Itália tenta reagir a uma recessão recorde

Por Céline CORNU et Nicolas GAUDICHET
Homem usando máscara facial caminha no distrito de Trastevere, em Roma, em 29 de abril de 2020

A Itália tenta salvar sua economia que afundou pela crise do coronavírus: o governo apresentou ao Parlamento nesta quinta-feira um novo pacote de ajuda, temendo uma recessão de mais de 10%, ainda mais forte do que a prevista até então.

Terceira maior economia da zona do euro, a península, duramente atingida pela pandemia com cerca de 28.000 mortes, registra um resultado particularmente desastroso, com uma queda de 4,8% de seu PIB no primeiro trimestre, contra uma média de 3,8 % na zona do euro.

Foi na Itália que a epidemia atingiu a Europa primeiro, bem no coração econômico da península: Lombardia, Veneto e Emilia-Romagna. Essas três regiões do norte, que representam 45% do PIB nacional, concentram as atividades orientadas para a exportação, como automóveis e bens de luxo.

Os italianos estão confinados desde 10 de março. A partir de 22 de março todas as atividades produtivas consideradas não essenciais tiveram que ser interrompidas, paralisando o tecido econômico.

Nos últimos dez dias, as empresas retomaram gradualmente suas atividades, mas de maneira extremamente limitada.

O primeiro-ministro Giuseppe Conte apresentou aos parlamentares as mudanças nas previsões orçamentárias, com um aumento do déficit de 55 bilhões de euros e um pacote de ajuda adicional para apoiar a renda e o emprego (25 bilhões de euros) e empresas (15 bilhões).

O novo texto orçamentário espera uma contração de 8% do PIB em 2020, com uma recuperação esperada no último trimestre.

Mas Giuseppe Conte não descartou um cenário mais sombrio em caso de "persistência do vírus", com uma recessão que pode ultrapassar -10%, alertou.

Um número jamais mencionado pelo governo até então, que dá "a medida da seriedade do cenário".

Nas últimas previsões de crescimento, o Fundo Monetário Internacional (FMI) espera uma contração do PIB de 9,1% este ano.

Somente no primeiro trimestre, o PIB caiu 4,7% em relação ao período anterior, anunciou o Instituto Nacional de Estatística Istat nesta quinta-feira.

- Desemprego -

E a queda de 0,9 ponto percentual no desemprego em março (8,4%) é enganosa: esse número só leva em consideração aqueles que procuram ativamente trabalho e não aqueles que interromperam a busca devido à cessação quase total da economia ou do confinamento. Ao mesmo tempo, o número de pessoas inativas aumentou 2,3%, segundo a Istat.

Para tomar a decisão de baixar sua nota sobre a dívida italiana para BBB-, com uma perspectiva estável, a agência Fitch se baseou no cenário de uma recessão de 8%.

"Os fundamentos da economia e das finanças públicas italianas são sólidos", reagiu o ministério das Finanças da Itália.

Com esse rating degradado, a Fitch coloca a dívida soberana italiana um nível acima da categoria especulativa ("junk"), uma decisão tomada pela Moody's em outubro de 2018, mesmo antes da crise do coronavírus.

Essas notas são cruciais para os Estados, porque afetam as taxas pelas quais podem tomar empréstimos para financiar sua dívida.

Na semana passada, a Standard and Poor's manteve seu rating em BBB, com perspectivas negativas.

Em apoio a essa decisão, que surpreendeu alguns analistas, a Standard and Poor's apontou a dívida privada como "a mais baixa do G7" e as virtudes de uma "economia diversificada e rica".

A agência também previu que "a maior parte da dívida soberana italiana criada recentemente este ano após a pandemia será comprada pelo BCE", como parte do apoio às economias europeias.

Segundo previsões oficiais, o déficit público subirá para 10,4% do PIB, contra 2,2% esperado antes do início da pandemia e 1,6% registrado em 2019. A dívida pública deve saltar para 155,7 % do PIB este ano, contra 135,2% previstos antes da epidemia e 134,8% registrados em 2019.