Irmã de jovem morto em Paraisópolis diz que policiais impediram socorro às vítimas

Dimitrius Dantas

SÃO PAULO - Um dia após a tragédia na favela de Paraisópolis, onde nove jovens morreram após ação policial durante um baile funk, familiares questionam a versão oficial de que as vítimas morreram pisoteadas. Na manhã desta segunda-feira, a irmã de um dos jovens, Denis Guilherme, de 16 anos, afirmou que amigos tentaram socorrer o garoto mas foram impedidos por policiais.

— Era um menino negro, na favela, curtindo um baile. Os amigos deixaram ele, ele caiu. Quando um amigo foi socorrer, o policial falou: "Pode deixar que a gente cuida dele" — disse Fernanda Garcia, irmã de Denis.

Bastante emocionada, ela deixou o Instituto Médico Legal chorando, acompanhada de outros familiares de Denis. O jovem de 16 anos trabalhava como jovem aprendiz em uma empresa de telemarketing e foi ao baile funk acompanhado por três amigos.

Na manhã desta segunda-feira, cinco corpos ainda aguardavam liberação no Instituto Médico Legal, dois na região central e outros quatro na Zona Sul. As vítimas são reconhecidas pelos familiares e encaminhadas para as funerárias. O baile, que tinha cerca de 5 mil pessoas, recebeu pessoas de diversas regiões da capital paulista e da região metropolitana.

Para Fernanda Garcia, seu irmão foi agredido, e não pisoteado. Segundo ela, não há lesões nas pernas, e a cabeça estaria bastante lesionada.

– A mão dele está intacta, do joelho pra baixo também. Isso não foi pisoteamento – disse.

Questionada se acreditava que Denis teria sido agredido, Fernanda respondeu que sim.

Ainda permanece na unidade central do Instituto Médico Legal o corpo da única vítima do sexo feminino, Luara Victoria de Oliveira, de 18 anos. Os familiares dela chegaram no local por volta das 10h45 para a liberação do corpo.

Tropeço e agressão

A tia de outra vítima, que não quis ser identificada, afirmou que seus dois sobrinhos estavam na festa quando houve a ação da polícia. Em meio ao tumulto, os dois primos tentaram se manter juntos, mas foram separados na correria da multidão. Um deles foi morto, enquanto o outro sofreu agressões da polícia.

— Ele apanhou muito da polícia. Está todo cheio de hematomas. Ele disse que tropeçou, caiu e aí vieram vários policiais e bateram nele — afirmou ela.

A vítima era criada pela avó e morava no Jaraguá, na Zona Norte de São Paulo. Ele havia dito à família que iria comer pizza com os amigos, mas acabou indo a Paraisópolis com um grupo de amigos.

– Ele estudava, fazia segundo colegial e se preparava para o mercado de trabalho. Ele era muito tranquilo, amoroso, bastante carinhoso com a gente. Era caseiro, então a gente até estranhou ele esteve no baile funk. A gente só soube que meu outro sobrinho foi no dia seguinte à repercussão, quando ele mostrou os machucados no corpo – disse.