ISP: Rio tem em 2020 menor número de mortes em 30 anos, mas quarta maior letalidade policial da série histórica

Arthur Leal
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Foto: Pedro Teixeira em 19-6-2020 / Agência O Globo

O Instituto de Segurança Pública do Rio (ISP) divulgou, nesta quinta-feira, um raio-x da violência no estado durante o atípico ano de 2020. Os dados mostram que, no ano passado, houve o menor registro de homicídios dolosos em 30 anos, desde o início da série histórica: 3.536 casos — número 12% menor que no ano anterior e, pela primeira vez desde 1991, abaixo de 4 mil. Em contrapartida, o levantamento mostra também que apesar de ter tido uma queda importante em relação a 2018 e 2019, as mortes por intervenção policial atingiram o terceiro maior índice já assinalado: 1.239. Apesar da diminuição de grande parte dos índices por conta da pandemia do novo coronavírus, principalmente na capital, chama atenção o fato de que a violência avançou no interior do Rio: alguns municípios do Norte, Noroeste, Sul Fluminense e Baixada Litorânea viram os homicídios aumentar consideravelmente. Em paralelo, com a Covid-19, a quantidade de estelionatos virtuais triplicou.

Um dos índices que melhor ajuda a explicar o panorama da violência no estado é o de letalidade violenta. Nesta categoria, os pesquisadores do ISP levam em consideração a soma dos homicídios dolosos, latrocínios, casos de lesão corporal seguida de morte e as mortes por agente do estado. Ao todo, foram 4.892 pessoas mortas por algum destes crimes durante 2020, um número 18% menor que em 2019, mas que se mantém num patamar alto, principalmente tratando-se de um ano de pandemia. A maioria dos mortos foram jovens negros do sexo masculino.

A violência policial no estado atingiu o menor índice nos últimos três anos, mas ainda assim, se tornou a terceira maior da série histórica, desde 2003. Agora, 2019 (1.814 mortes), 2018 (1.534) e 2020 (1.239) são os anos com mais mortes por intervenção de agentes. A maioria delas aconteceu na capital (33%) e na Baixada Fluminense (32%). As delegacias de Belford Roxo (54ªDP) e Alcântara (74ªDP), em São Gonçalo, foram as que mais anotaram casos em suas regiões, 70 e 74 respectivamente.

Um número positivo observado no levantamento de 2020 é em relação às mortes de policiais, tanto em serviço, quanto à paisana. Em 2020, o ISP mostra que foram observadas 51 mortes de policiais militares e oito de policiais civis. Foi o ano com menor número de mortes de agentes desde o início da contagem, em 1998. As principais circunstâncias da morte se dividem em Letalidade Violenta (42 mortes) e acidentes (10). Foram 17 mortos em serviço e 42 vítimas enquanto estavam em folga.

O ISP não contabilizou as mortes de agentes por causa natural, por Covid-19 ou ocorridas fora do estado do Rio de Janeiro.

A diminuição de índices de violência no estado em 2020, ano atípico de pandemia, em que durante algum tempo boa parte dos fluminenses respeitou o distanciamento social, era algo já esperado. No entanto, quando se observa a situação em alguns municípios do interior do estado, na contramão do que aconteceu em algumas áreas mais conflagradas, nota-se que chegou a haver crescimento no número de homicídios dolosos. Enquanto houve queda nos índices na Região Metropolitana (-18%), no Centro-Sul Fluminense (-34,8%), Costa Verde (-10%) e Região Serrana (-14%), houve crescimento no número de homicídios dolosos na Baixada Litorânea (15%), Noroeste Fluminense (53,8%), Médio Paraíba (13,7%) e Norte Fluminense (2,4%). Veja algumas das cidades onde mais houve aumento neste índice:

Chama atenção, também a incidência de homicídios dolosos em municípios historicamente com poucos registros ou que, um ano antes, sequer tiveram anotações deste tipo:

Com o efeito da pandemia, ao mesmo tempo em que também houve queda de 40% nos registros de roubos de rua, 36% nos registros de roubos de veículos e 27% nos latrocínios (roubo seguido de morte), por exemplo, foi notado, também um "boom" em casos de estelionato virtual a partir do início da pandemia. Os dados mostram que, pelo menos de maio a julho de 2020, houve um verdadeiro estouro no número de casos, com um novo crescimento de novo já nos últimos meses do ano.

O número de casos de estelionato cresceu 17,7% em relação ao ano de 2019, apresentando aumento principalmente apartir do mês de maio. Ocorreram 41.253 casos durante o ano de 2019 e 48.552 em 2020. Quando é analisado o local em que o crime se concretizou, foi observado um aumento de 198,1% de casos em ambiente virtual no ano de 2020 quando comparado ao ano de 2019 – ou seja, o número de crimes foi três vezes maior. Ao passo que o estelionato em ambiente virtual representou 9,2% do total de casos de estelionato do ano de 2019, em 2020 esse percentual chegou a 23,2%.

Enquanto no ano de 2019 foram registrados 3.786 casos, em 2020 a modalidade virtual do crime de estelionato atingiu 11.285 casos, sendo os meses de maio, junho e julho os mais altos, com 1.143, 1.548 e 1.616 casos, respectivamente.

Alguns dos bairros da capital com mais casos de estelionato em 2020 são:

Em 2020 foram apreendidas 6.440 armas de fogo pelas polícias. Dentre essas armas, encontram-se revólveres, pistolas, espingardas, metralhadoras, fuzis e outras categorias. Foi o menor número de armas de fogo apreendidas de toda a série histórica, desde 2003. No que se refere aos fuzis, durante o ano de 2020, foram apreendidas 284 unidades, o que representou uma queda de 48,4% em relação a 2019. Foi o menor número de fuzis apreendidos dos últimos seis anos.

Durante todo o ano pasado, houve registro também de 20.790 apreensões de drogas, uma redução de 8,6% em relação ao ano de 2019. Destes registros, 49,5% foram apreensões ligadas a tráfico de drogas, 42,4% foram apreensões por porte ou posse de drogas, e 8,1% foram apreensões sem autor.

Também muito em função do ano atípico, menos gente foi presa em 2020. O número de autos de prisão em flagrante apresentou redução em relação aos últimos anos, totalizando 31.162 prisões no ano, significando uma queda de 11,5% em relação ao ano de 2019. Já o número de autos de apreensão de adolescente por prática de ato infracional manteve a tendência de queda observada nos últimos seis anos, totalizando 4.583 apreensões em 2020, 24,3% a menos do que em 2019.

Em 2020, ocorreram 4.986 casos de roubo de carga, uma redução de 33,1% em relação ao ano anterior. Foi o menor valor observado nos últimos sete anos, apresentando patamares mais baixos do que o esperado pelo estado durante quase todo o ano de 2020.

De acordo com estudo divulgado pelo ISP em outubro, que cruzou dados dos usuários do Google com os registros de ocorrência da Polícia Civil, a queda dos roubos de carga não tem correlação estatística com o isolamento social por conta do coronavírus.