Itália, às voltas com novas restrições, troca cantoria nas sacadas por protestos enfurecidos nas ruas

MICHELE OLIVEIRA
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MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - Demorou mais do que nos países vizinhos, mas as novas altas de contaminações pelo coronavírus chegou também à Itália. Diante de números de novos casos que batem recordes e que já pressionam hospitais, o governo tenta há três semanas conter a difusão da doença restringindo a circulação de pessoas. Mas, oito meses depois, a cantoria nas sacadas dos prédios, que virou símbolo de resiliência no lockdown, tem dado lugar a protestos enfurecidos nas ruas. A emergência sanitária ganhou a companhia de um amargo mal-estar social. Desde a metade de outubro, os índices do Covid-19 crescem de forma acelerada. O total de internados com sintomas subiu de 3.097 (em 1º de outubro) para 23.256 na quinta (5). A ocupação na terapia intensiva, de 291 para 2.391 pacientes, e as mortes diárias, de 24 para 445. Segundo a Fundação Gimbe, que faz o monitoramento da pandemia na Itália, desde o fim de setembro a taxa de casos positivos por casos testados passou de 3,1% para 23,9%. Com a intenção de impedir a lotação de hospitais, mas sem precisar frear totalmente a economia, o primeiro-ministro Giuseppe Conte anunciou na quarta (4) a divisão do país em três faixas de risco, de alto a moderado, com proibições diferentes para cada uma. Chamadas de zona vermelha, as regiões de Lombardia, Piemonte, Vale da Aosta, no norte, e Calábria, no sul, são as que recebem, a partir desta sexta (6), as regras mais rígidas. Durante pelo menos 14 dias, a saída de casa só é consentida por motivo de trabalho, estudo, saúde e necessidades como fazer compras. Serviços não essenciais e restaurantes fecham as portas -estes só podem operar para retirada e entrega. À diferença de março, porém, a lista do que é "essencial" é mais generosa: podem ficar abertos cabeleireiros, floriculturas, livrarias, bancas, papelarias, lojas de roupas para crianças, bicicletarias. Creches e atividades escolares até o primeiro ano do ensino fundamental 2 continuam de forma presencial. "Não temos alternativa, devemos enfrentar as restrições para congelar este surto de contágios. Compreendemos o desconforto, a frustração e o sofrimento psicológico, mas temos que aguentar firme", disse o premiê, em pronunciamento na TV. Em seguida, prometeu liberar novas indenizações para os principais afetados pelas medidas. Tudo parece repetido, mas a Itália de hoje não é aquela de março, quando o país se tornou o primeiro do mundo a entrar inteiramente em lockdown. Desde que as restrições começaram a ser retomadas, no dia 18/10, uma série de manifestações acontece de norte a sul. Em cidades como Milão, Roma, Nápoles, Florença, Bréscia, Bari e Turim, protestos envolveram confrontos entre participantes e policiais, saques e prisões. Em alguns casos, integrantes de torcidas organizadas e grupos neofascistas foram identificados nos atos. A insatisfação, no entanto, é generalizada. Foram às ruas nos últimos dias, de forma pacífica, donos de restaurantes e academias de ginástica, taxistas e entregadores de bicicleta, funcionários de teatros e cinemas e tantas outras categorias. Enquanto ainda tentam contornar as perdas econômicas do primeiro semestre, muitos desses trabalhadores e empresários se veem novamente forçados a abaixar as portas. Segundo estimativa da Federação Italiana de Atividades Públicas (Fipe), que representa restaurantes e estabelecimentos do turismo e do entretenimento, até o fim do ano devem fechar 50 mil empresas, com eliminação de 300 mil postos de trabalho. Os reflexos do primeiro lockdown aparecem também nos dados do Instituto Nacional de Estatística (Istat). No segundo trimestre, entre abril e junho, o número de ocupados caiu 3,6%, com menos 841 mil pessoas trabalhando, na comparação com o mesmo período de 2019. Desde março, o governo anunciou a destinação de 35 bilhões de euros para socorrer empresas e famílias por meio de indenizações diretas e indiretas. Alguns desses mecanismos têm como contrapartida o veto a demissões de funcionários por um prazo determinado, que acabou de ser prorrogado até março do ano que vem. Isso não evitou, porém, que a fragilidade social se aprofundasse. Segundo relatório da Cáritas Italiana, entre maio e setembro, do total de 44,8 mil pessoas acompanhadas pela instituição de caridade, 45% estavam pedindo ajuda pela primeira vez -nos mesmos meses do ano anterior, esse percentual foi de 31%. São os chamados "novos pobres" da Itália. É o caso de Maria (não quis revelar o sobrenome), de 25 anos, casada e com dois filhos menores de seis anos. Na última quarta-feira (4/11), ela estava comprando a cesta básica em um dos três Empórios da Solidariedade que a Cáritas mantém em Milão. Lá, depois de terem a situação analisada, famílias recebem pontos para trocar por alimentos e produtos de higiene. Segundo a Cáritas Ambrosiana, que atua nas dioceses de Milão e cidades do entorno, atualmente 8,4 mil pessoas estão aptas a usar o serviço, 61% a mais do que no período pré-emergência sanitária. "Faz dois meses que comecei a vir aqui. Não tinha mais dinheiro para comprar comida para as crianças e pedi ajuda", disse ela, que chegou do Marrocos há cinco anos. No início, o marido conseguia sustentar a casa trabalhando como encanador. Mas, há uns dois anos, as dificuldades foram aumentando e pioraram de vez na pandemia. "Se não fosse pelo aluguel de 700 euros, podíamos viver sem ajuda. Mas, com isso, fica difícil", afirmou, enquanto ajeitava enlatados e fraldas nas sacolas e no carrinho do bebê. "Estou procurando trabalho, para fazer limpeza. Quando encontrar, não venho mais aqui." Na mesma manhã, a italiana Milena Tarsitano, 46, fazia as compras ali pela primeira vez. Casada e com três filhos, seu salário, de inspetora em escola pública, é o único da casa. "Com 800 euros de aluguel e cinco pessoas, não estávamos mais conseguindo. Procurei uma assistente social e cheguei aqui", disse. Nas três sacolas, havia macarrão, enlatados, cereais, leite e café. "Acho que vai dar para uma semana, mas tenho mais pontos para usar até o fim do mês." E o novo lockdown? "Com esse vírus, não se vive bem. É sempre uma angústia." Também pela primeira vez ali estava Lina Panganiban, 54, de origem filipina e morando na Itália há 15 anos. Ela trabalhava como doméstica, mas está desempregada há um ano, o que nunca tinha acontecido desde quando mudou de país. No relatório da Cáritas Ambrosiana sobre o impacto da pandemia, Lina representa bem o perfil dos "novos pobres" da área de Milão -cerca de 9.000 pessoas pediram ajuda pela primeira vez à entidade entre março e julho. São, na maioria, mulheres (59,3%), imigrantes (61,7%) e trabalhadores afetados diretamente pelos efeitos da emergência sanitária. Os filipinos, que tradicionalmente assumem funções de cuidadores, foram os estrangeiros mais atingidos (17,2%) "São pessoas que, de repente, não puderam mais cuidar de idosos, trabalhar nos hotéis fechados, nos bares e restaurantes. Muitos tinham contratos precários, irregulares. Depois das primeiras semanas de lockdown, no fim de março, ficaram sem dinheiro e vieram até a gente para dizer que, depois de um mês sem ganhar um euro, não tinham o que dar de comer aos filhos", contou à Folha Luciano Gualzetti, diretor da Cáritas Ambrosiana. Depois da avalanche de desamparados, a situação se estabilizou a partir de junho, mas, com o aumento das contaminações e o fechamento de parte da economia, voltou a ficar preocupante. "As pessoas estão muito mais desanimadas, prostradas, muito mais preocupadas e enraivecidas a respeito de uma situação que não se resolve e não se sabe quando vai passar", afirma. Segundo o diretor, para evitar que uma crise social exploda e afastar o assédio de agiotas e organizações criminosas sobre pessoas desesperadas, é necessário que as instituições dêem respostas imediatas e de forma integral, evitando burocracias e sem deixar para trás categorias menos tuteladas. "É preciso escutar e responder a todos, não só quem vai às ruas e fala mais alto." Foi justamente para evitar essa divisão entre protegidos e desprotegidos pelos pacotes anunciados pelo governo que o economista Gianmario Cinelli, da Universidade Bocconi, elaborou ainda em março uma proposta de "bolsa quarentena" -uma transferência de renda universal durante o tempo de um lockdown. Pela ideia, que ele reconhece como utópica, a economia da quarentena teria uma espécie de congelamento temporário, em que todos, no lugar de suas fontes de renda habituais, altas ou baixas, receberiam uma quantia suficiente para as despesas, acompanhadas de medidas para suspender o pagamento de aluguéis e financiamentos. "Nosso governo reagiu de modo padrão. Nós já tínhamos as medidas de proteção, mas elas não alcançavam todos. Era preciso imaginar e experimentar soluções mais ambiciosas", afirma ele, pesquisador do departamento de Governo, Saúde e Organizações sem fins lucrativos. As medidas aplicadas criaram situações, segundo ele, de "vencedores" e "vencidos" durante a quarentena. "Quem tem contrato de trabalho estável recebeu uma tutela muito forte, garantindo até 80% do salário. Alguns se saíram muito bem, porque, obrigados a ficar em casa, gastaram menos e conseguiram até guardar dinheiro. De outro lado, os profissionais autônomos, com rendas muitos diversas, receberam um auxílio fixo de 600 euros e só." Além disso, diz, a Renda de Emergência, outro benefício lançado em maio pelo governo, inspirado na sua proposta, falhou em chegar até os mais pobres por exigir critérios muito difíceis de acesso. "Essa crise não é como 2008, ela não é econômica. Ela depende da saúde. É um abalo inédito, incomparável, e os interventos de política pública deveriam ser mais profundos", avalia Cinelli.