Irlanda se desculpa por escândalo de crianças mortas em lares de mães solteiras

Joe STENSON
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A comissão foi criada em 2015 para expor o alto nível de mortalidade infantil registrado nesses lugares

O primeiro-ministro da Irlanda, Micheál Martin, apresentou nesta quarta-feira (13) desculpas oficiais em nome do Estado pelo escândalo dos antigos lares para mães solteiras, onde 9.000 crianças morreram entre 1922 e 1998.

"Peço desculpas pelo profundo dano causado às mães irlandesas e aos seus filhos" nesses estabelecimentos liderados por freiras católicas em colaboração com o Estado, disse o chefe do governo em frente ao Parlamento de Dublin.

"O Estado os decepcionou", afirmou Martin um dia após a publicação do relatório de uma comissão de investigação que revelou o dramático excesso de mortalidade nesses estabelecimentos e a hostilidade geral da sociedade para esses nascimentos, que na época eram considerados ilegítimos.

A comissão revelou também até que ponto na primeira parte do século XX "a falta de educação sexual afundou as mulheres jovens na ignorância sobre como e por que ficaram grávidas", algumas delas depois de sofrerem "estupro e/ou incesto".

"As crianças nascidas fora do matrimônio eram estigmatizadas, tratadas como marginais", admitiu Martin.

"Adotamos uma moral e um controle religioso perverso, um julgamento e uma certeza moral, mas rejeitamos nossas filhas", acrescentou. "Elogiamos a piedade, mas não mostramos a bondade mais elementar para aqueles que mais precisavam dela".

- "Cultura misógina" -

A Comissão Irlandesa de Investigação sobre Lares Materno-Infantis (CIMBH) determinou em um relatório publicado na terça-feira que 9.000 crianças morreram desde 1922 nessas instituições, que operaram no país de longa e profunda tradição católica até 1998.

Esses lares recebiam adolescentes e jovens que foram rejeitadas por suas famílias. As crianças que nasciam lá eram muitas vezes separadas de suas mães e colocadas para adoção, rompendo todos os laços com suas famílias biológicas.

A comissão foi criada em 2015 para expor o alto nível de mortalidade infantil registrado nesses lugares, com o trabalho da historiadora Catherine Corless.

Ela afirmou que quase 800 crianças nascidas em uma dessas instituições, o Lar St Mary das Irmãs do Bom Socorro em Tuam, no oeste do país, foram enterradas em uma fossa comum entre 1925 e 1961.

É um "capítulo sombrio e vergonhoso da história recente da Irlanda", afirmou o primeiro-ministro, considerando que o relatório expõe a "cultura misógina" do país durante "várias décadas".

Em particular, Martin destacou "a grave e sistemática discriminação contra as mulheres, especialmente as que deram à luz fora do casamento" neste país católico.

"Tínhamos uma atitude completamente distorcida sobre sexualidade e intimidade", uma "disfunção" pela qual "as jovens mães e seus filhos e filhas" nessas instituições "foram obrigados a pagar um terrível preço", condenou.

"Toda a sociedade foi cúmplice", disse o chefe de governo.

O número de 9.000 mortes representa 15% das 57.000 crianças que passaram por esses estabelecimentos no período de 76 anos analisado pela comissão de investigação.

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