Itália inicia julgamento de jornalista antimáfia que xingou Meloni e Salvini

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Justiça italiana iniciou nesta terça-feira (15) o julgamento do jornalista e escritor best-seller Roberto Saviano, acusado de difamação por Giorgia Meloni, atual primeira-ministra.

O autor de "Gomorra" -um tour de force investigativo sobre a máfia napolitana que vendeu milhões de exemplares e foi adaptado para o cinema e a TV--, pode enfrentar até três anos de prisão caso condenado, embora o mais provável é que ele seja forçado a pagar uma multa de até EUR 500 (cerca de R$ 2.770), entre outros.

O caso remonta a dezembro de 2020, quando Saviano atacou a então líder do partido Irmãos da Itália e outro líder da ultradireita italiana, Matteo Salvini, por suas posições anti-imigração. Ao comentar a morte de um bebê de seis meses da Guiné impedido de receber tratamento médico depois que o barco de refugiados em que estava foi proibido de atracar na Itália, Saviano exclamou: "Só posso dizer a Meloni e Salvini: desgraçados! Como eles podem fazer algo assim?".

No ano anterior, Meloni havia dito que navios de ONGs humanitárias que resgatam imigrantes "deveriam afundar". Já Salvini, ministro do Interior na época, havia proibido que essas embarcações, que podem passar dias à deriva à procura de um porto, desembarcassem no território italiano.

Intelectuais expressaram solidariedade ao escritor nas redes sociais. Enquanto isso, organizações que defendem a liberdade de imprensa e de expressão, incluindo a PEN International, pediram que a primeira-ministra retire as acusações. "Seguir em frente com esta ação judicial envia uma mensagem alarmante a todos os jornalistas e escritores do país, que vão deixar de falar livremente por medo de represálias", denunciou a PEN.

Sob proteção policial desde a publicação de "Gomorra" devido a ameaças da máfia, Saviano afirma que o julgamento é apenas uma tentativa de intimidação. "Intimidar um para intimidar cem", diz ele, acrescentando que a "passividade e inércia do governo e do Parlamento italianos" são "cúmplices dos inimigos da liberdade de imprensa". "Pelo que eu deveria me desculpar? Por cumprir meu dever ao criticar os poderosos, como todos os intelectuais deveriam fazer?", questionou.

O escritor ainda é alvo de outras duas acusações de difamação -por parte de Salvini, hoje vice-primeiro-ministro, e de Gennaro Sangiuliano, ministro da Cultura.

A audiência foi marcada pela nona seção do Tribunal Criminal de Roma e será presidida pela juíza Roberta Leoni. Meloni, que está em Bali, na Indonésia, para participar da cúpula de chefes de Estado do G20, não estará presente na audiência. Um porta-voz do partido da primeira-ministra não respondeu aos pedidos de comentário da reportagem.

O início da batalha legal entre o autor e a primeira-ministra se desenrola sobre um pano de fundo de crescentes disputas entre a ultradireita que assumiu o controle do país europeu e ONGs de resgate de imigrantes. Autoridade italianas acusam os navios das entidades de atuar ilegalmente, e na semana passada, impediram que uma embarcação do tipo atracasse em seu território. O episódio culminou com uma rusga diplomática com a França depois que o governo de Emmanuel Macron decidiu acolher os imigrantes à deriva.