Itamaraty faz cerimônia escondida após alunos homenagearem diplomata morto pela ditadura

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*ARQUIVO* BRASILIA, DF,  BRASIL,  09-04-2021, 12h00: O  presidente Jair Bolsonaro e o chanceler Carlos Alberto França (de terno cinza) deixam o Palácio do Itamaraty após almoço. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*ARQUIVO* BRASILIA, DF, BRASIL, 09-04-2021, 12h00: O presidente Jair Bolsonaro e o chanceler Carlos Alberto França (de terno cinza) deixam o Palácio do Itamaraty após almoço. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Para evitar um ato que seria visto como uma crítica ao presidente Jair Bolsonaro, o comando do Itamaraty realizou nesta quarta-feira (1º) a cerimônia anual de formatura dos novos diplomatas de forma praticamente escondida.

O evento que marca a conclusão do período de estudos no Instituto Rio Branco, a escola de formação de diplomatas, é um dos mais importantes do calendário do Ministério de Relações Exteriores.

Tradicionalmente, conta com a participação do presidente da República e de diversas autoridades, além de cobertura da imprensa. O próprio Bolsonaro esteve presente nas solenidades dos últimos dois anos.

Mas o evento desta quarta se converteu numa saia justa para o chanceler Carlos França porque, em uma votação interna, os formandos escolheram homenagear como patrono o embaixador José Jobim (1909-1979).

Em 2018, o Estado brasileiro reconheceu que Jobim foi morto pela ditadura militar. Ele havia afirmado que denunciaria casos de superfaturamento na construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu.

A avaliação da direção do Itamaraty é que seria inviável levar Bolsonaro —um entusiasta do regime militar— como principal convidado do ato. A homenagem a Jobim seria entendida como uma crítica indireta ao presidente, que estaria presente.

Para contornar a situação, a formatura deste ano foi feita sem qualquer holofote. Bolsonaro não compareceu, apenas enviou um discurso gravado.

O evento foi fechado à imprensa e tampouco houve transmissão. Procurado, o Itamaraty disse que deve disponibilizar os discursos realizados posteriormente.

O ministério alegou que, na edição deste ano, a formatura teve número reduzido de participantes para “preservar o distanciamento social” e “observar as normas sanitárias vigentes no contexto da pandemia de Covid-19”.

“Nessas circunstâncias, cada formando pôde fazer-se acompanhar por apenas dois convidados”, afirmou o ministério, em nota.

Segundo interlocutores, França também optou por separar a formatura das comemorações do Dia do Diplomata, sob o argumento de cuidados sanitários. Em anos passados, o Dia do Diplomata —com a imposição de insígnias a autoridades— ocorreu junto com a formatura do Rio Branco.

A pandemia não foi um obstáculo para a formatura do ano passado, quando o Itamaraty ainda era comandado por Ernesto Araújo.

Na ocasião, em plena crise sanitária, estiveram no palácio centenas de pessoas, entre diplomatas, autoridades, familiares e homenageados —muitos, como Bolsonaro, sem máscara.

O discurso de Ernesto ficou famoso ao indicar que ele não via problema caso o Brasil fosse tachado de “pária internacional”. “Sim, o Brasil hoje fala em liberdade através do mundo. Se isso faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária”, declarou o então ministro naquela solenidade.

Nesta quarta, a reportagem perguntou ao Itamaraty se a ausência de Bolsonaro na atual formatura tinha relação com a escolha de Jobim como patrono. A pasta não respondeu a esse questionamento.

De acordo com relatos, a honraria a Jobim gerou tensão no Itamaraty nas últimas semanas.

A própria realização do ato no Palácio do Itamaraty chegou a ficar em dúvida. Até há pouco, a previsão era que a formatura ocorresse no próprio Instituto Rio Branco, em um edifício separado da sede da chancelaria.

A transferência para o edifício principal do Itamaraty —onde as formaturas normalmente são realizadas— só foi comunicada a funcionários da instituição nos últimos dias.

A reportagem conversou com diplomatas que acompanharam de perto as discussões sobre a seleção do patrono. Integrantes da atual turma também foram procurados, mas não retornaram as tentativas de contato.

De acordo com interlocutores, os formandos negaram a seus superiores que tenham optado por Jobim para fazer um protesto contra Bolsonaro. Quando questionados sobre o tema, disseram que decidiram honrar a carreira do embaixador.

Jobim ingressou no ministério em 1938. Entre os cargos mais importantes, foi chefe da seção brasileira da Comissão Mista Brasil-Paraguai e embaixador em países como Equador, Colômbia, Jamaica, Argélia, Vaticano e Marrocos.

Diplomatas com conhecimento do tema disseram que o comando do Itamaraty chegou a pressionar os alunos para que eles recuassem e trocassem o homenageado. Como o patrono foi definido por eleição interna, a escolha acabou mantida.

Dessa forma, o grupo de formandos deste ano se chamará oficialmente turma Embaixador José Jobim —a de 2020 recebeu o nome de João Cabral de Melo Neto, e a de 2019, Aracy de Carvalho Guimarães Rosa.

Além do patrono, os alunos também elegem um paraninfo. Neste ano, a escolhida foi a embaixadora Maria Celina de Azevedo Rodrigues, presidente da ADB (Associação dos Diplomatas Brasileiros).

Não é a primeira vez no governo Bolsonaro que a formatura do Instituto rio Branco gera atrito no Itamaraty. Em 2019, a equipe de Ernesto vetou uma homenagem que os formandos daquele ano planejavam fazer ao embaixador aposentado José Maurício Bustani.

Os diplomatas em início de carreira tinham formalizado o convite para que Bustani fosse paraninfo da turma, em reconhecimento ao período em que ele chefiou a Opaq (Organização para a Proibição de Armas Químicas), uma agência da ONU.

Mas a escolha foi vetada porque Bustani tinha protagonizado um conflito no passado com John Bolton, então conselheiro de Segurança Nacional do governo Donald Trump —admirado por Bolsonaro.

SOB SOMBRA DE IDEOLÓGICOS, FRANÇA REAPROXIMA ITAMARATY DO PRAGMATISMO

Substituto de Ernesto Araújo no Itamaraty, o chanceler Carlos França tem se movido lentamente para reverter algumas das principais políticas de seu antecessor. As mudanças de rumo passam tanto pela reformulação das relações do Brasil com parceiros estratégicos —como China e EUA— como por mudanças internas na chancelaria.

Ao mesmo tempo, de acordo com diplomatas, França trabalha com a constante preocupação de não promover uma guinada pragmática drástica no Itamaraty, uma vez que o ministério ainda é alvo da cobiça de expoentes da ala ideológica.

Para conseguir esses objetivos, o ministro construiu bases de sustentação em pontos-chave da Esplanada. No Planalto, trabalha em coordenação estreita com o almirante Flávio Rocha, chefe da SAE (Secretaria de Assuntos Estratégicos). No Congresso, costura apoio junto a parlamentares, alguns dos quais eram rompidos com Ernesto.

Quando tomou posse, no início de abril, França centrou esforços em dois eixos: restabelecer os canais de diálogo com a China —que passaram por atritos após manifestações do entorno de Jair Bolsonaro, incluindo de seu filho Eduardo— e reposicionar o Brasil no relacionamento bilateral com os EUA, já sob o o democrata Joe Biden —o presidente tinha relação próxima com o republicano Donald Trump.

Ele conseguiu no começo de sua gestão assumir a coordenação dos preparativos para a Cúpula do Clima de Biden e, segundo interlocutores, foi um dos defensores de que Bolsonaro assumisse compromissos como o fim do desmatamento até 2030.

O novo chanceler também distanciou o Itamaraty de posições consideradas excessivamente ideológicas em temas sensíveis, como a crise na Venezuela e o conflito entre Israel e Palestina. Na recente crise no Afeganistão, nota da pasta chamou a atenção para violações de direitos humanos e a defesa de direitos de mulheres.

A reformulação da política externa desagradou a expoentes da ala ideológica do governo, como o assessor especial Filipe Martins e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

Embora enfraquecidos, eles ainda mantêm influência sobre decisões do presidente na área. Isso explica, de acordo com diplomatas, que a guinada promovida por França ocorra de forma lenta e moderada. No conflito do Oriente Médio, por exemplo, apesar de ter ensaiado uma aproximação com algumas das posições dos países árabes, as linhas gerais do Itamaraty continuam sendo amplamente pró-Israel.

A reversão de medidas adotadas por Ernesto vai além da política externa. França também trabalha para retomar no Itamaraty a estrutura interna que existia antes da chegada do ex-ministro.

Existem críticas em relação ao organograma criado por Ernesto. A Secretaria de Assuntos de Soberania Nacional e Cidadania, por exemplo, tem sob sua alçada temas diversos que passam por ONU (Organização das Nações Unidas), meio ambiente, direitos humanos e assuntos consulares. França quer reorganizar essas áreas para criar uma estrutura mais eficiente, de acordo com aliados.​

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