Israel tenta evitar novas eleições em cima da hora

Delphine MATTHIEUSSENT
·3 minuto de leitura
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu (C), conversa com seu advogado dentro da corte distrital de Jerusalém, em 24 de maio de 2020, no primeiro dia de seu julgamento por corrupção

Os deputados israelenses multiplicam suas negociações nesta segunda-feira (21) para tentar chegar a um acordo de última hora que evite as quartas eleições em menos de dois anos.

Se os parlamentares não conseguirem aprovar um projeto de orçamento para o último ano que satisfaça todas as partes, a Knesset - o Parlamento israelense - será dissolvida na terça-feira à meia-noite, e novas eleições serão convocadas para março.

Enquanto isso, o país iniciou sua campanha de vacinação contra a covid-19, que registra oficialmente cerca de 370.000 casos em Israel e mais de 3.000 mortos.

A disputa não é entre o governo e a oposição, mas entre os sócios do próprio Executivo, formado na primavera boreal (outono no Brasil) pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e por seu ex-adversário eleitoral, Benny Gantz (centro).

Em abril, e depois de três eleições que não renderam maiorias claras, os dois políticos decidiram formar um governo para enfrentar a emergência sanitária, o que encerrou a maior crise política da história do país.

O acordo incluía um rodízio no cargo de primeiro-ministro e estipulava que o governo adotaria um orçamento único para dois anos (2020 e 2021), mas o Likud (partido de Netanyahu) propôs que dois orçamentos distintos fossem votados, o que o partido "Azul-Branco" de Gantz rejeitou.

Essa questão, nunca resolvida, tornou-se o calcanhar de Aquiles da coalizão e expôs, segundo a imprensa israelense, a tensão existente entre Netanyahu e Gantz.

O Likud se nega a votar o orçamento, e os analistas consideram que Benjamin Netanyahu estaria se aproveitando desta crise para provocar novas eleições e, com isso, evitar ceder o poder a Gantz em novembro de 2021. Ou então para ganhar margem de manobra e renegociar o acordo de coalizão.

Em agosto, a votação do orçamento foi adiada para dezembro. Caso nenhum orçamento seja adotado antes de 23 de dezembro, a Knesset será automaticamente dissolvida, e novas eleições serão convocadas para o final de março de 2021.

- Mais rivais à direita -

No que pareceu ser uma tentativa de resolver a crise, o partido de Benny Gantz anunciou um novo projeto nesta segunda-feira de madrugada: realizar uma votação para adiar a adoção do orçamento de 2020 até 31 de dezembro, e o de 2021, até 5 de janeiro.

Se os deputados votarem contra essa mudança de prazos, as novas eleições acontecerão em 23 de março.

Até o momento, a proposta do partido de Gantz recebeu a aprovação do Likud para que seja apresentada à Câmara.

Essas negociações destinadas a evitar, ou promover, novas eleições - já que a oposição pediu que se dissolva o Parlamento - coincidem com um momento delicado para Benjamin Netanyahu, devido à renúncia de membros de sua legenda, que decidiram mudar de partido.

Seu ex-ministro Gideon Saar anunciou a criação de seu próprio partido, o Tikva Hadasha ("Nova Esperança"), abertamente conservador, e as pesquisas já atribuem a ele um segundo lugar nas intenções de voto.

O Likud continua liderando nas pesquisas, mas o surgimento dessa nova sigla e o auge do partido de direita radical Yamina, cujo chefe é o também ex-ministro Naftali Bennett, podem tirar votos de Netanyahu e dificultar o jogo de alianças pós-eleições.

dms/gl/awa/jvb/eg/aa/tt