Irritado com críticas de Bolsonaro, Maia ironiza interferência no Legislativo

TALITA FERNANDES E ANGELA BOLDRINI

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Irritado com as declarações do presidente Jair Bolsonaro sobre a "pressão por cargos" do Congresso, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse nesta quarta-feira (20) que ao mesmo tempo que critica, governo quer interferir no Legislativo.

"Eu acho engraçado. Quando dizem que o Parlamento quer indicar alguém no governo é toma lá da cá. Quando eles querem indicar relator aqui e interferir no processo legislativo não é toma la da cá?", respondeu, demonstrando irritação ao chegar ao Congresso.

Maia, principal articulador da reforma da Previdência na Câmara, negou estar irritado com Bolsonaro, mas diz que é preciso que o governo decida qual relação quer ter com o Legislativo.

"Fala-se de um lado, mas quer se interferir no outro poder. Então, se você não quer que o Parlamento governe junto, vamos manter a independência. Se você quer governar junto, vamos manter a harmonia", afirmou.

Ele disse ainda que as coisas precisam ser esclarecidas na relação entre o Congresso e o governo.

"Porque na hora que quer interferir aqui não tem nada de errado, não é interferência, não é pressão, não é nada", disse.

As declarações foram feiras por Maia logo após de ele ter uma reunião com o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o Secretário Especial da Receita, Rogério Marinho, para reclamar da postura do governo e da falta de articulação em torno da reforma da Previdência.

Bolsonaro levou pessoalmente ao Congresso nesta quarta o texto que altera as regras de aposentadoria dos militares. O projeto de lei, que também prevê mudanças na carreira das Forças Armadas, deve tramitar junto à PEC (proposta de emenda à Constituição) que reforma o regime geral da Previdência.

A medida é considerada prioritária para o sucesso da atual gestão.

A aliados, Maia reclamou da ausência de lideranças do governo capazes de atender os deputados, além da desorganização no Palácio do Planalto, por causa da disputa entre a Casa Civil e a Secretaria de Governo para assumir as funções de articulação política.

O grupo mais próximo de Maia, que se reuniu em almoço na terça-feira (19) na residência oficial da presidência da Câmara, tem uma avaliação unânime: hoje, a base de Bolsonaro é formada apenas pelo PSL, seu próprio partido.

A deputados mais próximos, o presidente da Câmara cita a frustração com o presidente.

Irritou Maia que Bolsonaro tenha falado que sofre "pressão da velha política" logo após recebê-lo para reunião no Alvorada para articular as medidas de liberação de cargos para a votação da reforma.

O presidente se reuniu com o parlamentar no sábado (9) para tratar da deliberação sobre o texto na Câmara, e foi alertado de que precisava afagar o Congresso, que vem se sentindo desprestigiado e já enviou recados para o Executivo.

Depois, na segunda-feira (11), em videoconferência com ministros que visitavam a estação brasileira na Antártida, Bolsonaro bateu na "velha política".

"Vocês sabem que as pressões são enormes porque a velha política parece que quer nos puxar para fazer o que eles faziam antes. Nós não pretendemos fazer isso", disse Bolsonaro à época.