Aiatolá Sistanni diz que Iraque não será o mesmo 'após os protestos'

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Manifestante iraquiano devolve bomba lacrimogênia lançada por forças de segurança na Praça Khallani em Bagdá, 15 de novembro de 2019

O Iraque ficará profundamente marcado pelas manifestações pró-reformas e "não voltará a ser o mesmo" - afirmou nesta sexta-feira (15) o aiatolá Ali Sistani, principal líder religioso xiita do país, em uma demonstração de apoio aos manifestantes, que permanecem nas ruas.

As concentrações ganharam impulso após estas declarações em cidades do sul e em Bagdá, onde antes da meia-noite, a explosão de uma bomba deixou pelo menos um morto e mais de dez feridos perto da Praça Tahrir, informaram fontes de segurança.

À tarde, dois manifestantes haviam morrido atingidos por disparos de munição letal na praça vizinha, Khallani. Um terceiro morreu atingidos por bombas de gás lacrimogênio, dez vezes mais potentes do que as usadas me outras partes do mundo, segundo fontes médicas.

O grande aiatolá Ali Sistani afirmou que as autoridades deveriam agir rapidamente para responder às reivindicações dos manifestantes, que denunciam as difíceis condições de vida em um país rico em petróleo e exigem o fim da corrupção, assim como a renovação do sistema político.

"Se aqueles que estão no poder pensam que podem fugir de uma verdadeira reforma adiando e protelando, estão enganados", declarou Sistani em seu sermão semanal das sextas-feiras, lido por um de seus assistentes, na cidade santa xiita de Karbala (sul).

"O que vem depois destes protestos não será o mesmo de antes, e devem ter consciência disso", acrescentou.

As manifestações começaram em 1º de outubro contra o desemprego e a corrupção e, agora, o movimento reivindica uma mudança do sistema político. Desde o início destes protestos marcados pela violência, mais de 300 pessoas já morreram, manifestantes em sua maioria.

"Não se fez nada de destaque até agora" a respeito das reivindicações dos manifestantes, completou.

Sistani, de 89 anos, deu um tímido apoio aos manifestantes quando foram às ruas e classificou suas demandas como "legítimas". Nos últimos dias, porém, o aiatolá voltou a reforçar seu apoio, chamando os protestos de uma "maneira honrosa" de pedir mudanças.

- "Está conosco!" -

Esta semana, o aiatolá Sistani se reuniu com a chefe da missão da assistência da ONU no Iraque (Unami), Jeanine Hennis-Plasschaert. Segundo ela, o dignitário é a favor de se avançar em uma saída para a crise, com reformas eleitorais e mudanças na Constituição.

O Parlamento recebeu o projeto de uma nova lei eleitoral, mas ainda não se pronunciou.

O religioso pediu aos deputados que "trabalhem rapidamente para aprovar uma lei eleitoral justa que restauraria a fé do povo no processo eleitoral".

"Apenas o povo pode conceder a legitimidade ao governo (...) Votar uma lei que não oferece ao povo esta possibilidade não seria nem aceitável, nem útil", acrescentou.

Nas cidades de Kut, Hilla, Nassíria, Najaf e Diwaniya, a multidão de manifestantes aumentou após o sermão de Sistani.

Na cidade petroleira de Basra, os manifestantes bloquearam o acesso ao porto de Um Qasr, vital para as importações, sobretudo de alimentos e medicamentos.

Os que estão acampados na praça Tahrir, em Bagdá, epicentro dos protestos, dizem que estão decididos a ficar: "Ninguém vai embora! Inclusive ele (Sistani) está conosco!", disse um manifestante.

Os protestos são os mais intensos em anos no Iraque e significam uma ameaça para o sistema político imposto após a invasão dos Estados Unidos, que derrubou o regime de Saddam Hussein em 2003.

O governo rejeita os protestos e se nega a renunciar. O Iraque tem o apoio do general Qassem Soleimani, o homem forte dos Guardiães da Revolução Iraniana.

Instalado na cidade santa xiita de Najaf e que nunca aparece em público, Sistani se nega a apoiar o regime iraquiano e adverte sobre perigo da "imposição" de poderes estrangeiros no Iraque.

Uma fonte próxima à liderança xiita explicou à AFP que os delegados iranianos em Teerã tentaram entregar uma carta a Sistani, pedindo-lhe que apoie o governo e convoque os manifestantes a deixarem as ruas.

Sistani "se recusou a responder a carta e sequer os recebeu", completou a fonte.