Iraquianos votam em legislativas com pouca esperança de mudança

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Os iraquianos votam, neste domingo (10), em eleições legislativas convocadas antecipadamente para apaziguar os protestos populares de 2019, mas das quais nenhuma grande mudança é esperada devido à corrupção endêmica e à influência de grupos armados.

A votação, realizada eletronicamente, registrou problemas técnicos, incluindo avaria de urnas e problemas no reconhecimento de impressões digitais e títulos eleitorais, segundo o gabinete do primeiro-ministro Mustafa al-Kazimi.

Policiais e soldados foram mobilizados nas ruas de Bagdá para garantir a segurança. E dezenas de observadores internacionais enviados pela ONU e pela União Europeia monitoravam a votação.

O primeiro-ministro votou em Bagdá no início da manhã. "É uma oportunidade para mudança", disse Kazimi, conclamando os iraquianos hesitantes "a votar e mudar a realidade".

Logo depois, o clérigo xiita Moqtada al-Sadr, cuja lista é considerada favorita, votou em seu reduto na cidade sagrada de Najaf, ao sul de Bagdá.

No geral, porém, o movimento de eleitores era fraco nas assembleias de voto, de acordo com correspondentes da AFP.

"Não vou votar, são os rostos e os partidos de sempre", disse Abu Aziz, um aposentado.

Os especialistas preveem uma abstenção recorde neste país rico em petróleo de 40 milhões de habitantes, afetado por décadas de conflito e violência.

Inicialmente programadas para 2022, as eleições foram antecipadas em resposta aos protestos de 2019 contra a corrupção sistêmica, serviços públicos deficientes e economia precária.

Depois de uma repressão que deixou pelo menos 600 mortos e 30.000 feridos, o movimento perdeu força. Posteriormente, dezenas de ativistas sofreram sequestros, assassinatos ou tentativas de assassinato, atribuídos a facções pró-iranianas.

- "Queremos mudança" -

Criticando essas coações, muitos militantes planejam boicotar a votação.

Os blocos tradicionais da política iraquiana devem manter sua representação em um Parlamento fragmentado, sem maiorias claras, o que obrigará os partidos a negociarem alianças, segundo os especialistas.

"Queremos uma mudança. Tenho diploma em literatura árabe, mas trabalho limpando banheiros em um restaurante. É humilhante", lamentou Mohamed, de 23 anos, que não pôde viajar para Wassit, província em que nasceu, para votar.

As seções eleitorais contavam com um forte dispositivo de segurança, com duas inspeções na entrada, neste país onde atua o grupo terrorista Estado Islâmico.

Além disso, os aeroportos fecharam na noite de sábado e não abrirão até segunda-feira. As viagens entre as províncias são proibidas e restaurantes e shopping centers estão fechados.

Um soldado que guardava um centro de votação na província de Diyala, a leste da capital, foi morto e outro foi ferido por um "tiro acidental" de um colega, segundo um comunicado.

Como todas ou quase todas as formações têm suas próprias facções armadas, a possibilidade de fraude e violência pós-eleitoral também é uma preocupação.

Cerca de 25 milhões de iraquianos são chamados a participar dessas eleições.

A votação termina às 18h00 (12h00 de Brasília) e os resultados preliminares não são esperados até 24 horas após o encerramento. Os definitivos terão que esperar pelo menos dez dias.

Os iraquianos devem eleger 329 deputados entre 3.240 candidatos com um novo sistema eleitoral que, teoricamente, deve promover candidatos independentes.

A vitória aponta para o movimento de Moqtada al-Sadr, ex-chefe de uma milícia xiita anti-EUA que já tem a maior bancada no Parlamento.

Mas terá de ser entender com seus grandes rivais xiitas, as facções armadas pró-iranianas da Hashd al-Shaabi, que entraram no Parlamento em 2018 após participar da vitória contra o EI.

Em um cenário polarizado por questões como a influência dos Estados Unidos ou do Irã, as partes se engajarão em longas negociações para chegar a um acordo sobre um novo primeiro-ministro, posição geralmente ocupada por um muçulmano xiita.

"A votação provavelmente levará a outro Parlamento fragmentado, o que provocará negociatas entre as diferentes facções para formar o próximo governo", resumem os analistas Bilal Wahab e Calvin Wilder em uma análise do Washington Institute.

É difícil ver nessas eleições "mais do que um jogo de cadeiras", acrescentam.

E as demandas da onda de protestos de 2019, como o combate à corrupção, a geração de empregos ou a responsabilização dos grupos armados, "têm poucas chances de serem satisfeitas".

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