Israel aposta em apoio de cristãos sionistas

DANIELA KRESCH

TEL AVIV, ISRAEL (FOLHAPRESS) - "Não temos melhores amigos do que os cristãos que apoiam Israel pelo mundo."

A frase, do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, repetida diversas vezes nos últimos anos, sinaliza um fenômeno que tem o Brasil como um dos maiores exemplos: a aliança entre cristãos sionistas e judeus conservadores.

Para alguns pesquisadores, os cristãos que apoiam Israel se tornaram mais "irmãos" para o atual governo israelense do que judeus progressistas.

É o que afirma o historiador brasileiro Leonel Karaciki, doutorando na Universidade Ben-Gurion em Beer Sheva. Para ele, prova desse movimento é o fato de o governo Netanyahu passar a dar atenção a cristãos pró-Israel, como evangélicos pentecostais no Brasil e na África, e deixar em segundo plano judeus da diáspora que criticam o país.

"O apoio político desses cristãos sionistas é [visto como] muito mais importante e cria muito mais frutos para Israel do que ter que lidar com uma comunidade judaica que não necessariamente aprova o atual governo", explica.

Para cristãos sionistas, Israel (na verdade, um Israel bíblico imaginário) possui um papel fundamental como parte da profecia de que só quando os judeus voltarem a Sião (Jerusalém) e reconstruírem o Templo de Salomão será aberto o caminho para a volta de Jesus e o fim dos tempos.

Representantes de Israel passaram a participar de eventos evangélicos, como a Marcha para Jesus, para buscar apoio político. O atual embaixador de Israel no Brasil, Yossi Shelley, investiu em uma amizade pessoal com Jair Bolsonaro, envolvendo-se em querelas com membros da comunidade judaica no país.

"O governo Netanyahu se perguntou por que apoiar judeus que protestam contra Bolsonaro, deslegitimizando objetivos políticos de Israel no Brasil, quando tem evangélicos ao seu lado", diz Karaciki.

Para Paul Freston, da Universidade Wilfrid Laurier, do Canadá, a aproximação entre Israel e cristãos sionistas sul-americanos é inusitada, considerando que historicamente os países da região não têm uma postura pró-Israel.

O movimento, afirma ele, tornou-se uma importante fonte de soft power para o país.

Freston assinala que o sionismo cristão existe desde o século 16, há mais tempo que o judaico (século 19), ainda que haja uma tentação de ver o fenômeno só como algo recentemente importado dos EUA.

Ele cita o jesuíta português Antônio Vieira, que, em uma carta de 1659, profetizou o retorno dos judeus à Palestina.

"Hoje, cristãos sionistas brasileiros estão herdando o bastão de Vieira, mesmo sem saber. Ele foi o primeiro cristão sionista do Hemisfério Sul."

Segundo Freston, parlamentares evangélicos e ONGs que pregam a aliança entre cristãos e Israel adquiriram visibilidade pública no Brasil. ONGs como Christians for Israel e a International Christian Embassy têm reportado grande aumento de suas atividades no Brasil, desde 2015.

Depois da criação do Estado de Israel, em 1948, surgiram as formas mais modernas de sionismo cristão, explica o professor. Evangélicos só começaram a ganhar destaque a partir dos anos 1960, e a ascensão de neopentecostais é ainda mais recente.

A visão desses grupos sobre Israel, porém, releva características marcantes do país, como a diversidade de sua população, composta por 20% de árabes e mais de 50% de judeus que se qualificam como seculares ou pouco religiosos.

"O que vemos é a substituição por uma Israel imaginária", diz o sociólogo Rafael Kruchin, coordenador-executivo do Instituto Brasil Israel.

"No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores esquecem como Israel é um país progressista em questões como aborto, direitos da comunidade LGBTQ e legalização de maconha medicinal."