Itapeva desconversa sobre política após repercussão de vídeo de bolsonarista com diarista

ITAPEVA, SP (FOLHAPRESS) - A cidade de Itapeva, no interior de São Paulo, elegeu Jair Bolsonaro (PL) com mais de 74% dos votos nas eleições de 2018. Fernando Haddad (PT), à época, não ficou nem em segundo lugar como no resto do país. Quem ocupou o posto foi o ex-governador Geraldo Alckmin, na época ainda no PSDB e rival do PT.

O quadro na cidade mudou desde então, apostam moradores entrevistados pela reportagem. Um efeito da atual divisão na cidade mostrou uma face indesejada, quando o empresário bolsonarista Cássio Cenali, 55, humilhou a diarista Ilza Ramos Rodrigues, 52, por ser eleitora de Lula.

"Eu votei no Bolsonaro. Mas agora estou com um pé lá e outro cá", diz o pedreiro Adelson Alves, 52, sentado na praça principal da cidade.

Ele diz que, se por um lado Bolsonaro podia ter feito mais, também leva em conta o contexto da pandemia. Esse tipo de discussão, porém, acaba deixando para fazer consigo mesmo.

Nas ruas, pouca gente quer falar de política, em grande parte pelo medo de arrumar confusão. "Não sei de nada", "estou por fora", "prefiro ficar longe disso aí" foram algumas das respostas ouvidas pela reportagem sobre a questão política na cidade.

"Alguns ficam meio constrangidos de falar disso", diz Bruno Fernando, 27, que trabalha numa loja no mesmo Jardim Bonfiglioli, mesmo bairro onde Ilza foi humilhada.

Um vídeo mostra o empresário no bairro dizendo que aquela seria a última marmita de Ilza, após ela revelar que votaria em Lula.

"O que o cara fez eu não achei certo, desmerecer uma pessoa que está passando necessidade", diz ele que, assim como Ilza, pretende votar em Lula. "Eu e minha família inteira, o Lula a gente sabe que pensa no pobre", diz Bruno.

A reportagem conversou com pessoas que, por outro lado, afirmaram que Bolsonaro deve continuar em vantagem na cidade devido à influência do agro. A cidade é grande produtora de tomate, algodão, feijão e milho, entre outros produtos.

Para esse grupo, que prefere não ter o nome divulgado, o caso do empresário Cássio Cenali foi um problema que só ganhou as atuais proporções devido à polarização.

"Poupe ele. É uma boa pessoa que doa marmitas sempre", pediu um comerciante à reportagem.

Em comum entre ambas as partes da polêmica da vez, está a crítica à polarização.

Advogado de Cássio, Adilson dos Santos afirma que o caso foi uma infelicidade "num momento errado, numa polarização política, que deu nisso aí".

"É ruim [a violência causada pela polarização], né? Não precisa disso", diz Ilza. "Não quero [falar de política] porque era uma doação [que causou o problema]".

A atmosfera reflete, inclusive, no modo como as campanhas ao Legislativo são feitas na cidade. Ali, ninguém parece estar disposto a se comprometer com a rejeição dos lados na esfera nacional, independentemente do partido a que pertença.

A reportagem rodou pela cidade nesta segunda e verificou que candidatos ao Legislativo não têm usado os nomes dos candidatos à Presidência nos santinhos distribuídos. Geralmente, o material de divulgação traz só candidatos a deputado estadual, federal e senador.

Embora a reportagem tenha encontrado eleitores de Lula, o PT em si tem pouca força na cidade. Em 2020, o candidato petista Henrique Prestes teve apenas 2% dos votos e ficou em sexto lugar. Dr Mario Tassinari (União Brasil), foi eleito no primeiro turno. No quadro eleitoral, como muitos outros prefeitos do interior paulista, ele é apoiador do governador Rodrigo Garcia (PSDB), outro que também prefere ficar de fora da disputa nacional.