Itália não revisou seu número de óbitos decorrentes da covid-19

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Publicações e artigos que circulam nas redes sociais alegam que autoridades italianas revisaram o número de óbitos por covid-19 do país, mudando de mais de 130 mil para menos de 4 mil mortes. Mas isso é falso. As mensagens deturpam um relatório publicado pelo principal instituto de saúde da Itália, que descreveu as alegações como “fake news”.

“Instituto de Saúde Italiano revisou os óbitos por COVID e descobriu que 97% das mortes não foram pelo vírus”, diz uma publicação compartilhada no Twitter.

Mensagens com teor similar circulam na mesma plataforma (1, 2, 3), no Facebook (1, 2, 3), no Instagram, e em artigos publicados em sites (1, 2).

Captura de tela feita em 9 de novembro de 2021 de um tuíte ( . / )

A alegação também foi compartilhada em inglês, em espanhol e em finlandês.

A Itália, que registrou um dos piores balanços de óbitos por covid-19 na Europa em 2020, atingiu mais de 132 mil mortes relacionadas à doença.

As alegações parecem ter origem em um artigo de 21 de outubro de 2021 publicado pelo jornal italiano Il Tempo, que declarou que o Istituto Superiore di Sanità (ISS) - principal instituto de saúde da Itália - modificou seus dados sobre a covid-19.

O artigo argumentou que um relatório publicado pelo ISS em 5 de outubro revelou que apenas 2,9% das mortes por SARS-CoV-2 depois do final de fevereiro de 2020 podem ser contadas como causadas pelo vírus.

O jornal também alegou que o ISS admitiu que “das 130.468 mortes registradas em estatísticas oficiais no momento de preparação do relatório, apenas 3.783 teriam sido causadas pelo poder do vírus em si”, sugerindo que as mortes restantes não foram causadas pela covid-19 porque os pacientes tinham outras doenças ou condições subjacentes.

As mensagens viralizadas afirmam, incorretamente, que apenas pacientes sem nenhuma comorbidade podem entrar na contagem de mortes causadas pelo SARS-CoV-2.

O número de 2,9% representa pacientes com covid-19 sem comorbidades, enquanto os outros óbitos pela doença têm condições adicionais relacionadas, como doenças pré-existentes, ou complicações concomitantes à covid-19.

Pier David Malloni, porta-voz do ISS, descreveu a alegação como “fake news”.

“Isso está completamente errado. O que escrevemos no relatório é que os 2,9% das pessoas morreram não tinham comorbidades”, disse à equipe de verificação da AFP em 4 de novembro de 2021.

Malloni explicou que ter uma ou mais comorbidades “é um fator de risco para a covid-19”, que aumenta a chance de desenvolver a forma grave ou de morrer após se contaminar pelo vírus.

O ISS também refutou as mensagens difundidas em uma nota publicada em 25 de outubro.

Autoridades de saúde dos Estados Unidos também enfatizaram que comorbidades aumentam os riscos da covid-19. Os Centros para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC) do país afirmam em seu site que “o risco de covid-19 severa aumenta quando o número de comorbidades de uma pessoa também aumenta”.

O chefe de Estatísticas de Mortalidade do Centro Nacional de Estatísticas de Saúde (NCHS) dos Estados Unidos, Bob Anderson, disse à AFP em 31 de agosto de 2020 que comorbidades são, com frequência, complicações da covid-19.

“Você tem coisas como perda respiratória aguda causada, ou pneumonia causada pela covid-19”, explicou. Então enquanto essas condições são tecnicamente comorbidades, “a covid-19 é a causa subjacente da morte, porque causou a pneumonia, que fez com que a pessoa morresse”.

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