Israel e Jordânia se unem para recuperar rio Jordão e mar Morto

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Os governos de Israel e da Jordânia têm se aproximado nos últimos meses para enfrentar um dos grandes desafios ambientais de sua região.

Esses dois países -que no passado guerrearam- assinaram em novembro uma declaração conjunta para cooperarem na recuperação do rio Jordão. A assinatura aconteceu na cúpula do clima COP27, no Egito.

O rio Jordão está contaminado e vem sumindo. É, segundo a Bíblia, o cenário do batismo de Jesus, além de outros episódios centrais do livro. Turistas, em especial os religiosos, costumam visitá-lo para serem batizados e encher garrafinhas com essa água, de simbolismo tamanho.

A importância do Jordão vai além da Bíblia, porém. O rio desce do mar da Galileia, no norte de Israel, e desemboca no mar Morto. É uma peça fundamental para os ecossistemas do Oriente Médio -uma das regiões do mundo mais afetadas pela mudança climática, segundo especialistas.

Isso sem mencionar a importância política. O rio Jordão passa pela Cisjordânia, um território que Israel ocupa desde 1967. Sua bacia inclui a Síria, em conflito com Israel, e também os palestinos, sob seu controle.

Segundo Elias Salameh, professor na Universidade da Jordânia e especialista no tema, todos os países que fazem parte da bacia do rio contribuíram -por exemplo, desviando água- à diminuição do fluxo do Jordão. Eram 1.400 milhões de metros cúbicos anuais nos anos 1960; o número caiu à taxa atual: de 100 milhões a 150 milhões de metros cúbicos anuais.

O incremento da atividade agrícola e da urbanização nos países da região foi, ainda, responsável pela poluição do Jordão com dejetos e componentes químicos. Ademais, a intensa atividade humana levou a um aumento "dramático", da salinidade do rio, na avaliação de Salameh.

O curso do rio Jordão afeta também o mar Morto, um ecossistema único e bastante frágil -onde turistas vão para flutuar na superfície, graças à excepcional composição salina da água. Segundo o professor Salameh, o nível desse mar baixou em quase 40 metros desde os anos 1970. O mar Morto corre o risco, assim, de fazer jus ao seu nome e realmente morrer.

A diminuição da superfície do mar Morto resulta em diversos fenômenos, como a diminuição da umidade do ar, afetando a vida ao redor. Crateras têm surgido ao redor da costa, com risco a assentamentos.

O texto assinado por Israel e pela Jordânia inclui planos para aumentar o fluxo de água que vem do rio Jordão, limpá-lo, incentivar a agricultura sustentável na bacia e criar reservas ambientais em toda essa região.

Não está claro qual será o impacto imediato, no entanto, e há razões para ceticismo. Em primeiro lugar, porque o ministro israelense que firmou o acordo já não faz mais parte do governo. Em segundo, porque os palestinos -que vivem na bacia- não foram fizeram parte da conversa.

Ainda assim, a assinatura é um marco importante. "Significa que Israel e Jordânia entenderam as consequências do que está acontecendo", diz Yana Abu-Taleb, uma das diretoras da Eco Peace, ONG que conecta israelenses, jordanianos e palestinos para a proteção ambiental.

"Eles compreenderam que a mudança climática afeta todos os lados e que eles precisam cooperar", ela afirma, reforçando que "o ambiente não respeita fronteiras."

Para além do impacto ambiental, Abu-Taleb ressalta também a importância dos planos de recuperação do rio em termos econômicos. O texto prevê o desenvolvimento sustentável ao redor do Jordão, em especial nos territórios onde vivem jordanianos e palestinos.

Na visão de organizações como a Eco Peace, soluções ambientais como a recuperação do rio Jordão têm, inclusive, o potencial de promover a paz regional. "Ao reunir as partes para falar sobre a mudança climática, nós ajudamos a criar confiança entre elas. Só com confiança haverá paz."

Abu-Taleb diz, ainda, que a própria degradação do rio Jordão é uma das consequências dos conflitos e dos desentendimentos entre os países nessa região. "Não há cooperação, e é aí que o rio perde sua água. Os governos se apropriam há décadas do quanto podem, sem negociar. Agora estão enfrentando secas. Se a gente não colaborar, todos perdem."

Salameh diz algo parecido com a fala de Abu-Taleb. "Devido à situação delicada das fronteiras de diferentes países em conflito, as medidas adequadas não foram implementadas", afirma. "O rio Jordão virou um local de depósito para dejetos. E ninguém se sentiu responsável por ele."