Itamaraty chama herdeiro da família imperial brasileira de 'Sua Alteza' que dedicou vida a 'valores cristãos'

O Itamaraty divulgou neste sábado uma nota lamentando a morte de Luiz de Orleans e Bragança, herdeiro da antiga família imperial brasileira. Apesar do Brasil ser uma República desde 1889, o Ministério das Relações Exteriores se refere a Orleans e Bragança como "Sua Alteza Imperial e Real" e diz que ele dedicou sua vida "à propagação dos ideais patrióticos e dos valores cristãos".

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O tom do comunicado é similar ao do presidente Jair Bolsonaro, que uso o título de "Dom" para se referir ao bisneto da princesa Isabel no decreto que declarou luto oficial por sua morte, na quinta. Orleans e Bragança teve poliomielite na infância e recentemente foi diagnosticado com Alzheimer, que juntos teriam provocado um quadro de fraqueza muscular.

"Com pesar, o Ministério das Relações Exteriores registra o falecimento de Sua Alteza Imperial e Real Dom Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial brasileira", disse o Itamaraty neste sábado. "Bisneto da Princesa Isabel, trineto de Dom Pedro II e tetraneto de Dom Pedro I, Dom Luiz dedicou a sua vida ao estudo do Brasil e à propagação dos ideais patrióticos e dos valores cristãos", continuou a nota.

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Segundo a Constituição de 1988, o Brasil é um país laico‚ isto é, que não pertence ou está sujeito a qualquer crença ou ordem religiosa. Os títulos de realeza, por sua vez, também ficaram para a História quando o Brasil tornou-se uma República há mais de 132 anos.

A presença de símbolos monárquicos e religiosos vêm gerando críticas no Itamaraty durante o governo Bolsonaro — eram mais intensas durante a passagem do ex-chanceler Ernesto Araújo pela pasta, perdendo força com o comando do menos controverso Carlos França.

Araújo chegou a aparecer sentado à frente de uma bandeira do Brasil Imperial durante uma aula magna promovida pelo canal Terça Livre. Em seu discurso por vídeo na abertura da sessão do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (ONU) em fevereiro de 2021, era possível ver em sua mesa uma bandeira da Ordem dos Cavaleiros de Cristo.

Criada no século XIV como uma herdeira dos Templários em Portugal, a organização religiosa e militar teve um papel-chave nas navegações portuguesas e em suas missões colonizadoras, inclusive para o Brasil. Seu símbolo, inclusive, esteve presente na primeira missa em terras brasileiras, pouco após os portugueses desembarcarem na atual Bahia, em 1500.

Como o GLOBO mostrou, Bolsonaro tem certa resistência a decretar luto oficial, como fez para Orleans e Bragança. Não há uma regra rígida, e a decisão geralmente fica por conta de assessores palacianos, ministros ou até terceiros, como amigos.

Ao longo do seu mandato, não faltaram oportunidades para Bolsonaro decretar o luto. Em 2019, não o fez após a morte de João Gilberto, criador da Bossa Nova. Também não houve decreto na tragédia de Brumadinho, que matou mais de 300 pessoas; nem para a morte de mais de 600 mil vítimas fatais da Covid-19.

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Neste mês, o presidente já havia editado outro decreto de luto, contudo, após o assassinato do ex-primeiro-ministro japonês Shinzo Abe, morto a tiros durante um comício no dia 8 de julho.

Nascido na França em 1938, Luiz de Orleans e Bragança era filho de Pedro Henrique de Orleans e Bragança e Maria da Baviera. Mudou-se para o Brasil ainda no ensino básico, que cursou em colégios tradicionais cariocas. Retornou para seu país natal para estudar ciências políticas, antes de se formar em Engenharia Química na Alemanha, segundo o Itamaraty.

Após a morte de seu pai em 1981, ele assumiu a chefia da Casa Imperial, organização não governamental que defende o retorno do regime monárquico no Brasil. Ele será sucedido no comando do grupo por seu irmão, Bertrand de Orleans e Bragança.

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