Iranianas protagonizam atos políticos tão temidos e proibidos pela Fifa

O choro da torcedora iraniana durante o hino do país, vaiado por muitos e silenciado pelos jogadores, é o símbolo do momento do Irã. Vestida com o hijab, lenço tradicional da cultura muçulmana, ela pôde experimentar algo que em sua terra é proibido: assistir a um jogo de futebol. Enquanto a Inglaterra saiu vencedora com a goleada por 6 a 2, as mulheres foram as reais protagonistas na tarde desta terça-feira no estádio Khalifa, em Doha.

Num dia em que o assunto poderia ser apenas a proibição da Fifa ao capitão Harry Kane de usar a braçadeira nas cores do arco íris pela causa LGBTQIA+, os atos políticos, tão combatidos pela entidade, foram reverberados pelos iranianas, que deram início a uma onda de protestos, desencadeada pela morte, em setembro, de Mahsa Amini, uma curda iraniana de 22 anos, detida por violar o estrito código de vestuário que obriga as mulheres a usarem o véu em público.

A torcedora que foi às lágrimas optou por manter o véu. Mas tantas outras deixaram os cabelos livres como forma de protesto aos olhos do mundo. Na multidão, o anonimato as encorajou a carregar faixas e cartazes com os dizeres "Liberdade para as mulheres" num espaço onde não são desejadas. Ganharam o apoio de boa parte dos homens presentes, como os jogadores da seleção, que também estão crescentemente descontentes com a opressão do regime dos aiatolás.

Elas ainda têm medo, e é justificável. Desde o início das manifestações no país cerca de 380 pessoas morreram, incluindo pelo menos 47 crianças, segundo a Iran Human Rights Watch. Poucas permitem a identificação, algumas deixam os maridos falarem por elas.

-É melhor não colocar o nome. Mas somos contra o regime. É preciso lutar por mudanças no país. Sempre somos mostrados ao mundo como pessoas tristes e rudes, e isso não é verdade. Mas o governo oprime as pessoas -disse o marido de M., que deu seu nome mas pediu para não ser identificada.

O receio de estarem sendo observadas, mesmo a quilômetros de distância do Irã, faz com que as amigas moradoras de Teerã abaixem a voz e disfarcem quando algum iraniano se aproxima. Não querem ser deduradas e marcadas quando retornarem ao país. Inclusive, torcedores que levaram bandeiras do antigo Irã, com o sol e o leão segurando um sabre, foram reprimidos por policiais locais, segundo vídeos nas redes sociais. A bandeira foi proibida pela Fifa, mas alguns conseguiram passar pela inspeção da segurança.

-É possível que haja alguns funcionários do governo aqui para observar quem está protestando - diz M., de 30 anos, lembrando que houve dias em que todos as redes sociais foram cortadas no país e até mesmo o simples acesso à internet.

Sem véu, M. cortou os cabelos em forma de protesto, como muitas iranianas anônimas e famosas vêm fazendo. Havia 15 anos que ela não cortava as madeixas que já chegavam na cintura. Foi a forma que encontrou para apoiar o movimento.

Ela admite que não foi às ruas por medo de perder o emprego ou de morrer. Formada em design, ela trabalha com confecção de lenços e véus. Usá-lo nos ombros, como vem fazendo, não é ir contra a religião muçulmana, mas à repressão do regime, que tem queimado e roubado corpos de manifestantes mortos para que a família não tenha acesso.

- O véu não é o problema. Eu gosto de usar. É ser obrigada, é a repressão se não usar, é não ter liberdade de escolha. Os protestos são por isso - diz a design, cujos pais eram bem jovens quando houve a Revolução Islâmica, em 1979. - Eles se lembram de como era o país antes e apoiam os protestos por isso. Em 40 anos de regime, essa é apenas terceira vez em que há protestos.

Iniciado por jovens e adolescentes, o movimento que ganhou as ruas de Teerã e vem sendo reprimido com muita violência também recebido apoio de outros setores do país. A participação masculina vem na esteira das questões econômicas.

- Há insatisfação de todos pelo regime opressor e a crise econômica. Há inflação, tudo está muito caro. A classe média está empobrecendo - conta M.

As amigas têm esperanças de dias melhores, mas sabem que o regime não cairá tão facilmente. A população mais jovem também não parece ceder tão cedo.

- A educação da nova geração é a responsável por isso. Eles foram à escola, estão nas universidades e estão tendo consciência própria, são críticos - afirma J., empresária de 34 anos.