Isolamento do coronavírus provoca ódio a celulares e reinvenção de sexo e prazer

WALTER PORTO
'Velhos como nós estão em perigo', escreveu em março, antes do auge da crise(reprodução/instagram @soparamaiores)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No diário virtual em que comenta a escalada do coronavírus em seu país, o filósofo italiano Franco Berardi conta que precisou cancelar um jantar com seus irmãos. "Velhos como nós estão em perigo", escreveu em março, antes do auge da crise.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

Siga o Yahoo Vida e Estilo no Google News

"Entendo que estou em uma encruzilhada. Se eu não cancelar o jantar, posso ser o portador de um vírus físico que pode matar meu irmão, que sofre de diabetes. Se eu cancelar, me torno um espalhador do psico-vírus, o vírus do medo e do isolamento."

Leia também

Para um autor que se dedica tanto a pensar a deterioração das relações afetivas entre as pessoas, o momento atual oferece um estudo de caso amargo. Em "Asfixia", livro recém-lançado no Brasil pela editora Ubu, Berardi já se mostra preocupado com o esgarçamento do tecido da solidariedade social, desfeito por décadas de precarização do trabalho.



Segundo ele, os laços entre as pessoas de mesma condição social se tornaram mais frágeis conforme o mundo passou a ser mais regido pelo abstrato capitalismo financeiro. A digitalização das relações pessoais, com a crescente mediação das redes sociais, só agravou o problema.

Agora, o coronavírus deixou os indivíduos ainda mais apartados, e quase todo tipo de relação --de trabalho, amizade, educação-- se transferiu para a esfera online. O italiano diz, entretanto, que o choque pode produzir uma espécie de efeito reverso. "E se esta sobrecarga de conexão quebrar o feitiço?", ele se pergunta, em entrevista por email. "Quero dizer que cedo ou tarde a pandemia vai se dissolver (espero, embora não a minimize). É possível que leve a nossa psique à identificação de que online é igual a doença."

"É possível que as pessoas fiquem fartas da abstração, com o isolamento virtual, e que um movimento de solidariedade social abra caminho para a volta da ajuda mútua e do erotismo expandido", continua. "Talvez o excesso de isolamento empurre grande parte dos jovens a desligar as telas, como uma lembrança de um tempo de desgraça e solidão."

Berardi, que foi professor de teoria da mídia na Academia de Belas Artes de Milão e forjou seu ativismo intelectual nas ruas do Maio de 1968, usa uma concepção de erotismo em linha próxima aos franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari, com quem trabalhou.

O corpo erótico que, segundo ele, a sociedade precisa resgatar é uma interação social prazerosa, em oposição às relações meramente funcionais que a ordem econômica capitalista impõe sobre a convivência. É uma ideia de erotismo que transborda a esfera da sexualidade, que está presente na cultura, na comunicação, nas artes --e por que não, na sedução-- que ocupam o dia a dia. É ver o outro como uma fonte de prazer, não como uma ferramenta.

"O capitalismo reduziu o erotismo a uma ferramenta de publicidade, mas os movimentos sociais não só exigem uma forma social diferente, mas também são eles mesmos a participação imediata em uma expansão corporal, na reativação erótica do social."



O filósofo comenta sobre como a sensibilidade corporal está "embotada e desgastada" pelos tempos de neoliberalismo e sobre como o desejo se confunde pela "orgia frígida da pornografia". Sua análise política é inseparável de todos esses conceitos.



"Por três décadas", ele diz, em referência ao período em que a ordem neoliberal se tornou dominante, "nós fomos obrigados a acelerar, a ser mais e mais competitivos e agressivos, e a sacrificar nossas necessidades concretas à abstração do dinheiro. E aí, de repente, um agente biológico entrou no contínuo social e provocou uma implosão, forçando o corpo à inação".

O corpo, real e palpável, sempre predominará em última instância sobre as construções intangíveis que regem a sociedade ("o dinheiro e a linguagem têm algo em comum -não são nada e põem tudo em movimento", escreve Berardi no livro).

Segundo o italiano, alguns líderes como o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, sempre irão considerar --em vão-- que o dinheiro e as empresas são mais importantes. "As grandes instituições financeiras podem jogar bilhões e bilhões e bilhões na economia, mas o dinheiro não ressuscita um corpo morto. Não reativa a respiração dos nossos pulmões e não pode nos aliviar da depressão, do desespero."


Um dos ensaios reunidos no livro se chama justamente "Respiração", o que soa tragicamente premonitório agora que todos estamos ameaçados por uma pandemia que ataca o sistema respiratório --e que muitos se sentem sufocados dentro de casa. No seu entender, a respiração conjunta das multidões, ressoando no mesmo ritmo, é uma representação fundamental da união dos indivíduos em solidariedade.

"A respiração de que falo é uma metáfora, mas não só. Ioga é uma atividade terapêutica que ajuda pessoas a lidar com situações angustiantes. E é um exercício de respiração consciente, de sintonia do corpo individual com o cósmico. Eu acho que movimentos sociais são essencialmente similares a esse tipo de exercício."Os dois longos ensaios de "Asfixia", aliás, formam uma crônica da euforia e decepção da esquerda nos anos 2010.

Se o primeiro, "Insurreição", se empolgava com a possibilidade de as primaveras e os movimentos Occupy daquele começo de década criarem um novo paradigma, o segundo, "Respiração", está contaminado por uma constatação melancólica -o que veio junto com essa nova vitalidade foi "uma reafirmação agressiva da identidade" nacional, étnica e religiosa que formou as bases do trumpismo.É inegável que esses movimentos falharam no nível político, segundo o filósofo, o que mostrou a força das finanças abstratas. "Mas agora as finanças são impotentes, vazias. A pandemia criou uma nova situação. Não um colapso financeiro, mas um colapso do corpo."

E agora, Berardi já ergueu um muro de ceticismo. Mas ainda dá para ver algumas rachaduras. "Eu não tenho certeza de que o mundo que vai emergir será melhor. Não mesmo", afirma, resoluto. "Talvez entremos num estado permanente de controle tecnototalitário, medo e agressividade permanente. Isso é provável."

É possível, por outro lado, que surja um mundo mais apoiado no compartilhamento, em que o prazer esteja acima da acumulação e no qual alimentemos um comportamento "emancipado do estilo de vida doentio" de outrora, nas palavras do italiano. "E eu prefiro enfatizar a possibilidade, no lugar da probabilidade".


ASFIXIA - CAPITALISMO FINANCEIRO E A INSURREIÇÃO DA LINGUAGEM



Preço: R$ 54,90



Autor: Franco Berardi



Editora: Ubu

Siga o Yahoo Vida e Estilo no InstagramFacebook e Twitter e aproveite para se logar e deixar aqui abaixo o seu comentário.