Isolamento social: Especialistas apontam ser necessário considerar fatores além da queda no índice de contágio apontada por Crivella

Selma Schmidt
Movimentação na orla de Copacabana no domingo apesar do isolamento social recomendado

O índice em queda da curva de contágio pelo novo coronavírus no Rio foi destacado pelo prefeito Marcelo Crivella na manhã dessa terça-feira. Ao mesmo tempo em que afirmou prolongar por mais sete dias as medidas restritivas no município, Crivella afirmou que se o índice de contágio chegar a 0,01 será "um passo enorme" para a volta às atividades. Os especialistas, no entanto, indicam  que é preciso mais avanços no combate e no controle da Covid-19 para vislumbrar o afrouxamento do isolamento social.

De acordo com os profissionais da saúde ouvidos pela reportagem, o método usado pelo município considera o número acumulado de contaminados no Rio para calcular o exponencial que vem crescendo em pontos percentuais. O cálculo é feito diariamente e toma como referência os 14 dias anteriores, período em que se caracteriza o ciclo da doença. Para apontar eficiência, a queda no índice deve ser significativa e durar pelo menos por duas semanas.

Os especialistas desconhecem esse método e entendem que é preciso muito mais do que ter um ritmo menor de crescimento do casos para afirmar que a curva epidêmica está diminuindo e que já é possível afrouxar as medidas.

— É preciso ter duas semanas de queda acentuada da curva de casos, ter vagas suficientes em hospitais para novos casos, ter um número considerável de testagens, pelo RT-PCR (no Rio, pelo SUS, são testadas apenas pessoas em estado grave e internadas) e possuir um comando sanitário com autoridade. Só assim, se pode começar a sair do isolamento. Entre os últimos setores estão salões de beleza e barbeiros. As escolas deverão ser as últimas — diz Hélio Bacha, coordenador técnico da Sociedade Brasileira de Infectologia.

O chefe do Laboratório de Pesquisa Clínica do Instituto Evandro Chagas e coordenador de pesquisa em medicina intensiva do Instituto D`Or, Fernando Bozza, pensa de forma semelhante:

— Claro que não basta tão somente levar em conta o crescimento percentual de casos. E, no Rio, há uma variedade grande durante a semana. O modelo tradicional para medir a curva leva em conta diversos parâmetros. É calculada a taxa de reprodutividade (considerando,, inclusive, óbitos e população), que não é algo trivial. Se está acima de 1, a epidemia está em expansão, se está abaixo de 1, em queda.

Na manhã de ontem, a secretária municipal de Saúde, Ana Beatriz Busch, falou da previsão de entrega dos leitos restantes para o tratamento de pacientes com coronavírus para a próxima semana. Segundo ela, mais de 70% das vagas previstas estão abertas, faltando completar o cronograma do Hospital de Campanha do Riocentro e do Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, em Acari. Crivella destacou esperar o aumento no número de leitos com a inauguração dos hospitais de campanhas prometidos pelo Governo do Estado. Apesar de se dizer animado com os resultados, fez o pedido para que os cariocas continuem a seguir as medidas de isolamento estendidas até 25 de maio.