano passado, em 36% das datas foi em Irajá o registro de temperatura mais alta do dia. Em seguida, vieram Santa Cruz e São Cristóvão.

Em seu monitoramento, o Alerta Rio localiza qual bairro registrou a maior temperatura do dia na cidade, diariamente. Segundo especialistas, a posição de Irajá não é uma surpresa, pois simboliza questões geográficas e urbanísticas daquela área na Zona Norte: pouca cobertura vegetal e arborização urbana, alta ocupação do solo, proximidade de vias expressas — em especial a Avenida Brasil — distância da orla, e até sua topografia com muitas montanhas no entorno, o que afeta a circulação do ar.

— Irajá é um bom exemplo na Zona Norte, de bairro com urbanização consolidada, o que acumula mais energia solar, através da radiação do sol. Quanto mais urbanizada a superfície, mais calor ela acumula. Por isso, a prefeitura precisa ter algum tipo de ação para melhorar as condições dessas áreas áridas, com criação de parques e arborização — explica Andrews Lucena, Doutor em Ciências atmosféricas da UFRRJ. — Irajá não deve ser muito diferente de seus vizinhos mais próximos, como Bonsucesso, Penha, Madureira e Cascadura. Mas lá é onde temos uma estação. Em Bangu, por exemplo, não há mais estação de temperatura. Por isso, o imaginário de Bangu como bairro mais quente deve ficar para a geração mais antiga, e os mais novos vão ler sobre Irajá.

O especialista, que estuda ilhas de calor, explica que o aquecimento funciona de baixo para cima. Ou seja, não é o raio de sol direto nos nossos corpos que nos faz sentir calor, e sim a radiação do sol que aquece o solo e aumenta a temperatura do local. Por isso, quanto maior for a ocupação urbana, maior o calor. Já se houver muita área verde no solo, a irradiação solar é amenizada.

Grandes rodovias e avenidas também são polos de calor. Por isso, a proximidade da Avenida Brasil contribui para que Irajá tenha temperaturas mais elevadas. Em suas análises por satélite, Lucena diz que a Avenida Brasil aparece como uma linha preta (a mais quente) no mapa.

— A Avenida Brasil é uma grande via de acúmulo de calor, assim como são todas grandes avenidas e rodovias. Nos nossos estudos, por exemplo, concluímos que os corredores de BRT também aumentaram a temperatura — afirma Lucena, que cita uma alternativa para falta de cobertura vegetal. — Se não tiver área verde, que é o ideal, vale criar vias de entrada de água no solo, como canaletas, para favorecer a permeabilidade.

Geógrafo e morador de Bonsucesso, Hugo Costa diz que a ocorrência de maiores temperaturas na Zona Norte não é uma coincidência.

— Irajá e São Cristóvão aparecem no topo do ranking do Alerta Rio porque são vizinhos da Avenida Brasil. O excesso de asfalto e concreto tem suas consequências. Dados do Instituto Pereira Passos de Uso do Solo do Rio de Janeiro mostram que a Área de Planejamento 3 (Zona Norte, com exceção da Grande Tijuca) é a mais densamente ocupada, principalmente por residências e vias, e a de menor cobertura Arbórea

A necessidade de aumento da arborização urbana na cidade, e em especial na Zona Norte, foi um dos diagnósticos do Plano Diretor de Arborização Urbana (PDAU), estudo feito pela Fundação Parques e Jardins (FPJ) em 2016. O arquiteto Roberto Rocha, que integrou a equipe responsável pelo projeto, diz que dados climatológicos indicam um aquecimento da superfície da cidade nos últimos anos.

— O problema é que a ausência de áreas verdes, parques, praças e logradouros arborizados agrava ainda mais essa situação. Temos vários desertos de vegetação em toda a cidade — lamenta Rocha. — Dentre os inúmeros serviços ambientais das árvores há a regulação microclimática, um verdadeiro ar condicionado nas áreas urbanas, que mitiga essas ilhas de calor. A arborização também pode reduzir as enchentes de verão pela absorção efetuada pelas áreas permeáveis onde são plantadas e acelerar o ciclo da água, regulando a chuva numa região.

As soluções previstas pelo PDAU, porém, não saíram do papel, em grande parte, até aqui. Ele, cita, porém, a possibilidade de boas práticas através de coletivos de plantio e associações de moradores, com a orientação técnica da FPJ. Mas a prioridade de ação, de fato, é na Zona Norte.

— Existe uma maior concentração da arborização urbana na Zona Sul, Tijuca, Grajaú e Barra, ao passo que a Zona Norte, que possui infraestrutura urbana consolidada, não possui uma maior densidade de arborização nos logradouros. Então há um déficit que deve ser corrigido. Lembro que o PDAU indicou a necessidade de elaboração de um inventário de todas as árvores da cidade para verificar onde as ações prioritárias de plantio devem ocorrer. No aspecto climático a Zona Norte está carente, então é a prioritária, mas a arborização mais antiga em toda a cidade vai morrer um dia, então devem ser programadas as reposições até mesmo nos bairros hoje arborizados -- conclui Rocha, que também celebra a preservação da Floresta do Camboatá. — Um verdadeiro oásis na fronteira entre as zonas norte e oeste da cidade .